A fábula do predador

Lobos, cordeiros e outros animais

(Imagem: Gilles Vranckx)

Sempre me pergunto qual é a forma certa de iniciar uma história, ela pode ser até boa, mas se o início não for um pouco intrigante passa despercebida.

Cutuco a pele do rosto enquanto penso em um início, apago o cigarro... Talvez devesse me preocupar menos com isso. É certo que ordem nunca foi algo que me atraiu, regras, formas, normas. Tenho aversão ao que implica o desejo dos outros sobre mim, ainda mais se não há motivo racional para isso. Na segunda série estudei sobre a lei da selva, a lei do mais forte que sobrevive. A professora dizia que os homens eram dotados de inteligência e por isso se sobressaiam perante os outros animais “irracionais”.

Ainda penso nisso quando lembro daquele lobo. Encontrava-o nas noites de lua cheia. Não era animal domesticado, era arisco, perigoso, mas belo na escuridão do quarto. Os olhos eram pequenos faróis que emitiam uma luz fraca, mas hipnotizante. Já conhecia a fera, ela me subestimava. Certo dia encostou a cabeça em meu colo e me permitiu afagar. No outro cavalguei com ele por longas distâncias, me mostrou o lugar onde dormia, sua caverna.

Me disse coisas tão bonitas com o hálito fétido. Não fosse meu olfato talvez acreditasse no lobo. 
Maquiava a beleza com falas e gestos decorados, mentiras se acumulando na garganta, os dentes afiados ainda com restos da última mulher. Olhos esbugalhados como louco que acredita não ser. 
Eu era outra chapeuzinho a ser engolida. Mas naquele dia parecia tão dócil quanto uma ovelha. 
Nunca gostei de ovelhas, elas sempre precisavam de um pastor. Nunca gostei de lobos, me fascinavam pela beleza.

Gostava mesmo dos cachorros vira-latas que encontrava na rua. Honestos com seus desígnios e vontades. Eram o que eram sem vergonha. Sujos, carentes, brincalhões, desconfiados, mas se conseguisse a afeição de um era algo realmente bonito de se ver. 
Não era o caso do lupino, insistindo em sorrisos e risadas projetadas para seduzir, criadas para lhe ocultar. 
Meus olhos não eram tão grandes quanto os dele, mas eram de águia. Observaram de longe antes de se finalmente se aproximar.

-Eu te amo, ele uivou.

E nos olhos do lobo vi a história passada, a chapeuzinho da vez com seus cabelos vermelhos e capa até os joelhos se rendia na mata. Ele a comia, cuspia, comia e aos poucos a matava. A carne apodrecia e era menos apetitosa a cada dia. A carcaça foi largada num canto, ela juntou os pedaços com lágrimas e pinturas para cobrir as marcas das mordidas. Como senti pena dessa mulher! Vou comer o coração desse homem!

Um lobo conhece outro predador, admite sua existência, mas não superioridade. 
Pela manhã, após dormir comigo, lhe arranquei os olhos, ficou cego de amor. Deixei as orelhas para que escutasse o comando de minha voz.

-Você vai me odiar e me amar até o fim de seus dias.
-Eu te amo, ele repetia.
-Eu sei disso, vem comigo, quero te contar uma história.

E foi assim que comecei a narrar a história do lobo cego pelo que queria enxergar.


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