Medo da Noite

A noite trás muitas lembranças do passado. Algumas são deliciosamente boas e me fazem rir no silêncio, sozinha. Elas apertam o coração de um jeito louco e transbordam nostalgia.

Quando era pequena sentia medo de ficar sozinha no quarto na hora de dormir. Muitas crianças ficariam felizes no momento em que finalmente tivessem seu próprio espaço, sua privacidade… Eu não. Quer dizer, não durante a noite. Tinha temor pelo escuro (e por isso minha mãe sempre deixava a luz da copa acesa) e das possíveis criaturas que viriam visitar meus sonhos. Sempre dava um jeito de escapulir entre as cobertas e chegar de mansinho, bem na ponta dos pés no quarto dos meus pais. Levava meu cobertor e tratava logo de me ajeitar bem encolhida aos pés da cama ou no canto, ao lado do meu pai. Deitava perto dele porque sempre notava minha presença mas fingia não perceber e me deixava ficar. Minha mãe não, quando ela mexia e sentia que eu estava ali logo dava uma bronca e me fazia voltar pro quarto. Não havia argumentos nem chantagem emocional suficiente minhas e do meu pai que pudessem fazê-la mudar de ideia. Imagine a frustração da criança! Eu, como boa pirracenta que era, resmungava, fazia bico, cruzava os braços e batia os pés. Não tinha jeito! A decisão da Dona Simone era inquestionável. Mas ela sempre me acompanhava de volta pro quarto e tentava me tranquilizar com as mesmas palavras de sempre, de todas as noites. Não adiantava muito. Na minha cabeça, na primeira oportunidade, quando finalmente vissem que eu dormia sozinha, os fantasmas criados pela minha mente logo viriam me assombrar. O Jô Soares e os personagens do Telecurso 2000 foram por muitas madrugadas meus fiéis companheiros e lembro-me de assistir pela primeira vez Vanilla Sky ( um dos meus filmes preferidos atualmente) no Corujão e não entender bulhufas do que rolava ao longo da trama e tampouco seu final. Inúmeras vezes eu não pregava os olhos enquanto não ouvia o som dos pássaros acordando ou, olhando através das gretas da janela, enxergava as primeiras luzes do amanhecer. Depois de ver chegar o dia sentia de novo a segurança que só a claridade trás e também o retorno daquela boa sensação de não estar só mesmo desacompanhada. Enfim eu permitia que o sono me levasse… E dormia, agora sem medo. De dias os fantasmas perdiam suas forças, não me assustavam mais. Era capaz de enfrentá - los. Me sentia novamente confiante e protegida. O abismo da escuridão costuma me atrair, vez ou outra. Mas o brilho que me alimenta é forte o suficiente pra alumiar todas as trevas…

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