Sou o verme que caminha na entranha do intestino do porco
 Eu sou o coração dele que não bate
 senão por um impulso costurado à boca escancarada
 que grita em dor e pranto.
 Distribuo sorrisos ensacados aos inválidos
 e estou resignada à tentação de fazer do escárnio meu grito de ódio
 para ser o que eles são
 A verdade é que no fim não faz diferença nenhuma
 Nenhuma arte,
 nenhuma frase que os poetas tenham dito
 alivia a dor dele
 e não alivia a minha
 porque sou ele costurado à minha pele
 esfaqueado
 e
 cada
 g
 o
 t
 a
 é um pingo do sangue que ele sangra através de mim.
 Nada disso faz diferença nenhuma porque todo mundo sofre
 e vai seguir sofrendo
 mesmo que os céus tenham as cores mais bonitas
 ou que as flores sorriam como se nunca tivessem visto nenhum homem.
 Estou costurada à ele e sinto também o sorriso que se esconde por trás da dor
 mas não se revela para manter o poema
 Não me prender ao xeque mate mudo que engole os versos
 e destitui cantores dos palcos
 é o meu entender da questão: não faz diferença.
 Falar ou não falar é apenas o remontar de questões inúteis à vida
 e ainda que não fossem todos surdos,
 o viver seria mudo.