Imagem: Loika

O bico de pato

Pequenas coisas que ferem

Era uma vez uma menina, chamavam-na Nina, por justamente ser essa a primeira coisa que conseguiu falar. Um belo dia, na sala de jantar, engoliu um bico de pato dourado debaixo da mesa. Depois disso teve a certeza, ele iria abrir dentro do peito e destroçar seu coração. Então quando começou a sentir os primeiros apertos correu ligeiro para mãe e disse: vou morrer cedo e não quero ir pro céu, o que eu vou fazer por tanto tempo?

Já tinha lido todos os livros das prateleiras baixas de casa, mas os de cima que faltavam eram poucos, eles logo acabariam um dia ou outro. Será que existiam livros suficientes para se passar a eternidade? Será que não iria sentir saudade de casa ou de dormir enfiada na cama do meio no quarto com as irmãs? Tantas coisas se passavam naquela cabecinha esvoaçante, tanto receio pelo tédio que parecia aquela coisa de vida eterna. Apesar de toda aversão queria ir para o céu e virar deusa, queria abraçar o avô que tinha partido naquele ano, queria contar à Deus os pecados selados pelo silêncio e pelo bico de pato.

Colecionava lembranças, viu a irmã mais velha beijar um rapaz por cima do muro, assistiu a mãe tomar banho e lavar os pelos pubianos, viu um absorvente sujo de sangue no cesto de lixo de um restaurante. Será que viveria o suficiente para todas essas coisas?

Nina já não falava como antes, gritava à noite com medo das dores que iriam a matar. Não queria morrer dormindo, queria estar acordada para lembrar o rosto de cada um que tinha seu apreço, queria um último beijo na testa, uma última lembrança, não queria morrer criança, queria viver por mais tempo. A dor não cessou em uma semana, nem em um mês, durou anos. Até que Nina, não mais menina, aprendeu a conviver com o bico de pato, apertando, dilatando as carnes, fazendo-na sangrar a qualquer momento. Nina, moça, sorria por fora e gritava por dentro. Nina, moça, tinha lido livros suficientes para preencher as estantes de todo o céu. Não via na eternidade o tédio, mas sim o descanso de todas as noites que lhe foram roubadas pelo maldito bico de pato, que disseram que tinha outro nome, mas tinha o mesmo significado.


Meu nome é Isabella Luiz, mas no Medium comecei como Celina. Esse conto é de uma pequena série intitulada Pequenas coisas que ferem, que pretendo lançar aos pouquinhos aqui. Agradeço a todos pelo apoio nesses quase dois anos de escrita — quase — periódica. Esse ano estarei lançando meu primeiro livro, vai ter post futuro sobre isso, por enquanto ele está aquecendo outras mãos. Espero poder contar com o suporte de todos vocês como sempre. Um grande abraço!

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