A Maldição da Residência Hill é bem mais que um terror

Os clássicos fantasmas aparecem, mas não são apenas isso.

Uma família com cinco crianças e uma mansão antiga supostamente mal assombrada. Já com esses dois elementos temos a fórmula perfeita para um terror, tantas vezes já usada antes. A Maldição da Residência Hill, nova série da Netflix, surpreende ao alcançar o inesperado: resignificar esses componentes, já tão batidos e desgastados, em uma produção inteligente, bem feita e envolvente.

Em meio a tantos filmes que apenas recorrem ao terror pelo terror, apoiando-se em exageros de jump scares e trilha sonora para criar tensão, inusitadas são as obras que se propõem a abordagens mais perspicazes e aprofundadas. Parece-me que o gênero esqueceu-se de seu sentido e motivação, colocando estes na conta do sobrenatural, o que acaba por resultar em produções vazias e superficiais. As contemporâneas “A Bruxa”, “Hereditário” e a nova série da Netflix são raridades positivas para fãs de terror.

Mesmo que, à primeira vista, “A Maldição da Residência Hill” pareça mais um clichê do gênero, à segunda vista percebe-se a riqueza de seu subtexto. Há um conteúdo a ser destrinchado além do sentido imediato das imagens. A cada episódio somos convocados a adentrar progressivamente na história e, assim, somos seduzidos por ela.

Fonte: Nerd Break

A série, baseada no livro “A Assombração da Casa da Colina” de Shirley Jackson, foi elogiada pelo conceituado Stephen King e roteirizada e dirigida por Mike Flanagan (Hush, Ouija 2 e Jogo Perigoso). O tempo é introduzido como elemento essencial à trama e é manuseado por Flanagan como forma de conduzir a narrativa e conectar pontos importantes.

A essência dos capítulos reside nos cinco irmãos que quando crianças mudam-se para a casa que seria reformada por seus pais e como estão suas vidas anos depois dos acontecimentos que se sucederam no local. O divisor entre esses dois momentos parece localizar-se em uma noite específica em que todos os membros da família — exceto por um — foram forçados a abandonar a mansão às pressas em razão de um incidente sombrio.

Nos primeiros episódios acompanhamos a apresentação minuciosa dos irmãos, sendo seus perfis psicológicos do presente arranjados em total conformidade com o passado dos cinco. Percebemos como as configurações atuais de suas vidas estão diretamente ligadas aos traumas de infância e aos segredos escondidos pelo pai sobre o que realmente aconteceu na trágica noite.

Fonte: Nerd Break

Através de flashbacks, observamos os laços entre as crianças e, anos depois, quando a família é reunida pela morte de um de seus membros. Aos poucos, a trama soluciona-se ao passo que compreendemos a maneira com que cada um lidou com o luto e o medo.

O episódio final é inquestionável ao elucidar bem o mistério que se instaurou desde o início da série. Os personagens veem-se de volta à casa, origem de suas angústias e cicatrizes psicológicas, e, quando nela, perdem-se em ilusões e alucinações como se estivessem presos em um sonho.

Eles são forçados a enfrentarem seus fantasmas. Nessas cenas, o horror é representado pela cor vermelha, que colore exatamente a fonte — roupas ou objetos — do medo de cada um. Nesse momento, traça-se um paralelo com um componente já introduzido no início da série: o quarto vermelho. O cômodo, o qual todos tentaram abrir — sem êxito — , seria a materialização do terror, do monstro. Insinuou-se o tempo todo que ali dentro estariam as respostas aos enigmas propostos.

Fonte: Adoro Cinema

“A Maldição da Residência Hill” é uma história de fantasmas. De fato, espíritos assustadores surgem em várias cenas. Inclusive, em diversos momentos, criaturas macabras aparecem escondidas em sequências onde nada de grandioso acontece. Mas não é só isso.

Aqui, os fantasmas também são metáforas. O sobrenatural simboliza o horror humano ao medo, à morte, à ruína, à culpa e à podridão. Cada um dos personagens é assombrado — seja pelas drogas, contato com outras pessoas, culpa ou o ceticismo — e isso é levado ao extremo pelas assombrações malignas que habitavam aquele espaço. Cada um deles esconde seus fantasmas internos até que estes manifestam-se despertados pela volta de assuntos inacabados da infância. Os irmãos são, então, obrigados a confrontá-los em um “embate” final na casa, que os compele a olhar para seus próprios erros e medos.

Fonte: LBC9 News