Não há lugar nenhum para ir a não ser o mundo todo: uma inquietude

Eles dizem que depois da tempestade vem o sol e vice-versa; e para o meu benditíssimo humor isso parece ser a mais pura verdade. Passei cerca de 13 dias (catalogados para fins médicos) com toda a energia do mundo; eu era. Eu pulsava. Eu fazia. Mesmo que nem tudo fossem sorrisos o tempo inteiro e que eu sentisse raiva de boa parte das coisas na maior parte do tempo — eu era. Não sei se essa palavra é tão importante por servir, ao mesmo tempo, como passado dos verbos ser e estar (do que é essência e do que é construído) ou por aludir à Sylvia Plath, que curte me assombrar. Mas enfim. Eu era.

Mas aí eu não era mais. Aí eu virei um zumbi que comia qualquer coisa que tinha na geladeira e só assistia Grey’s Anatomy o dia todo. Eu não era mais — eu só existia num plano de vazio desagradável dentro da minha cabeça. É meio nojento lá dentro. Foi necessária uma sessão de terapia particularmente intensa para me dar uma sacudida, pra que o zumbi voltasse ao mundo dos vivos. Devo ter gastado uma caixa inteira de lencinhos nisso, e consultórios de terapeuta costumam estocar muito dessa merda. Eles devem ter um orçamento separado só para os lencinhos que ficam em cima da mesa.

E depois de remoer a vida, os problemas e a minha história, eis a minha simples conclusão: sofro de insatisfação estrutural crônica. Jennifer Egan, autora de A visita cruel do tempo, me marcou em vários aspectos, mas a sua explicação de insatisfação estrutural é minha favorita:

Insatisfação Estrutural: retornar a circunstâncias outrora agradáveis depois de ter experimentado uma forma de vida mais emocionante ou mais opulenta, e descobrir que não consegue mais suportá-las.

O problema é que minha vida toda é uma série de insatisfações estruturais. Não sou uma groupie louca que saí por aí viajando com bandas; nem vendi todas minhas possessões pra sair por aí pedindo carona, mas vivo, do meu jeito de classe média brasileira, pulando de penhascos. Os meus penhascos pessoais são o simples desconforto — o estar cercado de estranhos em um lugar diferente; o ter que aprender rotinas e regras novas diariamente. Comecei implorando para ir para uma escola diferente aos nove anos; aos dezoito quase dei um ataque de nervos nos meus pais indo para o outro lado do Atlântico; hoje, mais modesta, me refugio do outro lado do país, fazendo, quando me mudei, pouco caso da falta de caras conhecidas num raio de 2000 km.

Então sim, por mais estúpido que soe para alguns, esses são os meus penhascos. A adrenalina é maravilhosa, os ossos quebrados nem tanto, mas eles saram — e depois que minha saúde se restaura e a rotina toma conta, a insatisfação estrutural me domina, com a vida de zumbi e as maratonas de Grey’s Anatomy.

Eu não suportava a ideia de comprar uma cama para a minha casa (na qual passaria pelo menos os quatro anos da graduação) por que objetos me afastam de penhascos. Me afastam da vida que tomo como opulenta, a vida de quem está meio perdida mas sabe que não há lugar nenhum a se ir a não ser o mundo todo.

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