“Lutaremos por quaisquer meios necessários”: minorias e extremismo em X-Men e Star-Crossed

Em X-Men, através de uma mutação genética, seres humanos adquirem poderes extraordinários. No caso de um de nossos protagonistas, o professor Xavier, é controlar e ler mentes; no caso de seu antagonista, Magneto, é o de mover qualquer objeto que contenha metais.
Com a revelação da existência de mutantes ao mundo, o esperado acontece: eles começam a ser perseguidos, e o primeiro filme de X-Men (2000) mostra uma iniciativa governamental de controle e registro dos mutantes, ainda a ser aprovada pelo Senado. A premissa que justifica o preconceito contra os mutantes — que o ser humano naturalmente tem medo e tenta exterminar o diferente — já é por si só um prenúncio do simplismo encontrado na franquia, que a acompanha até os dias de hoje. O professor Xavier (Patrick Stewart) tenta resolver tudo da maneira mais pacífica possível, enviando Jean Grey (Famke Janssen), uma telepata e professora de sua escola para jovens mutantes, como emissária, pedindo que a lei seja barrada. Ela é recebida com escárnio por todos, e o futuro mutante continua ameaçado.
Sabendo disso — e relembrando dos horrores do holocausto, do qual fora vítima — Magneto (Ian McKellen) não pretende ficar de braços cruzados: com um time de mutantes poderosos, ele sequestra o senador Robert Kelly (Bruce Davison), principal proponente da lei de registro dos mutantes. Com uma máquina que emite radiação poderosa, ele torna real o maior pesadelo de qualquer algoz: transformar-se em sua vítima. O plano, porém, não se limita a Kelly, e fica logo claro para o professor Xavier que Magneto pretende atingir muito mais líderes com sua radiação, iniciando uma guerra entre humanos e mutantes na qual os últimos, graças às suas habilidades especiais, sairiam vitoriosos.
Magneto é um exemplo clássico de um tropo ficcional chamado de extremista bem-intencionado, definido pelo site TvTropes como
“um vilão que tem uma meta geral que os heróis podem apreciar em princípio, mas cujos métodos de atingir a tal meta (como um assassinato em massa) são problemáticos; apesar de qualquer simpatia que eles [os heróis] possam ter com sua causa, eles não possuem alternativa outra a não ser pará-lo.”.
A maior parte dos vilões comete seus crimes por dinheiro ou poder; os extremistas bem-intencionados o fazem, assim como Magneto, por causas ideológicas. A meta de Magneto é impedir o massacre mutante que se anuncia a partir do pânico da opinião pública e das medidas governamentais para regulá-lo; seus métodos, porém, pregam uma superioridade mutante e tamanha violência que o pacífico professor Xavier e seus X-Men não podem aprovar.

Extremistas bem-intencionados também são tema da série de televisão Star-Crossed, que foi ao ar por uma curta temporada em 2014. Vinte anos antes do início do seriado, uma nave com alienígenas chamados atrianos pousa na terra, em busca de um novo lar depois de ter seu planeta destruído. Os atrianos são recebidos com hostilidade pelos humanos, sendo trancados em uma espécie de acampamento chamado Setor, com péssimas condições de vida e de onde não podem sair.

Depois de numerosas negociações de paz, porém, se permite que sete atrianos frequentem uma escola humana, numa tentativa de integração. Entre eles estão Roman (Matt Lanter), Sophia (Brina Palencia), Drake (Greg Finley) e Terri (Chelsea Gillgan) — os dois primeiros filhos do líder atriano que liderara as negociações de paz; os últimos membros de um grupo extremista chamado Trags que pretende usar a tecnologia bélica atriana para a sua libertação.

Assim como Magneto, os Trags tem ótimas intenções — permitir que os atrianos tenham liberdade de ir e vir e encontrem de fato um lar na terra — mas seus métodos de obtê-los, através de sequestros e assassinatos em massa, passam longe do ideal. O grande problema é que, assim como em X-Men, o uso de extremistas bem-intencionados como vilões — uma oportunidade maravilhosa para tingir a narrativa de tons de cinza — em Star-Crossed acaba criando um maniqueísmo que, infelizmente, deixa a história mais rasa. Em X-Men, ao menos, há uma tentativa de humanização dos extremistas nas breves cenas que explicam o passado de Magneto como sobrevivente do holocausto; em Star-Crossed, na maior parte do tempo, parece que os Trags só agem assim por ganância e vilania inerente.
O status dos mutantes como minoria no cânone de X-Men é inegável: inicialmente pensada como alegoria aos negros que lutaram por seus direitos civis nos Estados Unidos, os filmes dos anos 2000 que aqui analiso trazem referências as causas LGBT. É interessante que um produto de cultura de massa se proponha a discutir tal problema, mas infelizmente questões sociais são deliberadamente simplificadas na franquia. Ao colocar o pacífico professor Xavier como suprassumo da bondade e provável chave para a resolução do conflito humano-mutante, X-Men coloca o diálogo como solução para todos os problemas, jogando nos ombros dos próprios oprimidos (ou seja, os mutantes) a responsabilidade pela sua própria libertação.
Estes talvez sejam reflexos da cultura americana de auto-determinação e meritocracia, na qual todos são responsáveis pelos próprios destinos; mas, infelizmente, deixam a narrativa mais pobre e clichê, perdendo incríveis oportunidades de complexificar o enredo e tratar das questões que, desde o início, a ficção científica como um todo (as obras analisadas inclusas) se propõem a tratar. Assim como no caso dos extremistas bem-intencionados, porém, não bastam só as boas intenções.
