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O duplo trabalho da mulher

Porque em pleno século XXI certos setores profissionais tem a predominância masculina? Na seguinte reportagem tentamos desvendar esse dito mistério e mostrar quem são as guerreiras que desafiam esse sistema.

Lidia* chegou para a entrevista perfumada, toda arrumada, cabelo preto e alisado até quase a cintura. “Oxi, achei que fosse cum foto!”, falou envergonhadamente. Lidia pediu para ser só Lidia, afinal ela era apenas uma pedreira, que levantava andares de prédios residenciais no alto do seus récem feitos 51 anos. Ela era contratada há 3 anos pela *nome omitido* Construtora Ltda, uma antiga empresa da capital paulistana. “Ó, não vou falar que é fácil, alguns aí são fogo… Mais dá dinheiro, que alimenta as criança, e sou braba!”, responde esbravejando a minha pergunta sobre ser mulher num setor com tanta presença masculina. Lidia ainda me contou que no atual trabalho era “até bom”, pois no outro tinha um chefe que já tinha tentado “fazer coisa errada, coisa que homi de bem não faz”. Esse é um dos principais e mais citado obstáculos para a mão-de-obra feminina adentrar profissões predominantemente masculinas.

A insegurança das trabalhadores em estar em um meio onde são minoria não é algo infundado. Uma pesquisa divulgada em 2011 pelo grupo de empresas ABC revelou que, nos EUA, a cada quatro mulheres, uma pelo menos sofreu assédio sexual no ambiente de trabalho. Por ficarem intimidadas, impotentes, pois a denúncia não surtiria efeito, quase 60% dessas mulheres não registraram queixa contra o agressor. No caso de locais de trabalho em que seus colegas e seus superiores em sua maioria são homens, esse quadro se agrava ainda mais. É extremamente difícil coletar dados específicos sobre o assunto, devido também à certas mulheres que, por medo, preferem o silêncio diário à denúncia. Lidia* foi mais umas dessas trabalhadoras, que preferiu sair da empresa a conviver com o chefe “abusado”. Essa é uma das queixas que todas as entrevistadas tiveram. Sempre, independente do setor que trabalhavam, tinha um homem “abusado”, “desrespeitoso” ou “cafajeste”.

A tradição moral de certas profissões ficaram conhecidas ao longo dos anos como sendo prioritariamente para homens, profissões com predominância masculina, tais como a de Lidia, pedreira — setor que segundo dados do IBGE (2012) tem um percentual de 93,9% de homens contra 6,1% de mulheres — ou ainda soldadora, fiscal de fronteira, ou até mesmo recruta do exército são de difícil acesso para elas. O motivo dessa dificuldade é em grande parte pela intimidação e coerção no ambiente de trabalho, apenas e somente por ser mulher. Lidia* já era avó, tinha 50 anos, moradora do Capão Redondo e atualmente atuava em uma obra de um conjunto residencial perto de Moema. Ela era parte desse também desse percentual, dessa realidade.

O assédio sexual, de maneira específica, é uma das grandes aflições que atingem mulheres de todas as idades, classes e etnias, restringindo sua liberdade, seja de ocupar determinados espaços públicos, de andar sozinha em certos horários, seja de escolher o que vestir. No caso do assédio sexual no ambiente de trabalho, há o agravante de, na maioria das vezes, envolver não apenas a relação de opressão de gênero, mas também a opressão de classe.

“Quando disse para meu pai que queria servir o exército para lutar pelo país, inspirada nele que foi militar, ele riu e me mandou aprender a fazer coisa de mulher, para conseguir um bom marido”, me disse como quem debocha do passado.

A solidificação da mulher no mercado de trabalho, a discriminação entre gêneros passou a ser refletida mais escancaradamente. As trabalhadoras, apesar de seu maior grau de escolaridade, recebem salários mais baixos que os homens (28% a menos, segundo pesquisa de 2011 do IBGE), têm menores oportunidades de conseguir emprego (pesquisa do IPEA de 2009 revela que o índice de desemprego entre homens brancos é de 5,3%, enquanto de mulheres negras é de 12,3%) e são preteridas em relação a homens no momento das promoções. Além disso, sem sombra de dúvida, são as maiores vítimas do assédio moral e sexual dentro das empresas. Todos esses fatores mostram como, apesar do avanços da trabalhadora feminina no mercado de trabalho, este continua sendo sexista a ponto de preterir o homem em termo de salário, contratação e local agradável de trabalho.

Ainda em pleno século XXI, durante essa reportagem, descobri que os dois passos que as mulheres que trabalham dão a cada ano, estão sendo dados com sapatos velhos. Apesar de a trabalhadora ter se consolidado como tal, ter conquistado esse direito e ter sido cada vez mais participativa no mercado de trabalho — inclusive em cargos de diretoria de empresas ou no âmbito político, como deputadas estaduais -, ela ainda é amplamente discriminada e recebe até 30% menos pelos homens que estão nos mesmos cargos (IBGE, 2012). Este ano, com objetivo de chamar atenção para desigualdade salarial de gênero, um restaurante em São Paulo, Ramona, acrescentou uma taxa no cardápio com esse percentual, exclusiva para homens. A campanha conhecida como “Unfair Menu” (“Menu Injusto” em tradução livre) e foi promovida pela agência de publicidade Agnelo Comunicação. Gerou grande repercussão nas redes e nos clientes do restaurantes, mas não na raiz do problema: as empresas. Os avanços femininos esbaram nessas diversas dificuldades, e nem o fator da mão-de-obra especializada, com nível superior, diminui essa disparidade brusca entre os salários.

Com os grandes avanços sociais e políticos desde o início do movimento das mulheres, com vertentes feministas, grupos pela redemocratização do país e melhoria nas condições de vida e de trabalho das mulheres e da população em geral, na década de 70, os avanços de inserção da mulher no mercado de trabalho têm sido muitos. Mas ainda sim, certos setores como serviços domésticos continuam sendo dominados por mulheres, com 94,8% de participação na população empregada na área. Outros setores como o de Marta Silveira Vânio Marques, ou simplesmente Recruta Silveira, eram escassos de mão de obra feminina também por preconceito. “Quando disse para meu pai que queria servir o exército para lutar pelo país, inspirada nele que foi militar, ele riu e me mandou aprender a fazer coisa de mulher, para conseguir um bom marido”, me disse como quem debocha do passado.

A militar é uma das poucas em seu quartel, 4° Batalhão de Infantaria Leve (4º BIL), mais conhecido como Quitáuna, o bairro que se localiza em Osasco, próximo à São Paulo. Mesmo sendo uma mulher de “bom porte físico”, confessa que enfrenta diversas piadas no trabalho, mas que são poucas e, logo, ela “dá um jeito”. Com apenas 19 anos, ela é a mais nova recruta no ambiente e sente falta de mulheres na sua área dentro da corporação. “Aqui dentro tem mulher, mas a maioria está na enfermarias, hospitais… Vemos poucas de nós na frente de batalha, junto com o homens rolando no barro, no treinamento”, ela diz, meio decepcionada e ao mesmo tempo ciente do problema da profissão que escolheu. A recruta vê as profissões de maioria masculina como algo absurdo e que tem que mudar: “é inconcebível, para mim mulher é melhor que homem, mas não somos que está contratando…”.

O assédio sexual no ambiente de trabalho, a diferença salarial baseada em gênero, a ultravalorização da força braçal e intelectual masculina são um dos principais fatores negativos citados pelas próprias trabalhadores e se confirmam com dados do IBGE 2011. Apesar de a mulher estar entrando cada vez mais no mercado de trabalho, também sem deixar a parte do trabalho doméstico de lado — muitas delas fazem a conhecida jornada dupla: vão trabalhar e chegam em casa e ainda tem mais trabalho — esse obstáculos torna a mesma estrada que os homens percorrem, 30% mais difícil. Porém em contraponto, as mulheres são as que mais estão assumindo cargo de “chefe de família”, se especializando e batalhando por uma vaga no mercado de trabalho. Cada dia mais mulheres adentram as faculdades, cursos técnicos ou os concursados, em busca de uma vida profissional digna. É hora de deixar a supremacia masculina de lado, principalmente as empresas, que apenas perdem com a ausência da garra feminina em seus quadros de funcionários.

*Lidia é um nome fictício, a entrevistada pediu para não ser identificada.