Porque eu quero ler mais livros que se passem no Brasil

isabel moraes
Aug 27, 2017 · 5 min read

Eu ainda me lembro da primeira história que escrevi no computador.

Àquela época, meus pequenos trabalhos à mão eram vários: folhas de ofício retiradas furtivamente da impressora, dobradas ao meio e grampeadas, preenchidas com histórias escritas à giz de cera e desenhos. Um dia, por uma razão qualquer, resolvi escrever no computador — um Windows 98 na cor gelo — e assim nasceu a minha primeira história.

Sei lá quantos anos eu tinha — não mais do que nove, provavelmente, portanto a qualidade da produção era compatível com a idade da escritora. Escrevi aquela história por alguns meses antes de me refugiar nas fanfics de Harry Potter, mas até hoje guardo uma de suas versões impressas, junto com outros pequenos trabalhos que fazem parte da minha história com a coisa que mais amo fazer no mundo. Mudei bastante de gênero: até hoje escrevo para um público jovem, mas que fui do romance ao sobrenatural. Até os meus catorze anos, porém, todas essas histórias têm uma coisa em comum: elas não se passam no Brasil.

Para alguém criada à base de Meg Cabot e romances adolescentes afins, não é difícil detectar por que: eu tinha zero de referências para escrever histórias que eu amasse mas que se passassem no meu país. Os clássicos livros de escola não me cativavam o suficiente para que eu quisesse imitá-los, e a única coisa nacional na minha estante que eu havia de fato pedido para os meus pais eram os gibis da Turma da Mônica. Só aos doze ou treze anos fui descobrir a ótima série de livros infanto-juvenis Poderosa, mas antes disso, eu acho que nunca havia pensado que histórias poderiam se passar num colégio, e não em uma High School. E mais ainda: que as minhas ficariam melhores e mais verossímeis caso eu o fizesse.

Esse pensamento foi se desenvolvendo aos poucos, e quanto mais minha estante se enchia de livros nacionais, mais eu percebia que havia algo de especial neles — mesmo aqueles que se passavam em universos paralelos traziam um sentimento gostoso de identificação com a história, de me deparar com um personagem chamado João ou perceber que os hábitos e dramas eram iguais aos meus — mesmo sendo pessoas diferentes, nós pertencemos à mesma cultura, e essa ligação nós faz compartilhar lembranças. Algum tempo depois, essa maravilhosa e já antiguinha TEDTalk me abre ainda mais os olhos:

O que isso demonstra é, eu acho, o quão impressionáveis e vulneráveis nós somos em face a uma história, particularmente quando crianças. Por que tudo que eu havia lido eram livros nos quais os personagens eram estrangeiros, eu me convenci que livros por sua própria natureza tinham que ter estrangeiros neles e tinham que ser sobre coisas com as quais eu pessoalmente não me identificava.”

Sempre que tento definir porque a literatura é importante — tanto para mim como indivíduo e para nós todos como espécie — chego às duas mesmas conclusões: ela cria empatia, nos fazendo conviver melhor com os outros e ela espelha nossas personalidades e problemas, fazendo com que convivamos melhor com nós mesmos (daí a importância de termos personagens de minorias — negros, gays, gordas, trans e afins — na ficção, mas isso é assunto pra outro post). Nos atenhamos a essa última parte.

Enquanto a maior parte dos nossos problemas são universais e serão encontrados em livros escritos por autores de qualquer nacionalidade, a cultura é uma força poderosa. Cada país e, no caso da vastidão do Brasil, cada região tem hábitos e forma de pensar próprios, que influenciam extremamente a vida das pessoas — portanto devem, por consequência, influenciar a vida de possíveis personagens que autores deles provindos criem.

O que a minha eu de doze anos não sabia é que, por mais que eu lesse sobre Londres e Nova Iorque, eu nunca poderia colocar uma Mary vivendo nela e tornar isso verossímil — uma Maria estudante de intercâmbio brasileira talvez, mas uma Mary não. Existem rituais e pequenos hábitos que dão vida ao personagem que, mesmo com pesquisa extensa, eu não conseguiria reproduzir. Mas eu não sabia, porque eu não lia livros brasileiros — ao menos não que se passassem no Brasil.

Veja bem, longe de mim defender que um autor só trabalhe com personagens de sua nacionalidade — só afirmo que é essencial que assim ocorra na maior parte dos casos, sobretudo em um mercado editorial que só começa recentemente a “por fé” nos autores nacionais em larga escala. É cansativo ver que boa parte dos autores nacionais — sobretudo aqueles no começo — não escrevem obras que se passem no nosso solo, com nossa gente ou nossa cultura. Já defendi a literatura nacional frente a amigos milhares de vezes, mas como ter argumentos se esta for mera cópia da estrangeira?

Felizmente, temos honráveis exceções: A arma escarlate, de Renata Ventura (do qual eu nunca cansarei de falar) faz também uma defesa apaixonada da cultura brasileira (sem deixar de lado críticas relevantes) e assim se tornou uma das minhas sagas favoritas, me fazendo aguardar ansiosamente por cada exemplar novo. Rio 2054 se passa na belíssima capital fluminense, e faz algo semelhante.

Quem dera ter encontrado esses livros aos doze anos.

)

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too school for cool

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