Por que a Sylvia Plath está rindo de mim

Ms. Plath, rindo de mim por antecipação

A Sylvia Plath[1] riu de mim.

É, eu sei. Quem diabos eu acho que sou para tirar uma poeta morta de seu túmulo e fazer com que ela dê umas risadas? Uma estudantezinha qualquer supostamente não teria todo esse poder.

Mas me deixem nas minhas ilusões de grandeza, por favor. Uma coisa que eu aprendi é que o mundo aparentemente gira ao meu redor, e não consigo explicar a razão de tamanho narcisismo — não sou filha única, não fui mimada pelos meus pais ou avós e nunca fui bonita o suficiente para ser a mean girl da escola[2]. Eu era rotulada como inteligente, claro — mas infelizmente nasci alguns anos adiantada pra coisa toda de nerd is cool.

Mas enfim: a Sylvia Plath riu de mim por que ela tentou me avisar. Juro, ela tentou me avisar que existia uma luzinha no fim do túnel que me ajudaria em todas as penitências que tenho pagado nos últimos meses — as crises de ansiedade, os remédios caríssimos errados, as consultas na psiquiatra, levantar relutante de manhã pra arrastar minha bunda até a terapia.

Quem já passou por qualquer uma das coisinhas nessa lista pode atestar: é uma merda. E por favor, não venham me dizendo que problemas mentais são problemas de primeiro mundo — eu, de fato, tive um tratamento de primeiro mundo (terapeuta e psiquiatras bons, remédios compradinhos sem grandes problemas financeiros) mas eu ainda estaria doente se não fosse de classe média — porque como Aaron Burr diria, doenças não escolhem classes sociais[3].

E aí desde maio venho passando por essa merda toda. E desde maio a Sylvia Plath tem rido de mim atrás das minhas cortinas.

Eu estava contando com todo mundo. Eu estava simplesmente amando minha família por não se importar em pagar terapia para mim[4]. Eu estava amando minha terapeuta e o alívio que eu sentia depois das sessões. Eu estava amando meus amigos por serem lindos e compreensivos com minhas ausências nos rolês. Eu estava amando meus professores por não se importarem com minhas saídas abruptas e longas da sala — eu não dizia “ur, com licença, preciso ir ali hiperventilar e sentir que vou morrer” mas ainda assim uma aluna meio ausente exige compreensão. Eu não estava amando tanto meu psiquiatra (agora ex-psiquiatra) mas isso é outra história.

Mas eu não estava contando com a única pessoa que eu sempre poderia contar.

Eu.

SIM.

Eu.

A porra do meu eu. Essa pessoa aqui, há vinte anos nesse mundo, que me deixa na mão o tempo todo, mas ainda merece ser confiada — que tem que ser confiada, afinal, não posso simplesmente me dar unfollow no Twitter e declarar o fim do meu relacionamento comigo mesma no Facebook.

E a Sylvia Plath tentou me dizer antes. Quando sua protagonista, Esther, entra em uma reunião que decidirá se ela sairá ou não do hospital psiquiátrico no qual ela estava internada para tratar da sua depressão, ela consegue escutar as batidas do seu coração. Mas não era aquele som gostosinho e sem muita forma que você escuta quando deita no peito de alguém que gosta. O coração de Esther se gaba, lhe dizendo: “eu sou, eu sou, eu sou”.

E eu também sou. Eu sempre fui. Eu vou estar aqui para mim mesma, na saúde e na doença. E a Sylvia Plath — e meu coração, que neste momento se gaba (não arrogantemente como o da Esther — de forma ainda meio tímida) — tentou me avisar.

Uma pena que eu não escutei antes.

Mas agora vai.

[1] Para quem não sabe: poetisa americana e autora do livro mais fodástico do mundo, também conhecido como A redoma de vidro. Se você não leu, vá ler, sério. A menos que você esteja muito na merda — então deixa pra depois. Mas leia um dia.

[2] Também não compro essa história toda que minha geração é extremamente auto-centrada. Quem são vocês pra basear toda uma gama de pessoas nascida num período de vinte anos como a-incrível-geração-que-[insira coisa depreciativa aqui]???? Por favor, esse seria um trabalho que eu delegaria a acadêmicos. Ou talvez nem eles — só a deus mesmo. Deixem deus decidir se somos de fato egoístas, não sabemos amar e todas essas coisas que falam de nós no Facebook.

[3] Ou seria morte? Eu sou preguiçosa demais pra checar isso na música, e sinceramente acho uma referência de Hamilton adequada nesse contexto. Então me desculpem, companheiros fãs de Hamilton, se manchei esta obra maravilhosa que faz nossas vidas melhores.

[4] Não nos esqueçamos do fator remédios também. Um deles — o primeiro antidepressivo receitado a mim — custava 347 reais por mês. Eu não tô nem brincando. 225 depois do desconto — esses números ficarão guardados na minha memória pra sempre. Brintellix, eu sinceramente te odeio por ter feito a pachorra de não funcionar e ainda me dar enjôo depois de eu fazer tanto por você. Sinceramente. Decepcionada. Ainda olho os comprimidos que sobraram com certo ódio.