Folhas em branco

Sempre tive atração por folhas de papel em branco, me excitava ao imaginar quantas coisas poderia escrever ali, poderia também rabiscar com lápis de várias cores.

Quando pequena escrevia com um cotoco de lápis, nunca duravam em minhas mãos. Rabiscava folhas de caderno, de papel ofício, mesas, paredes. Fui repreendida inúmeras vezes por meus pais por acabar com as pinturas dos corredores da casa com desenhos e com as letras do alfabeto.

Ainda sem saber ler ou escrever inventava palavras com as poucas letras que tinha decorado.

Fingia ler livros, fingia escrever meu nome nos cadernos de desenho.
 Tinha pressa em conhecer as letras, em juntá-las.

Ao olhar os livros e não entender nada imaginava que ali estivesse escrito um segredo, eu sempre tão curiosa queria poder saber tudo o que aquelas letras amontoadas em várias páginas estavam escondendo.

Na adolescência tive diários, vários! Inclusive os fiz de alguns dos cadernos do colégio. Ao pegar o caderno de matemática escrevia ali sobre a vida mais do que as fórmulas que tanto me faziam quebrar a cabeça. Escrevia sobre amor, sobre raiva, sobre rebeldia, sobre sair de casa e nunca mais voltar. Escrevia as minhas tristezas com a esperança de que, fazendo isso, as tirasse de mim e naquelas folhas elas ficassem aprisionadas.

Escrevi também na adolescência muitas cartas de amor, inúmeras! Cartas onde me declarei, onde jurei amor eterno, onde expus o peito aberto, onde denunciei meu ciúme sem o mínimo pudor, sem medo de julgamentos.
 Escrevia sem medo de dizer o que pensava, sem medo de ser criticada, ali poderia ser eu mesma sem receios.
 Essa relação com as folhas de papel em branco conservo até hoje. Ainda tenho inúmeros cadernos de vários tamanhos espalhados pela da casa. Ainda escrevo quando quero desabafar a angústia ou materializar minhas pequenas felicidades.
 As folhas em branco me lembram inícios, sempre gostei de inícios.

Ao segurar a caneta e escrever a primeira letra no papel sinto como se estivesse experimentando algo pela primeira vez, como se as palavras que vou escrevendo virassem sentimentos, sangue correndo da ferida aberta do meu peito.

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