14. 23. 15.

Era de se esperar que algo assim fosse acontecer? Sou o tipo de pessoa que não consegue mascarar sentimentos. Tem suas vantagens e desvantagens, mais desvantagens.

Acredito muito fácil nas coisas, mas quando desacredito viro cética irremediável. É assim que as pessoas se tornam carrancudas? Essa coisa de viver é o maior desafio do homem, se bastasse apenas existir, mas a gente tem que saber, ser, ter, fazer, conseguir, tantos verbos que não caberiam aqui. Cultivar o egoísmo nunca foi tão fácil.

“Me desculpe, não é você, sou eu. Realmente sou eu, não estou preparada pra isso, pra dividir minha intimidade, meus dias. Eu não acredito em amor, mas era de antes de você. Por favor, não chore. Não fique triste por minha causa, me sinto péssima.”

Quando foi que me tornei tão oca? Quando me esparramei e sequei as coisas simples que também são belas?

Eu observo as costas dele, largas. A cabeça inclinada pra um lado, o cabelo liso, fino. Eu poderia afagar se quisesse, dizer um sim. Gosto dele, mas não o suficiente, não o suficiente pra ser honesta.

“Tente, tente, tente! Tente achar um fio de sentimento, qualquer coisa pra se agarrar!” cismo. Mas não me contento com migalhas, com esmolas. Não. Não sou assim. Não sou de conversas sem sentido, de apostar no acaso pra ver no que dá sem levar em conta o sentimento dos outros, a coisa toda. Não vivo caçando algo no desespero de ter pra ser, sem me perguntar o motivo. Ser dependente de um sentimento por medo de uma solidão que é tão natural. Não me perdi totalmente, mas eu não era assim tão vazia, acho que me furei no caminho e não me vi vazar.

“Não entendo, tem certeza do que você diz sentir? É tão cedo sabe? É tarde pra mim. Não me odeie. A gente começou dizendo um pro outro o significado de tudo. Sem jogos, sem meias verdades, sem enrolação. Mas agora, bem… não me deixe nessa posição. Talvez a gente tenha ido longe demais. Talvez eu não tenha prestado atenção nas coisas, eu sou sempre distraída. Preciso ir.”

Sempre digo isso, “preciso ir”, “preciso dormir”. É uma substituição pra “não quero estender a conversa”. Ele entendeu, ele era assim também e foi embora. O que nos unia era o abismo. Não tinha visto a pontezinha que se ergia, improvável e frágil no meio de uma escuridão gigantesca. Ela era ridícula, tão ridícula que passava despercebida, mas existia. Fui até a ponta do meu precipício e gritei de uma forma bestial. A ponte ruiu, enquanto eu me arranhava com a areia e as pedras do chão tentando sentir algo. Nada.

“É assim que a gente vira o tipo péssimo de pessoa? Não quero saber. Preciso ir dormir”.


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