O futuro é uma coisa do passado: melancolia e extinção em ‘The Children of Men’, de P.D. James

isabel moraes
Aug 27, 2017 · 10 min read

Misturando escapismo — afinal, o fim da civilização como conhecemos torna desnecessárias as preocupações cotidianas — e medo de que nossos erros como espécie sejam levados às últimas consequências, as distopias são envoltas de um fascínio que explica parte de sua popularidade. O seu tipo mais comum são as narrativas de sobrevivência repletas com ação e revoluções, cheias de personagens não-conformistas e lutadores. Em The Children of Men, porém, a escritora P.D. James se propõe a algo bastante diferente: destrinchar a longa e melancólica estrada para o fim.

O ano é 2021, e Joseph Ricardo acaba de morrer. De forma inexplicável, vinte e cinco anos antes, todas as mulheres grávidas sofreram abortos espontâneos e os homens pararam de produzir espermatozoides — Joseph foi o último bebê a nascer na terra, parte da geração chamada “Omega”. Ricardo morreu como viveu e como vivem todos os Omegas: de forma fútil e mimada, com vidas cheias de privilégios e concessões. Os Omegas seriam, afinal, aqueles a estarem ali no fim, os últimos em uma terra destruída não por guerras ou catástrofes naturais, não pela ausência de humanidade, e sim da humanidade. Os Omegas apagariam a luz.

É com uma certa indiferença que Theodore Faron — professor de história de Oxford e narrador de parte do livro — comunica a notícia em seu diário. Theo nos leva por suas memórias e pelo seu presente sem tristeza ou revolta: os últimos vinte e cinco anos sem um choro de bebê ou gritos em playgrounds bastaram para que ele se acostumasse com essa estranha conjuntura das coisas.

E ele não está sozinho em sua indiferença: embora homens e mulheres ainda sejam testados regularmente em busca de uma cura, esses procedimentos não passam de pura cerimônia, não servindo mais ao seu propósito real. Aqueles com o menor defeito ou doença, porém, estão isentos — se a humanidade recomeçará, será por aqueles mais saudáveis, fortes e inteligentes.

Theo e Xan na adaptação cinematográfica de 2006.

O primo de Theo, Xan Lypiatt, governa como ditador há mais de quinze anos, emitindo decretos ao seu bel-prazer. O que ele faz não importa muito aos seus governados, desde que ele cumpra suas três promessas: liberdade do medo, liberdade do querer, liberdade do tédio. A autora se preocupa em delinear a proximidade frágil entre os dois primos na infância, que rende ao primeiro um cargo de conselheiro alguns anos antes. Theo, contudo, não se sente atraído pelo trabalho ou consegue lidar com as intrigas políticas e brigas de ego presentes no conselho de Xan — tudo aquilo lhe parece desnecessário e sem sentido, e a notícia de sua demissão não é recebida com tristeza. Ainda que Theo seja seu único parente vivo, Xan não hesita em cortar laços após a saída dele do cargo — o poder é solitário.

Os Sojourners.

O caos esperado de uma sociedade que não pode satisfazer um dos mais básicos instintos humanos — o da reprodução — não se instaura, ao menos não na Inglaterra. Pouco se descreve nos livros do resto do mundo, porém: tudo que se sabe é que a situação em algumas nações menos afluentes é tão caótica que trabalhadores (chamados de Sojourners) preferem viver em regime de servidão na Inglaterra do que voltar a sua terra natal, ainda que não tenham direitos e sejam descartados ao ficarem velhos demais. É um paralelo quase óbvio demais com o mundo real, no qual potências econômicas “importam” imigrantes de suas ex-colônias para trabalhos pesados; suprindo a necessidade rampante de mão de obra de uma população em declínio.

Os criminosos mais violentos são isolados na Isle of Men, terra sem lei de onde nunca podem voltar. O serviço público de saúde fornece cuidados avançados para os mais idosos e até mesmo revistas pornô gratuitas para incentivar a manutenção de uma vida sexual saudável. O aparato democrático ainda está lá, mas ninguém tem intenção ou vontade de clamar seu uso. À uma maneira já bem conhecida, tudo vai bem desde que pareça bem; os problemas só existem caso emerjam até a superfície.

“Nós estamos ultrajados e desmoralizados menos pelo fim eminente da nossa espécie, menos ainda pela nossa falta de habilidade de previni-lo, do que pela nossa falha em descobrir a causa. A medicina e ciência ocidentais não nos prepararam para a magnitude dessa última falha.” (pag.5)

A paz, contudo, não significa de maneira alguma felicidade — Theo mostra a todo momento pequenos sinais de uma sociedade desolada diante da iminência de sua extinção. Batizar cães e gatos e tratá-los como crianças se torna prática generalizada. O suicídio se torna tão comum que é necessário que o governo o institucionalize, realizando cerimônias chamadas de Quietus. O fanatismo religioso se espalha cada vez mais rápido, a punição divina da infertilidade humana pelos nossos pecados se tornando uma explicação plausível.

Propaganda do Quietus.

Através de uma rotina consistente e sem vícios, Theo consegue manter uma vida organizada e relativamente calma, movendo-se mecanicamente por seu dia a dia. Seus pais já estão mortos e seu casamento foi arruinado quando ele atropelou sua filha ainda bebê. Ele tem poucos amigos, por quem demonstra a consideração mínima aceitável; os livros e o trabalho são seus refúgios. Através de seu diário e das partes em terceira pessoa conhecemos o passado de Theo, e o leitor há de se perguntar: a vida dele seria tão diferente assim caso o Omega não tivesse ocorrido? Ou o desaparecimento da fertilidade humana lhe caiu como uma luva, uma justificativa perfeita para a sua misantropia e desesperança? Theo não é o Selvagem de Admirável Mundo Novo, inconformado com a falta de poesia no mundo; nem o Winston Smith de 1984, se virando contra o governo tirânico com os mais sutis atos revolucionários. Ele só quer esperar pelo fim, aproveitando dos prazeres que lhe lembram da transitoriedade inevitável da felicidade humana.

Em uma de suas atividades cotidianas, Theo encontra Julian, uma ex-aluna que é diametralmente seu oposto — enquanto ele transborda de indiferença, ela se agarra a sua fé, exigindo de todos a sua volta os seus últimos resquícios de humanidade. Sabendo das conexões de Theo com Xan, o ditador, Julian pede em nome de um pequeno grupo político que ele interceda a seu favor, clamando por medidas para uma Inglaterra mais justa e humana.

Mesmo sabendo que de nada adiantará, Theo conversa com seu primo. O que deveria ter sido um encontro privado acaba sendo uma reunião com todo o conselho que governa ao lado de Xan, e suas reações são previsíveis — embora eles tenham conhecimento dos excessos cometidos contra os Soujourners e na Isle of Men, avaliam que não vale a pena lutar. A segurança de toda a Inglaterra, segundo eles, é mais importante do que dispensar tratamento humano aos imigrantes e criminosos — os discursos escutados por Theo transbordam xenofobia e eugenia, e P.D. James toca bem na ferida aberta das dificuldades de lidar com os fracos, os estrangeiros e os velhos. A única diferença visível entre aquele mundo e o nosso é que lá as revindicações do grupo de Julian são tratadas como absurdas — porém, há de se perguntar se não estamos caminhando em direção a isso.

Embora Xan saiba que o pequeno grupo pouco poderá fazer, ele aconselha a Theo que se mantenha longe deles. Depois de relatar o seu fracasso, ele o faz, não se encontrando com Julian ou qualquer um de seu grupo durante um tempo.

Eles não demoram a agir de novo: espalhando panfletos e impedindo a realização de cerimônias do Quietus, o grupo de Julian (agora batizado de os Five Fishes — uma referência ao peixe, símbolo do cristianismo) faz algum barulho. P.D. James brinca um pouco com a debilidade humana ao moldar suas personalidades. Julian e Luke, um ex-pastor anglicano, querem mudança por fé e idealismo, mas em nada podem contribuir de fato pela sua falta de habilidades práticas. Miriam, uma ex-parteira que acompanhou de perto a decaída da fertilidade humana, quer vingar seu irmão aprisionado na Isle of Men; assim como Gascoine, de família militar, se enraivece da apropriação do exército por parte de Xan. Rolf, marido de Julian, é o personagem mais caricato dentre os cinco: ele se resente do poder do ditador, querendo-o para si próprio. A mistura é, portanto, fadada ao fracasso. Os Five Fishes não têm organização, dinheiro ou influência — eles não tem nem mesmo um ideal em comum.

Um grupo de revolucionários tão frágil pouco faria para um romance, mas em The Children of Men isso não poderia ser diferente: nada com força, pujança ou capacidade real de mudança pertenceria harmoniosamente a um livro que transmite melancolia em cada uma de suas páginas. Só um acontecimento poderia mudar o rumo de tudo: uma gravidez. A responsabilidade é jogada nos ombros dos Five Fishes — sendo a idealista Julian e o candidato a déspota Rolf os pais dessa nova era — e de Theo, que diante de um pedido de auxílio não consegue recuar e se retirar para o seu mundinho organizado. Ironicamente, o pai da criança não havia sido descoberto como reprodutor viável pelos testes obrigatórios do governo por ser dele isento graças a um pequeno problema de epilepsia na infância; não sendo, portanto, digno de gerar uma nova era. Um ponto brilhante para a discussão de eugenia que permeia todo o livro.

Mas toda a situação era uma de paradoxo. Poderiam meios e fins terem sido alguma vez tão incompatíveis? Houve alguma vez uma jornada de tamanha importância sido feita por um grupo tão frágil e patético de aventureiros? (pag. 182)

The Children of Men peca por ser curto demais. Os problemas sociais apontados no livro, como, por exemplo, a imigração e o ineficiente sistema carcerário, continuam atuais e poderiam ter sido direcionados com subplots já contidos dentro da obra — os Five Fishes e suas revoltas individuais já eram material o suficiente para isso. A escolha de Theo como narrador-personagem foi extremamente acertada — apenas alguém que perdeu tudo e com nada mais se importa poderia retratar com tanta precisão os efeitos da gravidez de Julian. Sua profissão acaba se mostrando como um traço importante na construção do enredo: como historiador, ele não poderia deixar de relatar o fim — ou, mais tarde, o começo.

P.D. James tenta — e consegue, embora que somente até certo ponto — apontar as contradições e tensões que se estabelecem entre os valores culturais entranhados em seus personagens e a realidade que os cerca. O batismo de cães e gatos, por exemplo, é só a ponta do iceberg dentro da histeria coletiva feminina demonstrada no livro, advinda da impossibilidade da concepção: o papel social da mãe é tão forte e compulsório que a ausência deste é mais relevante para algumas do que a extinção vindoura.

Apesar de certeiras, as alegorias e pinceladas a respeito da questão dos refugiados não dispõem de muita força — ao contrário da adaptação cinematográfica, na qual Julian é substituída no papel de “mãe da nova humanidade”. Os realizadores do filme, com uma centelha de brilhantismo geralmente ausente em adaptações, acertaram em colocar uma mulher refugiada neste papel, imagem já forte o suficiente sozinha para incitar discussões. Mas mesmo mantendo a estrutura original do enredo, porém, P.D. James poderia ter ampliado suas críticas sutis à política de refugiados, aproveitando-se das discussões acerca das mecânicas do medo que permeiam a obra.

O terror, aliás, possui todo um folclore próprio em The Children of Men, para além do medo de extinção. Rituais macabros são realizados por Omegas, resultando frequentemente em mortes; os seus perpetuadores são desculpados por fazerem parte da última geração a nascer. O fanatismo religioso é apropriado por P.D. James de forma semelhante à realidade: o lucro excessivo de pastores televisivos, a tentativa dos fiéis de converterem todos a sua volta, o uso da religião como forma de controle social — elementos clássicos que estão todos lá. Os excessos — como o auto-flagelo público — são narrados de forma condescendente, o desespero da situação justificando-os.

Isto, porém, é só um pedaço minúsculo do viés religioso do livro — as discussões sobre a existência ou não de Deus e possíveis explicações sobrenaturais para a infertilidade são propostas desde a primeira aparição de Julian na obra. The Children of Men, na verdade, só não toma um viés mais religioso por causa de seu narrador-personagem: a descrença de Theo permanece mesmo com a gravidez de Julian, o deus ex machina tão injustificável quanto o acontecimento que o fizera necessário.

Com a extrapolação de um mundo bastante parecido com o nosso, P. D. James reflete sobre a condição humana de forma primorosa — das mecânicas da indiferença, da esperança e da fé. Apesar de supostamente falar da extinção iminente da humanidade, The Children of Men acaba sendo uma história sobre o que acontece quando não há mais fé ou esperança — e, mais tarde, o que acontece caso ela seja inesperadamente restaurada.

Título The Children of Men

Autora P.D. James

Editora Faber and Faber

Número de páginas 278

ISBN 0–571–20465–1

Lançamento 1992

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