Sobre biscoitos e bolachas…

Mesmo desde sempre, sendo muito mais atraída por números do que por letras; uma das coisas que me encanta muito na língua portuguesa é a sua diversidade linguística.

Coisa que só fui ter contato de fato na faculdade, aquele ambiente cheio de gente de vários lugares do Brasil, cheio de gente que fala de formas diferentes. Porém, no meu ensino médio eu já pude ter uma noção de como é esse mundo.

Permita-me falar um pouco sobre mim, não, eu não sou do Rio de Janeiro, durante toda a minha vida eu tive bastante contato com o meu estado favorito, pois meus avós moram aqui e eu sempre vinha visitar.

Minha avó, nascida na Paraíba, passou toda sua infância lá e na sua adolescência, ao conhecer meu avô decidiu deixar a família pra se casar com ele. Teve três filhos e, pra resumir a história (afinal, não é sobre a minha avó que estamos falando) ela mora há uns trinta anos no Rio de Janeiro.

Meu avô (na real, meu segundo avô), nasceu e cresceu no bairro Laranjeiras, aqui no Rio, carioquíssimo.

Quando era mais nova, eu tinha um dialeto muito diferente do que tenho hoje, e, mesmo com o passar dos anos, sinto que não perdi totalmente meu sotaque, assim como minha avó até hoje não perdeu o dela. E isso é muito bonito…

…Mas voltando, eu sempre estudei no colégio da cidade, não precisava me deslocar tanto para ir à escola, e, a maioria dos meus amiguinhos, era do mesmo bairro que o meu.

Quando decidi morar com meus avós, e fazer escola técnica aos quinze anos (nota: eu já morava aqui fazia um tempinho), pude ter uma noção muito maior do que é o Rio de Janeiro de fato, e como o dialeto carioca era variável de acordo com localidade.

Deixa eu tentar ser mais clara, eu morava/moro em Nova Iguaçu, uma cidade localizada na zona Fluminense do Rio, e decidi estudar em Paracambi outra cidade Fluminense, porém que faz divisa com a Serra e consequentemente com os estados vizinhos.

Nessa escola, eu pude ter contato com pessoas de todos os lugares do Rio: Zona Norte, Zona Sul, Zona Oeste, Niterói… E, com o tempo eu fui percebendo que cada uma daquelas pessoas falava de uma forma diferente, mesmo todas elas sendo oriundas do mesmo lugar.

Ah, eu aprendi a relaxar com meu sotaque e falar mais “chiado”, além de aprender a usar palavrões de forma correta, por causa do meu ensino médio.

Hoje, decidi fazer faculdade em uma cidade relativamente próxima de onde estudava anteriormente, Seropédica, localizada também na zona Fluminense porém fazendo divisa com a zona Oeste.

Lá eu tive uma experiência muito maior, pois encontrei pessoas de outros estados!

Vou lhe dar alguns exemplos:

Um dos meus melhores amigos da faculdade, mesmo que nascido aqui no Rio, cresceu e foi criado no estado de Minas Gerais, e seu sotaque é a coisa mais “gracinha” que eu já ouvi. Uma coisa que observei recentemente sobre ele é que, como ele mora em Seropédica o sotaque dele se miscigena ao carioca no decorrer do período; assim, quando ele chega de viagem no domingo à noite antecedente ao primeiro dia de aula, é possível observar seu sotaque em um estado mais puro do “mineirês”, agora no último sábado antes dele retornar a sua cidade, depois de seis meses sob influência de todos os nossos amigos (que além de mim, todos são cariocas), você percebe que a forma dele falar é mais puxada pra malandragem do “carioquês”.

Uma das meninas com quem divido alojamento, vem do Maranhão e ela também sofre com a influência das outras meninas que moram conosco, principalmente por chamar biscoito de bolacha (ou seja lá vi o você chama aquele trocinho), enfim, é perceptível a forma que ela molda as palavras e como ela se articula ao dizer alguma coisa, é como se você estivesse por um segundo no Maranhão. Conseguem perceber o quanto isso é incrível?

Até mesmo dentro dos meus amigos existem diferenças na forma de falar: enquanto um que vem da zona Fluminense fala as frases de forma muito corrida quase como se fosse uma palavra só, o outro que eu jurava que vinha da zona Norte, mas ele insiste que é da zona Oeste, fala as palavras mais rebuscadamente, buscando acentuar suas pausas e pontuações; meu namorado por sua vez, que veio de fato da zona Oeste, fala de forma “desleixada”, como se não ligasse pra vírgulas e acentos.

E o que eu quis dizer com todos esses exemplos e observações?

Que cada pessoa tem uma forma única de falar, e que se analisarmos bem, até a voz de alguém pode contar sua história, de onde vem, como é a sua cultura e região. Que você tenha consciência que por onde quer que vá, suas origens vão com você, mesmo se você, assim como eu, acha que já perdeu completamente sua identidade.

Deixo aqui um exercício para quem ler, observe como seus amigos, seus familiares e até mesmo como você fala, como sua língua se enrola para dizer algum “R”, ou a forma que seus lábios se fecham quando vc pronuncia um “M”; você vai se sentir a pessoa mais especial do mundo ao ver quanta cultura temos a nossa volta.