JAM

GIF feito por mim durante o Festival DF Improvisa Dança 2 Edição

Sobre Jams de contato improvisação

O que é uma Jam?

Jam é um termo que vem da música, mais especificamente do jazz. É uma abreviação de “Jazz after midnight” (Jazz depois da meia noite), um espaço de criação musical que não era previamente ensaiado e funcionava na base da composição coletiva do momento. Esse termo (e mais importante, essa ideia) foi adaptado por alguns bailarinos para designar um espaço de improvisação corporal. Uma jam de contato é um espaço de pesquisa e experimentação, e muitas vezes também um momento de aplicação de conhecimentos técnicos aprendidos durante as aulas. Durante a jam, é possível sair e entrar na dança livremente. Geralmente quem não está dançando se organiza em formato circular para liberar espaço e quem dança fica no meio. A observação ativa é muito importante, pois além de ser muito legal apreciar os momentos únicos que se desdobram ali mesmo na nossa frente, através desse hábito temos acesso a movimentos e dinâmicas diferentes, buscamos referências e arquivamos na mente caminhos e possibilidades. Um bom observador aprende muito através de sua prática e isso é incentivado nas jams de contato. Observar não é menos que dançar, a ideia é mais ou menos por aí.

GIF feito por mim durante o Festival DF Improvisa Dança 2 Edição

E o que é contato improvisação?

Contato improvisação tem suas raízes na década de 70 a partir de anseios de um grupo de bailarinos e coreógrafos que buscavam novos caminhos, dentre eles Steve Paxton. Tem raízes nas artes marciais, uma vez que além de bailarino Paxton era praticante de Aikido, incorporando muitos desses elementos na sua dança, dentre eles os intrigantes rolamentos dessa prática, bem como integração e transferência de energia.

Raízes do contato improvisação, 1972

No começo essa prática se dava no tatame, com muitas colisões e quedas, mas com o tempo esse costume foi se perdendo, e é interessante reparar como os movimentos foram e continuam sendo influenciados por essas mudanças ao longo do espaço tempo. Dançar dentro de uma sala com um chão liso, por exemplo, e dançar na cidade, são experiências totalmente distintas, tanto para quem dança quanto para quem assiste.
Embora seja uma dança que ficou conhecida pela imagem das duplas em contato físico muito próximo e pelas acrobacias aéreas, acredito que o contato improvisação vai muito além disso. Uma definição precisa nem sempre é muito fácil de alcançar, pois cada um vai, ao longo de sua experiência, encontrando a sua abordagem e linha de pesquisa, que muitas vezes tem influência de outros tipos de práticas corporais. 
Alguns consideram que a essência do contato improvisação vem se perdendo, e que muitas pessoas tem proposto práticas sob esse nome que teoricamente, seriam outra coisa…Eu não acho que isso seja um problema, as vezes fico pensando se não seria uma solução. Ou talvez, simplesmente inevitável.
Mas essa é uma outra discussão, deixa pra outro dia. 
O fato é que em toda forma de arte, sempre vão acontecer esses questionamentos. Cada um tem na cabeça (uns mais cabeça dura, outros menos) o que é e o que não é, o que por pouco deixa de ser, enfim... Dizer se aquele povo dançando ali na esquina dança contato ou outra coisa não cabe a mim nem a ninguém, acho inclusive um reducionismo bobo e barato. O objetivo desse texto não é entrar nessa discussão. Agora quero citar alguns elementos chaves que considero importantes, e também alguns princípios em que sinceramente acredito para a prática de contato:

  • Improvisação: Não há passos pré determinados, ou seja , não há uma coreografia a ser seguida.
  • Relação: É uma dança relacional. Ninguém dança contato sozinho. Mesmo que estejamos num momento de improvisação solo, estamos constantemente a nos relacionar: com as pessoas que nos rodeiam, com a gravidade, com o nosso próprio peso, com o chão…
  • Presença: Estado constante de presença e atenção. Se danço com alguém estou realmente com aquele alguém, não com a cabeça voando em outro lugar ou desejando estar dançando com outra pessoa
  • Cuidado: sensibilidade ao dançar com as minhas parceiras. É preciso lembrar constantemente que quando dançamos juntas, não importa só o que eu quero fazer, a forma que eu quero dançar. Isso tem bastante a ver com o desprendimento do ego e do egoísmo, que na medida que conseguimos fazer, nos torna não só melhores bailarinas como melhores pessoas
  • Responsabilidade própria: É muito importante estar atenta a outras pessoas, mas no contato lidamos com os mais variados tipos e com as mais diversas situações. No final das contas, cada um deve cuidar de si, saber os seus limites, se respeitar e conseguir dizer não quando necessário
  • Desprendimento da estética: No contato não dançamos para ser bonitos ou impressionar os outros. Porque bonitos e impressionantes nós já somos, né. Não precisamos executar nenhum tipo de movimento porque alguém disse que é desse jeito que bailarinos devem se mover. Inclusive não precisamos nem nos mover se não quisermos.
  • Busca contínua: a prática do contato é um processo, e não um fim. Mesmo os mais experientes bailarinos estão sempre a se atualizar, pesquisar e a aprender. Estamos todas constantemente a buscar, a cada milésimo de segundo. Quem acha que já chegou está só se enganando, o negócio é dançar até morrer.
  • Expansão: Um movimento muito rico é o de levar essa consciência e esse estado de atenção que vamos adquirindo para a nossa vida, para fora das quatro paredes da jam. O contato não é só uma dança, é uma filosofia de vida, uma forma de se relacionar com as pessoas, animais, objetos e com tudo aquilo que nos rodeia.
  • Diversidade: No contato todas podem dançar. Crianças, adolescentes, adultos, idosos, gordas, magros, baixinhas, gigantes, bailarinas, não bailarinos, pesssoas cis, trans, e por aí vai. A unica pessoa que não é bem vinda é aquela que diz o contrário. Intolerância e preconceito é o que vai contra os princípios do contato, não os corpos diferentes.
  • Mistério: No contato, cada momento é único e mesmo que tentemos imaginar ou prever o que vem a diante, essa tentativa é sempre frustrada. Porque não há como prever. E a beleza está aí mesmo. A partir do momento em que percebemos e aceitamos isso, vamos largando mão de querer controlar. E aí as danças vão se abrindo, cada vez mais.
  • Auto consciência e desenvolvimento pessoal: para poder dançar com o outro é importante aprender a olhar com calma para si. Quando digo olhar quero dizer escutar o seu próprio corpo, entender as suas dinâmicas. Dissecar as suas forças e fragilidades que se bem geridas, viram uma coisa só. Conscientizar-se e, a partir disso, ocupar o seu lugar no mundo. Ser maleável e firme. Séria e lúdico. Gentil e descassetada. Velho e criança. Tensões dinâmicas, criadoras de unidades, essa coisa toda, aí já tem quem diga que eu to viajando mas nem to tanto assim
  • Pequena dança: um dos fundamentos do contato improvisação. Para praticar a pequena dança, nos colocamos na posição de pé, respirando normalmente, sem tentar controlar ou tentar chegar em uma determinada postura, simplesmente observamos nossos movimentos internos. Que forças são essas que acontecem a todo tempo no meu corpo e que me mantém em pé? Como está distribuído meu peso? Que dinâmicas são essas que estão acontecendo independente da minha vontade consciente? É um exercício de atenção e escuta interna, ao mesmo tempo muito simples e muito complexo. Aí começamos a entender a potência profunda que é o nosso próprio corpo.
  • Forças físicas da natureza: os bailarinos de contato geralmente se caracterizam por aceitar a lei da gravidade, compreende-la ao máximo e assim, ser capazes de jogar com ela. Aceitamos o nosso peso, e dizemos para a nossa parceira: "Essa sou eu. Eu peso esse tanto". Normalmente não estamos muito interessados em fazer forças descomunais para executar as acrobacias e levantamentos. Buscamos os gatilhos, as forças de tração, de impulso e continuidade de movimento. Pode parecer que para executar determinados movimentos precisamos ser muito fortes, mas costuma ser muito mais um aproveitamento de um somatório de forças do que ativação excessiva de tônus.
  • Estudos anatômicos: é bem comum que quem dança contato, uma hora ou outra acabe se interessando por estudar anatomia. É uma ferramenta muito legal esse entendimento de onde estão e de como se comportam nossos ossos, articulações e músculos nas mais diversas situações. O que começa com um entendimento de si inevitavelmente passa, em algum momento, a ser também conhecimento do outro. E isso nos dá mais elementos para trabalhar a nossa dança.

Isso não é um tratado. Na verdade está mais pra um exercício de escrita leve e descompromissada. Uma tentativa de sistematizar uma bagunça de pensamentos. Não são regras e nem fins em si. São ideias que tem me ajudado a sintetizar o que entendo como contato improvisação. A troca de ideia constante com outras praticantes vai ativando novas percepções e reestruturando os pensamentos. Essa abertura para escutar, discutir, repensar, é o que vai fortalecendo nossas percepções. E no contato trabalhamos muito esse diálogo, só que a linguagem é outra. Ao invés de palavras usamos nosso corpo. Fala se não é lindo?


Essas ideias não são minhas, na verdade ideias nunca são de ninguém. Simplesmente estou na instiga de socializar conhecimentos e divulgar essa prática ainda bem desconhecida para a maioria das pessoas. Deixo aqui um link de um festival que me ajudou muito nas reflexões, tanto pelo conhecimento compartilhado pelos professores e professoras quanto pela vivência coletiva e imersão com todas as pessoas envolvidas:

Mais alguns links pra quem se interessar:

Essa revista é importantíssima para a veiculação do Contato Improvisação no mundo todo, vale a pena dar uma olhada:

Boas danças!