Anotações sobre o primeiro amor

Havia um par de olhos no fim da missa que a encarava sem o mínimo pudor. Do outro lado do estacionamento a figura encostava na traseira de um carro e punha-se a observa-la.

Nunca tinha conseguido sustentar tanto tempo o olhar, mas aquele menino tinha um ar tão seguro de si, tão insolente que lhe dava raiva. Poucos segundos de miradas confusas pareciam semanas. 
 E todos os domingos pegou-se procurando aqueles olhos que faziam-na sentir algo entre curiosidade e despeito. 
 Meses se passaram até admitir para si que estava apaixonada. 
 O hábito de ir à missa aos domingos se tornara quase tolerável. 
 Houve o dia em que se falaram e trocaram número de telefone.

A semana seguinte foi uma tortura, esperava uma mensagem, uma ligação, antes não soubesse número algum, não esperaria nada. 
 Pela tarde de uma terça uma mensagem na tela do celular perguntava se eles poderiam se encontrar.
 Mas onde? A mãe tinha olhos de águia, não permitia que a filha saísse só, a não ser… a não ser para igreja. Num domingo à tarde deu seu primeiro beijo na esquina da rua de trás de sua casa. O coração batia tão rápido que parecia que iria sair pela boca e partir saltitando pela rua em disparada. Daí em diante inventava terços, confissões semanais, qualquer desculpa que a fizesse sair de casa sem levantar suspeitas. 
 E a paixão virou amor quase inconscientemente. E como não tinha receio em falar daquele sentimento que a fazia tão bem, acabou se declarando facilmente. 
 Ela quis realmente algo pela primeira vez na vida. 
 Discutiu com os pais, que não queriam o relacionamento, o menino não era direito. Ela sabia disso, mas acreditava que ele melhoraria, ela faria dar certo. E por fim depois de quase um ano de vai não vai, iniciaram oficialmente um namoro no terraço de casa com direito à espiada ora do pai, ora da mãe, ora da irmã, que tinha sido obrigada a isso.
 Beijavam nos raros momentos de privacidade, ela não sabia, mas era aquilo que tornava a história toda mais interessante e excitante. Se despediram com um beijo tímido e ela se pegava cheirando a própria roupa que agora tinha o cheiro dele. Era um perfume tão forte que a rinite atacava. Mas ela fungava e sorria, era jovem, tinha aquela rebeldia com curiosidade que fazia de tudo uma aventura.

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