Tamo perdidão

A vida é um infinito tatuado no pulso direito. Clichê e sem graça

A gente vive de urgentismo. A gente tem sede do futuro. Sede de antecipar o dispensável. Caímos, frequentemente, no conto da vida. Aos 15 a gente já domina a crise dos 20 e poucos. Aos 19 a vida tem linha do tempo traçada até os 30. Aos 22 a carteira de trabalho tem mais carimbos que o passaporte – e o incômodo que isso traz vem em proporções descomunais. E é mais ou menos por aí que cai a ficha: Ninguém faz a menor de ideia do que está fazendo. Muito menos para onde está indo. E eu não sei se isso é ok.

Somos pós-adolescentes, e o legado da época é real. Andamos lado a lado com a ansiedade e rachamos a conta do happy hour com a aflição. Aflição de viver mais do mesmo todo dia. A gente sabe o que quer. A gente só não sabe verbalizar. Ou planejar. Ou fazer. A gente se apega em rituais diários para mascarar o desconhecido. A gente termina a noite com bafo de cerveja e o plano de largar o emprego e cair num mochilão no ano que vem. O ano que vem é todo dia, e o mochilão é um spam na caixa de email.

De repente 20 e poucos. Os amigos não são mais tão legais. O sonho de vida vira rotina e tudo que planejamos lá atrás cai por terra. Ninguém tava preparado para a crise da pouca idade. De repente a gente só quer – finalmente! – viver um dia de cada vez. Mas ninguém sabe bem qual é a trilha alternativa. Muito menos como vai viver sem um emprego fixo. De repente a gente se pega com carteira assinada, um monte de conta pra pagar e o skyscanner aberto. Porque, né… Vai que pipoca aquela passagem pra Bangkok.

Todo mundo quer abraçar o mundo, mas tá todo mundo de saco cheio demais pra dar o primeiro passo. A vida virou um símbolo do infinito tatuado no pulso. Clichê, cafona, sem graça, mas que todo mundo achou que ia ser legal quando começou a fazer. Não era. Não foi. Mas dá pra resolver. Vai cobrir com o que?

Ainda dá tempo. Dá tempo de repensar a carreira, de repensar a cerveja favorita e o desenho que vai em cima da tatuagem. Dá tempo de juntar uma grana, de comprar briga em casa com os pais e largar tudo. Dá tempo para rever os conceitos, decupar os anseios e exagerar no álcool para ajudar na digestão. O que não dá mais, mesmo, é continuar vivendo aquele contos dos 15 anos. Tá todo mundo perdido de novo, e agora é um pouco mais difícil ligar pra mãe e pedir carona.

Nois tá tão perdido, que não sabe nem como terminar o texto.

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