O Filme da Minha Vida

Isa Carvalho
Aug 9, 2017 · 3 min read

Delicado, sutil e impressionante

Quando comprei os ingressos daquela noite, não esperava nada extraordinário. Pelo contrário, as expectativas eram baixas como a temperatura daquele domingo do inverno carioca. A experiência de vivenciar o cinema era a mesma: Uma doce empolgação de assistir um novo mundo ganhando vida ao mesmo tempo e no mesmo espaço em que o mundo de sempre se desenrolava do lado de fora.

Quando a tela a minha frente iluminou-se com as imagens iniciais de “O Filme da Minha Vida”, eu tinha em mim um pouco do preconceito — talvez hoje de forma mais velada — que muita gente ainda tem ao presenciar uma produção nacional. Porém, ele me teve em suas primeiras palavras que, pronunciadas de forma tão suave e tranquila, pareciam música. Pareciam poesia. Vai ver até eram. E foram.

“Eu só vejo o início e o fim de um filme. O início para saber sobre o que é a história. E o fim… O fim porque é sempre bonito, né?”. Foi algo assim que misturado a paisagens frias de uma pequena cidade da Serra Gaúcha introduziu uma história que não poderia jamais caber em uma simples sinopse. Mas foi mais ou menos assim…

Um jovem de vinte anos, amores, saudades, partidas, fotografias em preto e branco e um trem que levava as pessoas para resolverem suas coisas.

O filme, dirigido e estrelado por Selton Mello e inspirado na obra de Antonio Skármeta, aborda temas complexos que, ao serem tratados de maneira tão singela e pura, desconstroem-se naturalmente. E nós, como espectadores, somos convidados a desmontar conceitos e ideias prontas, questionando-os. Com uma fotografia impressionante e delicada, a obra expõe a simplicidade e grandeza dos detalhes que compõem a vida do personagem com suas tristezas e alegrias, altos e baixos.

Johnny Massaro interpreta Tony Terranova que, ao voltar para casa após conseguir o diploma de professor, descobre que seu pai havia ido embora sem explicações. Dois anos se passam sem notícias e Tony precisa lidar com a dor do desaparecimento daquele que estava em tantas de suas memórias. Entre as lembranças do garoto e uma trilha sonora encantadora, uma nostalgia instaura-se na atmosfera do longa.

Com o passar do tempo, o protagonista passa a ocupar sua mente com outras situações como idas ao cinema e um romance com a jovem Luna Madeira. Ao mesmo tempo em que ele busca se desvencilhar da figura paterna através de seu crescimento pessoal, experimenta também o conflito do choque entre o pai da sua infância e o homem que o abandonou.

Vista por muitos como desnecessária, a lentidão com que a obra foi construída poderia ser considerada exatamente o contrário. É através desse elemento que se incorpora às quase duas horas de duração uma serenidade precisa. Cada instante é indispensável para arquitetar uma produção leve e de uma delicadeza simples, mas profunda.

A simplicidade funciona como ingrediente primordial de “O Filme da Minha Vida”, à medida que introduz a ideia de que a beleza da vida está nos detalhes, nas particularidades. Em muitas cenas, sorrimos admirados com as expressões quase “bobas” do protagonista ao experimentar uma felicidade tão fácil e descomplicada. É enquanto sentamos em poltronas desconfortáveis dentro daquela sala escura com outros amantes do cinema que o filme nos lembra que o contentamento não precisa ser uma meta inalcançável e quase utópica. Ela já existe e já está aqui.

E o futuro é como a fotografia em preto e branco que Tony tanto contempla: Uma trilha de trem cujo destino é ocultado por uma suave neblina.

    Isa Carvalho

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