E de repente surge uma pessoa.

De repente você volta a sentir tudo que um dia já sentiu. Frio na barriga, sorrisos sem motivos, felicidade plena. De repente essa pessoa começa a fazer parte do seu dia mais e mais. Te faz querer se apaixonar , querer descobrir todo o novo mundo que só alguém que chega na sua vida do nada pode te oferecer. Te faz querer errar de novo , acertar de novo , cair de cabeça de novo , se entregar de novo , confiar de novo. E você se apaixona. O mundo parece ganhar novas cores, tudo parece que está sendo vivido novamente, é como se a vida te estivesse dando uma nova vida , uma nova perspectiva de tudo. É como se você caísse em um profundo esquecimento de tudo que já viveu, de tudo que já passou, de como já erraram com você. Te faz esquecer inclusive que todos relacionamentos são uma tragédia anunciada, mais cedo ou mais tarde todos acabam. E às vezes acabam quando você menos espera, acabam quando você não está preparado, quando você não tá esperando. Essa pessoa faz parte da sua vida agora. Te faz abrir seus sonhos , planos , fraquezas , tristezas. Essa pessoa se torna tudo na sua vida. Sair sem ela não tem mais graça, as coisas não tem mais tanta graça se você não a tiver ao seu lado. Você derruba seu muro de proteção que você ergueu em volta de si. Você estende a mão pra essa pessoa e a faz entrar no seu mundo. No seu mundo tem coisas que você guarda de melhor e esconde isso do mundo. Essa pessoa se torna parte do seu dia, parte da sua vida, parte dos seus sonhos. Você simplesmente a olha e ver o quanto vale a pena mergulhar de cabeça, se arriscar. Entrar em um novo relacionamento. Se apaixonar de novo, se dedicar e se doar. Começa a amar. Começa a brigar. Mas ama muito. Mas briga muito. Mas você sabe que os momentos bons superam os momentos ruins. Perdoa e perdoa-se. E começa de novo. Apaixona-se de novo. Se doa mais. Ama mais. É cíclico. No final é tudo um ciclo de começos e fins. E nenhuma briga é grande demais para que você abra mão de tudo. Nenhuma dor é grande demais pra que você desista de tudo. Você já passou por isso antes. Você sabe que ninguém é perfeito pra você. Você sabe que se constrói metades e não apenas as encontram em alguma festa quando você menos espera. São cometidos erros. Novos erros. Antigos erros. Os mesmos erros que cometeu com outras pessoas. Você tem medos. Mas você tem coragem. Você tem muita coragem. Tudo vale a pena. Tudo é bom. Tudo pode ser reconstruído várias e várias vezes. Você sente uma força surgindo em você a cada briga, a cada discussão. Pensa. Não quer abrir mão. Não quer deixar ir. Sabe que não pode evitar, mas não consegue abrir mão. Abrir mão pra você significa abrir mão de todos os planos, sonhos, momentos. Seria abrir mão da sua nova vida. Abrir mão da pessoa que ama. Do seu novo amor. Abrir mão de tempo. De dedicação. De amor. Carinho. Afeto. De noites bem dormidas. De sorrisos espontâneos. Do frio na barriga. Ou seria abrir mão da sua atual antiga vida? Ou seria o medo de começar de novo? Ou seria o medo de conhecer outra pessoa e sentir tudo isso de novo, e de novo? Como se sabe tudo é um ciclo interminável. De repente você vive tudo de novo. Você revive a dor, revive o arrependimento de sempre. Lamenta-se. Revive os últimos meses. Pensa no que errou. Mas pensa no que acertou. Pensa no que ele errou. Mas pensa muito mais no que ele acertou. E isso se torna um vício, o ato de pensar. De medir. De pesar. De repensar. Queria eu pensar nas coisas ruins, mas o que vem a cabeça são as coisas boas. Os bons momentos. Os sorrisos. A felicidade plena que você pensa mais uma vez nunca mais sentir e encontrar em outras pessoas. É tudo uma tragédia. É uma tragédia silenciosa. São pensamentos que não te deixam viver, pensamentos que não te deixam dormir. Pensamentos que você não consegue expor para o mundo, pros amigos. Pensamentos que só você tem, só você sente, só você guarda. A vida se torna aos poucos um misto de tortura e um lugar cinza como em outrora. Mas você sente demais. Ama demais. Chora demais. Humilha-se demais. Humilha-se. Escuta músicas. Tenta destruir isso. Não consegue. Tenta parar. Não consegue. Só queria uma forma de fugir disso tudo, mas você está aprisionado dentro dos seus próprios sentimentos e pensamentos. Toda a tragédia anunciada está acontecendo. Você não esperava. Você no fundo não acredita. Você só vive. As conversas, os momentos te atormentam dia e noite e você pensa. Não devia ter se entregado tanto. Não devia ter amado tanto. Devia ter se protegido. Devia ter se preparado. Devia nunca ter saído da sua zona de conforto. Devia nunca ter se deixado levar pela a anestesia que é uma nova paixão. Devia ter pensado. Devia ter sido mais racional. Devia ter, naquela briga, esquecido que tem coração. Esquecido que tem sentimentos. Esquecido que não consegue pensar, apenas sentir. No final você só deseja o esquecimento. Talvez seja essa a busca de ex-casais. O mais profundo e doce esquecimento. Mas os lugares lembram. Os momentos lembram. As conversas lembram. Aquela música lembra. Aquela roupa lembra. Aquele cheiro lembra. Aquelas cartas lembram. Aquelas fotos lembram. E você só desejava ter lido o futuro. Ter se preparado pra passar por isso. Não sentir tanto. Não passar por isso. Você só quer que acabe. Que vá tudo embora. Mas não consegue. Pensamentos aprisionam, sentimentos aprisionam. Aqueles sonhos aprisionam. É difícil abrir mão. Por que é tão difícil pra você abrir mão? Porque sempre foi difícil pra você abrir mão? É difícil abrir mão. Você só queria ter o poder de ter nascido com a mais plena liberdade, mas pra você os sentimentos são uma eterna prisão. Os sentimentos machucam. As palavras machucam. Você sente mais do que deveria sentir. Chora mais do que deveria chorar. Esquece aos poucos que tem uma vida pra seguir e para no tempo. Os dias se confundem com a noite. Tudo tem um gosto amargo. Se sente uma pessoa covarde. Apenas queria ter mais coragem. Queria ter mais força. Queria ter se protegido. Queria começar de novo. Queria vivenciar tudo de novo. Não consegue se perdoar. Não consegue entender que fez o seu melhor. Não se perdoa por não ter tentando mais, por não ter pensado mais ao invés de ter chorado. Uma parte de você aos poucos vai embora. Vai sendo tirada de você. Vai sendo arrancado. Seria melhor deixar doer ou trocar o curativo? Você simplesmente não sabe. Você não tem o poder de decidir o que dói mais. A vida se torna uma eterna falta do que fazer. Apenas torna-se uma busca por um novo vazio. Uma nova falta de sentimentos. Uma nova coragem de seguir em frente e não ter que olhar pra trás. Isso vai acontecer de novo. Pra que tanto medo? As coisas se repetem. A dor se repete. O amor se repete. Os erros se repetem. Você vai continuar vendo o mundo e as coisas como sempre as viu. É uma busca pífia de ser mais racional. Pensar mais antes de fazer. Porque você não pensa tanto? Pra que se deixar levar tanto? Não adianta. As pessoas mudam. As dores não. A sua essência não muda. Os seus erros não mudam. Porque não pensei mais? Porque não tenho limites? Aos poucos os muros estão sendo erguidos novamente.