Hoje é um péssimo dia para ser mulher e ler comentários de Facebook.

Estava voltando para casa e checando as notícias em portais jornalísticos, como faço todos os dias, quando me deparo com a notícia de que atrizes globais de grande relevância protestavam contra um assédio que o ator José Mayer cometeu contra a figurinista Su Tonani.

Pesquisando um pouco sobre o tema, vi que em um depoimento à Folha, Su contou que durante meses foi assediada verbalmente pelo ator, mas que depois de alguns meses de assédio verbal sendo levado como uma brincadeira pelo ator e pelos colegas de profissão que viam o que estava acontecendo, ele foi além: José Mayer assediou Su fisicamente, colocando suas mãos em sua vagina.

O fato em si é extremamente repugnante, mas o que me chamou atenção na história não foram as atrizes protestando a favor da figurinista, não foi o fato de José Mayer colocar a mão na vagina de Su, nem ao menos a Globo ter apoiado o protesto das atrizes ou o caso ter sido abafado.

Foi o fato de que José Mayer, um homem famoso, rico, casado há mais de 40 anos, com uma filha, uma carreira consolidada, protagonista de novela das 9, ter assediado por meses uma colega de trabalho e ninguém acreditar na vítima ou fazer nada quando ela estava incomodada com o assédio no começo, quando ele ainda era verbal. Pior do que isso: ao ler os comentários de Facebook, podemos perceber que ainda existe a culpabilização e descredito da vítima.

“Ele asqueroso e ela oportunista. A moça vive esse terror á 8 meses e não se pronuncia durante todo esse tempo, não é muda, nem cega, deixou acontecer calada’’, diz um dos comentários no Facebook da Folha.

O assédio físico aconteceu em fevereiro desse ano, de acordo com Su, mas só agora, em abril, a notícia começou a tomar conta dos portais porque a figurinista teve coragem de denunciar. Digo coragem porque não é fácil denunciar um assédio quando ele acontece em um ambiente comum e por uma pessoa comum, imagine então quando ele acontece na Globo e por um ator renomado.

Além disso, Su foi uma guerreira também por reconhecer o assédio, se incomodar com ele e denunciá-lo publicamente. Até hoje, infelizmente, muitas das inúmeras mulheres que são assediadas diariamente nas ruas não sabem que aquele incômodo de ser chamada de gostosa na rua por um desconhecido é assédio e é crime, um crime que pode e deve ser denunciado. Com a coragem de Su, talvez mais mulheres se empoderem e recorram a esse recurso que é delas de direito. Acredite: se uma mulher já foi assediada, mesmo que ela não saiba que aquilo foi um assédio, ela se lembra exatamente como foi.

O relações públicas de Mayer teve uma boa sacada ao liberar para a imprensa uma carta aberta do ator admitindo o erro por ter sido fruto de uma geração machista que acha natural fazer comentários machistas e desrespeitado Su, reforçando ainda a ideia de que Mayer é um pai de família e que aprendeu com seu erro.

Pra mim, ao reforçar essa ideia de que Mayer é um ‘’pai de família’’ ele só desrespeita ainda mais Su, e pior, desrespeita ainda a sua esposa e sua filha. Ser um pai de família não torna nenhum homem melhor ou pior que outro, nem legitima nenhum discurso.

Mayer não deveria ter publicado uma carta se desculpando e nem justificando o seu comportamento machista na sociedade machista e patriarcal que cresceu, ele simplesmente não deveria ter assediado.

Isso me lembrou ainda algo que discuti em sala de aula sobre a campanha contra assédio que o metrô de São Paulo organizou no último ano. A ideia da campanha é que a mulher denuncie o assédio, mas o mais coerente seria que a campanha pregasse que os homens não façam o assédio, certo? É mais difícil tratar a raíz do problema do que seu sintoma, claro, mas é extremamente mais eficaz a longo prazo.

Se formos além podemos pensar ainda no caso do cantor Victor, da dupla Victor e Leo, que foi acusado de agredir fisicamente a sua esposa grávida, Poliana Chaves. Quando a denúncia surgiu, Victor estava no ar ao vivo todos os domingos no The Voice Kids. A posição que a Globo tomou foi simplesmente apagar o cantor do programa, sem dar explicações ao público, de certa forma, favorecendo Victor e diminuindo Poliana por não levar o caso a discussão em seu espaço.

Só me resta torcer para que Su não tenha o mesmo desfecho que a estudante de jornalismo, Giulia Pereira, assediada pelo cantor Biel teve e que os Mayers da vida parem de pedir desculpas e pensem antes de se acharem no direito de assediar de qualquer forma uma mulher.

Não podemos esquecer da Su, da Giulia, da Poliana e nem de todas as mulheres que são assediadas todos os dias. Mas o mais importante: não podemos deixar que o assédio se torne um circo midiático e que as vítimas se sintam coagidas ou culpadas por terem sido assediadas.