Eu sou a luz que entra pela janela
Difusa
Meus braços colorem objetos que seriam senão obscuros
inúteis.
Permaneço calada 
pois ser luz já é gritar aos olhos alheios
e o mundo precisa de silêncio.
Nunca fui nada que não precisasse ser
E o meu toque nunca foi além do eterno colorir involuntário.
Nego a sombra que é por minha existência
Pois aceitá-la seria admitir que tudo é passageiro
E estar e ser são somente circunstâncias
às quais outras luzes se somam e reproduzem o que os olhos e ouvidos chamam de mundo.
Eu sou somente a luz que entra pela janela
e ilumina a mão do menino
O menino não percebe porque eu sou só luz
a minha agitação é nada além de algo a não ser visto
mas eu percebo o menino
ele que tem qualquer coisa de diferente
ele que diz que perde um pedaço da alma quando eu lhe toco
E quer saber como luz se comporta
Sendo diferente de menino
Não sabendo usar palavras
Pois luz só fala como luz
Disse que era o mesmo
Quando na verdade o toque do menino na luz é trazer a alma de luz na pele
Agigantá-la a ponto de estar em casa milímetro do braço
e não num esconderijo secreto.
Eu sou só a luz que entra pela janela
mas a sombra é o que mais me importa
Ela, que é o silêncio depois do fim da música
A pausa entre as palavras
Que toca por entre os dedos do menino
E mira nas ausências que me doem
pois eu queria cobrir todo ele
Ainda que fôssemos somente.
Há algo que perpassa nossas consciências e me leva a ser a luz que vem do lado de fora
E ele
O menino que está do lado de dentro
Não me cabe ser mais ou menos que isso
Eu sou somente a luz que entra pela janela.