Sobre olhar para mim…

Por muito tempo eu achei que tinha algo de errado comigo. Eu via as pessoas trabalhando, ganhando dinheiro, casando, tendo filhos, e sentia que minha vida estava paralisada. Eu simplesmente não me encaixava. Por mais que tentasse, tinha uma angústia profunda dentro do meu coração acompanhada de um medo da vida que eu não sabia de onde vinha.

Lembro, por muitas vezes, de deitar na minha cama em desespero e perguntar: Meu Deus, o que eu estou fazendo aqui?

Eu me sentia completamente perdida. O que eu vim fazer aqui, afinal? Por que eu não consigo ser como os outros?

Passei por depressão e síndrome do pânico. Várias somatizações. Um enjoo constante que eu não sabia de onde vinha. Síndrome do intestino irritável. Falta de ar. Palpitação.

O médico me dizia: você não tem nada. Como eu não tenho nada? Eu sinto! E agora, o que eu faço? Vou ter que viver passando mal para sempre?

Por graça Divina, eu vim de uma família espiritualista. Frequentei centro de umbanda e espírita desde pequena. Aí, eu pensava: suicídio não resolve. Vai ser pior ainda quando eu chegar do outro lado.

Cheguei a ir a um Pronto Socorro psiquiátrico e pedir ao médico: por favor, me dá um remédio que faça tudo isso ir embora. Eu não quero mais sentir.

Meus relacionamentos eram uma fuga de mim mesma. Mesmo não estando feliz, me prendia neles com a esperança que me trouxessem o preenchimento que eu tanto buscava.

Chega uma hora que todo peso pesa demais. Todas as minhas falsas seguranças foram arrancadas de mim. Terminei um relacionamento, minha mãe faleceu, minha vida profissional não caminhava. Não tinha mais como fugir. Eu não queria mais fugir.

Foi aí que olhei para dentro. Verdadeiramente, olhei para mim. E descobri que eu não gostava de mim. Que eu não aceitava quem eu era. Estava sempre querendo provar alguma coisa. Precisando que alguém me dissesse o valor que eu tinha porque eu não via valor em mim.

Ao mesmo tempo, descobri uma força e um amor que eu não sabia que existiam. Exatamente no momento mais difícil da minha vida, descobri que eu era muito maior do que todas aquelas dores.

Escrevo esse texto porque estou, novamente, olhando para tudo isso. E sei que tem muita gente que vive essa angústia. A limpeza interna vai sendo feita em camadas. E são muitas. Afinal, são muitos milênios de inconsciência. Muitas vidas e experiências que estão gravadas em nós.

Olhar para as dores não é fácil. Mas é necessário. É preciso ressignificar o passado e ser capaz de agradecer por cada experiência, porque cada uma delas me trouxe até aqui. E porque, além de me ajudar e me acolher, eu posso ajudar e acolher quem está passando por situações que eu já passei. Somos um. Não tem diferença entre você e eu. Eu sinto sua dor. Me curando, eu ajudo a te curar. E sua cura é a minha também.

Assim como estamos presenciando as velhas amarras sociais ruírem no mundo externo, estamos vendo tudo o que não serve mais e que ainda carregamos dentro de nós vir à tona. Dói, é desconfortável e desafiador, mas lindo e gratificante ao mesmo tempo.

Minhas dores me impulsionaram a não desistir. E hoje, sei que não vim para me encaixar. Vim para ajudar a construir o novo. Mas, para fazer o que eu vim fazer aqui, preciso desconstruir o velho dentro de mim.

Eu não estou sozinha, e você também não está. Olhe para sua história com amor. Fale sobre ela. Diga o que você sente. Peça ajuda. Ajude. Vamos nos curar juntos!

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