livre inconsciência
existe consciência na tristeza porque a consciência escraviza. tudo me escraviza: esses prédios, cabrestos de concreto perfeitamente planejados para tapar o sol, o céu; esses olhos que determinam o amor que jamais teremos; esse conjunto de regras que me impele ao inferno só porque existiu intensidade no meu corpo e nos meus braços e nos meus olhos. na minha mente também. me escraviza essa língua que delimita aonde é que o meu sentimento (tão meu) deve percorrer, criando uma estrada de expectativas e reações possíveis.
sou escrava da minha consciência fabricada e, por consequência, da consciência alheia.
será tão terrível declarar-se incapaz?
é isso que sou.
Incapaz
num movimento repetitivo, me vejo abraçando uma parede de pregos. corro e me escondo, mas quando me dou conta, estou abraçando de novo.
escorre lentamente,
sangue, pus e merda de mim
atestados de que sou incapaz
incapaz de ser para ter,
incapaz de ser sem amar,
incapaz de assistir a escravidão silenciosa;
num emaranhado de respostas inúteis à servidão,
meu corpo se desfaz numa poça de ressentimento e indignação.
se eu não me submeter, a morte
como última fatia do bolo congelado de tristeza
será minha salvação?
de rebeldia só se encontra beleza na imensidão
no contraponto eterno ao status quo
e se a hierarquia me aponta a vida
eu aponto à morte como solução
sou apenas um grão de areia que por algum motivo deu errado
uma falha num sistema
célula cancerígena
que não deseja ser corrigida
e não tem a intenção de transformar a consciência alheia.
se eu pudesse falar, diria que vocês todos são horríveis.
mas sou incapaz
e por isso finjo sorrir enquanto me golpeiam pelas costas.
e é por isso que eu me desdobro em fuga eterna do amor alheio
perseguindo os coelhos imaginários do amor fugitivo de outro
nunca nos encontramos.
escravidão é colocar valor no que não se tem:
tão intrinsecamente é conquistada essa resolução
que a vejo em tradução nesse olhar
gosmento pelas lágrimas que eu não derramei
carregando o vestígio de uma dor tamanha
que me fere de dentro para fora
porque ninguém nunca me quis
e eu nunca quis ninguém.