Gri Shan

Gri Shan tinha vida .
mas lá longe

Escorregava por entre nossos dedos


Lá estava ele:
Era meu amigo, Gri Shan, mas duvido que ele lembrasse de mim e das boas risadas que demos juntos
Em sua cabeça, eu era
um fantasma. Mais uma de suas incontáveis alucinações

"GRi! Meu querido! Eu sou real. 
Você pode confiar em mim"

"Faça parar, ele gritava. Você não existe. Você não existe."
E chamava os médicos

Um dos médicos, um baixinho de cabeça ensebada. Ele sabia do meu amor por Gri. Ele sabia o quanto me magoava que o meu amigo me tivesse como alucinação, e apertava o nariz de piedade.

Algumas horas depois. Gri Shan devidamente sedado, dormia. Eu segurei a sua mão mas ele novamente não quis saber de mim

"Faça parar" ele gritava. E lá vinham os médicos mais uma vez
Dessa vez ele completou: 
"Por favor. Ela quer me levar embora"


Isso se repetiu tantas vezes. "Faça parar" ele gritava!
Até que um dia, os médicos não apareceram. 
Pensei em desistir, mas já acho que não tenho escolha

Sabe Gri, também eu estou presa na minha própria mente. Ela só faz o que quer, não me pede permissão, arranca os sumos da minha vontade, da minha consciência|
Não pense mal de mim. No fundo, quase nada é como parece.

Ele gritava, se contorcia. O tempo passa tão rápido

Mas de repente, ficou estático.
"Você não existe" ele me disse e estava calmo

Como eu poderia dizer qualquer coisa?

"Você é fruto da minha imaginação?"
"Sim. Como todo o resto"
" O que você quer?"
"Vamo ir embora daqui"
"Pra onde?"
"Sei la. Qualquer lugar"

Por uns instantes ele me olhou. Como se me conhecesse, assim pareceu
O preto fosco dos seus olhos. Que tantas vezes me olhou mas agora olha sem me ver

"Você quer que eu morra"

Como eu poderia dizer qualquer coisa?

Ele sabia que eu vinha pra…pra que?
buscá-lo? Que peso tem as palavras! 
Embora seu olhar ainda não me reconhecesse por completo, ele sabia que eu era a única pessoa em quem podia confiar.
A unica que ainda restava. Ou talvez mais uma alucinação como os octógonos de seu olhos de peixe cego. Ou as borboletas que saíam do armário da cozinha.

"Já não sei se importa muito, meu cérebro virou tão confuso. E esse hospital me dá tanto medo quando chega a noite…melhor seria ir pra qualquer outro lugar, qualquer que fosse"
Era isso que ele dizia, em voz baixa, na sua própria cabeça de barril envelhecido

E então decidiu
"Vamos. De que me importa o que é real? Eu não te conheço mas sinto que devo ir com você"

enrolamos os braços que nem a gente fazia quando era criança e brincava de gente grande. que nem quando a gente era criança e morria de brincadeirinha

quando foi isso? 
Parece faz mais de século