Olha, vou te dizer.

Olha, eu não sei dizer bem o porquê de os meus dias acabarem assim, meio moles e fracos ao primeiro sinal de que hora do sono chegou. Durmo sempre com essa sensação de que algo tinha de ser diferente e de que eu deveria ter feito algo a mais para mudar o rumo dessa estrada que acaba toda noite e recomeça pelas manhãs – convenço-me de que o poder está nas minhas mãos. Inutilidade, penso, talvez seja isso. Se não sobre durante o dia, eu resolvo pensar sobre algumas situações da minha vida e analisá-las com tato quente e crítico; cruel, eu diria. Entende o que eu quero dizer? É como se houvesse no mundo uma alavanca que redirecionasse a culpa toda para cima de mim. Eu não sei porque me sinto tão culpada e assumo sem querer essa responsabilidade gritante. Sei, aliás ou entretanto, – perco-me em conjunções porque minha vida é tão lotada delas que sinto que poderia usar todas de uma vez, tamanha a a complexidade do meu ser- que isso é errado e que machuca pensar nas ideias hipotéticas da vida que eu levo e entendo que é tentativa frustada tentar encontrar o motivo certo para todos os acontecimentos, é desgastante demais. Sei que não devo. Sei, ao fundo, que nem sempre a culpa é minha se algo resolve não dar certo. O problema é quando eu quero que dê e não dá. É uma chuva muito ácida de arrependimentos e reedições do meu roteiro inicial.

O problema mesmo é que esse barco que me leva desemboca sempre em pilhas de frustrações e tudo é sempre um desapontamento e acaba em chateação; porque eu quero tudo perfeito e nem tudo quer ser perfeito para mim.

E a verdade é que está tudo bem se for assim. Está tudo muito bem, na verdade. Eu me rendo.

É que eu ganho de tudo e de todos na tarefa de transformar as coisas simples num drama digno de peça e de sentir muito intensamente cada pedaço de um canto qualquer. Mas a vida sempre ganha de mim.

Por que eu preciso sempre me encarregar de jogar nas minhas próprias costas uma trouxa cheia de motivos?

Nem sempre é necessário, eu sei bem. Sei bem que eu preciso de folga. A minha vida não precisa ser esse martírio de me achar errada e culpada sempre.

Culpada por ter depositado confiança demais em alguém e, principalmente, por esperar demais de alguém. Até porque os meus principiais erros – e aqui estou a culpar-me e a encontrar as causas desse remorso inteiro- é esperar sempre algo que, não sei direito explicar, algo que nem sempre significa tanto. Eu me deposito sobre tudo um peso enorme de sentimentos que nem sempre não precisos. Eu espero demais da vida. Talvez ela só espere de mim a frieza e leveza que eu tenho tanto e não tenho de sobra. Ainda é pouco.

Estou longe.

Isabelle Demétrio

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