O que eu senti vendo o relacionamento abusivo no BBB

Eu sempre fui de acompanhar o Big Brother Brasil, mas assistir aos episódios do reality nessa edição foi uma tarefa complicada. Isso porque eu passei a ver diariamente em um programa que eu assistia para ocupar a cabeça em tempos ociosos aquilo que já me machucou demais e me fez muito mal.

O relacionamento de Emilly e Marcos me lembrou muito uma Isabella de 17 anos que estava namorando pela primeira vez um homem seis anos mais velho que ela. Consciente da diferença da idade, claro, mas não consciente do abuso psicológico que estava sofrendo.

Eu vi todo aquele meu pesadelo virar entretenimento.

Emilly é muito jovem, imatura e divide a opinião do público quanto ao seu comportamento. Marcos, mesmo sabendo dessa imaturidade, optou por começar um relacionamento com a garota. Mas mesmo estando ciente de todas as características dela antes de iniciar o romance, ele nunca perdeu a oportunidade de jogar na cara dela a sua imaturidade, sendo ele, ainda mais infantil que ela.

Eram horas e horas de discussões por conta de motivos banais. Gritaria e dedo na cara já era parte do cardápio principal dos protagonistas do BBB 17. Tudo isso era exibido sem cortes diariamente e comentado nas redes sociais. E eu já tinha visto esse filme antes na vida real.

Emilly não podia conversar com quem quisesse na casa sem ser monitorada pelo namorado. Emilly não podia colocar a própria bebida em seu copo sem o auxílio de um homem. Emilly defendia as atitudes agressivas do namorado e dava autoridade a ele sobre seu corpo.

É mais briga que amor. E vira um ciclo vicioso. Brigar vira um vício. E tudo o que o público dizia era que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher.

Sentimento de culpa.

No relacionamento abusivo a vítima sempre vai se sentir culpada por todos os erros do casal e tudo o que gera discussões. Mesmo que no início da conversa ela saiba que ele é quem está errado, o agressor sempre vai conseguir contornar a situação e culpá-la, conseguindo arrancar até mesmo um pedido de desculpas.

E se não for desse jeito, ele consegue inverter a situação apelando para o lado emocional da vítima: seja com um chororô ou seja com um pedido de desculpas falso seguido de um momento de carinho. Se nada der certo, o agressor vai tentar levar o fim da briga para a cama. Pode anotar.

E a vítima vai perdoar porque pra ela a pior coisa do universo é ficar sem o seu amor. A vítima vai engolir muita coisa porque ela acredita que essa fase de carinho e amor vai durar e que as brigas não vão voltar. A vítima acredita cegamente que o agressor vai mudar de comportamento. Só que ela não percebe que já está viciada e que o agressor já virou o seu mundo.

Infelizmente eu só fui descobrir que estive em um relacionamento abusivo pouco tempo depois de terminar meu namoro. Antes disso eu nem ao menos sabia que era possível que isso existisse. Mas pior: eu me achava tão madura e inatingível que acreditava que não poderia acontecer comigo nada tão ruim que não pudesse lidar.

É, aconteceu.

Eu não queria aceitar que aquelas mordidas enormes e doloridas que eu tinha pelo meu corpo eram feitas para que eu não usasse shorts curto. Eu não entendia que quando ele me fazia chorar e me voltar rastejando pra ele era terror psicológico. Eu não sabia que se eu dissesse que não concordava ou que não queria ele não me largaria se fosse meu amor de verdade. Eu não acreditava que se eu não fosse pra casa dele na hora que ele mandava eu poderia ir só quando eu pudesse mesmo.

Foram noites chorando, dias correndo atrás dele, inúmeras vezes em que eu me humilhava por um único gesto dele. Por isso, foram inúmeras idas e vindas.

Eu dizia para todo mundo que estava solteira e estava bem, mas se saia para a balada não ficava com ninguém porque eu sabia que dali alguns meses, poderia ser dali seis meses, ele iria me mandar mensagem e eu iria me sentir culpada por ter beijado outro homem. Pior: ele iria me chamar de puta por ter beijado outro homem e não iria querer me beijar. Mesmo sabendo do abuso e mesmo tendo saído do relacionamento eu ainda era dele. E ele sabia e se aproveitava disso.

E eu levei muito tempo (anos) para conseguir superar e sair desse ciclo vicioso que é o relacionamento abusivo. E eu precisava de ajuda. Eu precisava que alguém me dissesse que eu estava em um relacionamento abusivo e que eu precisava sair dele o mais rápido possível.

Mas mesmo já tendo consciência de que eu estava sendo agredida eu demorei para sair desse ciclo do abuso.

A razão é simples: não é nada fácil. O amor vira um vício e a dependência de ter a pessoa na sua vida se torna tão essencial quanto o ar.

Eu quase desisti do meu sonho, decepcionei meus pais, perdi todos os meus amigos, abri mão do meu futuro e me fudi bonito por causa de um homem que hoje em dia eu tenho apatia.

Graças a alguns amigos incríveis que eu tenho em minha vida e a muita força de vontade que eu consegui sair daquele abismo e hoje posso dizer que estou 90% livre das amarras que me prendiam a ele. Digo isso porque eu ainda tenho medo de ter alguma recaída, porque eu sei que essa marca nunca vai sair de mim e eu não sei qual seria a minha reação se o visse novamente.

Eu agora estou feliz que toda aquela cena de horror no BBB acabou com a expulsão do Marcos do programa, mas estou triste porque sei que para a Emilly, que viveu o abuso em um relacionamento tão intenso, vai ser mil vezes mais complicado de superar do que foi pra mim. Ela ainda tem que lidar com o assédio da mídia e tem que dar explicações para pessoas que vão julgá-la.

Hoje eu não tenho mais medo de sair de casa sem o celular e ele ficar bravo porque eu não o atendi. Hoje eu não tenho medo de ir ao shopping com meu pai e ele achar que eu estou com algum outro homem. Hoje eu consigo prestar atenção nas minhas aulas porque eu não estou mais me sentindo culpada pela briga de ontem. Hoje eu posso conversar com as amigas que eu quiser. Hoje eu posso adicionar quem eu quiser no meu Facebook e tá tudo bem. Hoje eu posso decidir ir jantar com uma amiga depois da aula e voltar pra casa mais tarde sem avisar com antecedência.

E é graças a mim. E eu não troco a minha liberdade por macho nenhum.