Por que precisamos ser radicais com o feminismo?



Parece que, finalmente, o feminismo chegou em seu grande momento. Publicações mainstream não se cansam dessa palavra — até a Playboy entrou na onda, colocando vários escritores para falar de tópicos vagamente feministas em sua plataforma online recentemente remodelada. Celebridades mulheres (e até mesmo homens) raramente são permitidas a escapar da “questão da mulher”, independentemente de terem ou não demonstrado interesse na libertação das mulheres.

Enquanto isso pode soar como um passo imensamente positivo na direção certa, dado por um movimento que sempre tem sido relegado a plataformas alternativas como salas de aulas focadas em estudos de mulheres, a realidade é um pouco mais complexa. Infelizmente, transformar feminismo em uma palavra da moda tem feito com que “Você é feminista?” se torne uma pergunta problemática — não porque é ruim, mas porque as respostas geralmente são.

No esforço de popularizar o movimento e, alguns podem até dizer, atrair apoiadores, a palavra em si se transformou em um termo sem significado — porém acessível; um que signifique vagamente “igualdade” (para quem e com o quê?), “empoderamento” (em que base?), e/ou “escolha” (em qual contexto?).

Enquanto no passado nossa luta contra a supremacia masculina e para a libertação das mulheres significava algo radical — e, portanto, assustador — para aqueles que preferiam o status quo, décadas recentes tem trazido uma abordagem “tranquila” diferente. O feminismo não escapou de uma cultura consumista e neoliberal que oferece livros de auto-ajuda e mantras positivos como uma solução para problemas sociais e apresenta “escolhas” individuais como o epítome da liberdade. O que costumava ser uma luta de classes — uma luta pelos direitos coletivos das mulheres e em direção ao fim do sistema patriarcal opressivo — e definitivamente uma luta política, se transformou em uma hashtag, uma selfie, um pano de fundo, um atrativo pra vendas, uma palavra da moda. Qualquer um poderia dizer “Sim! Sou feminista!” e receber aplausos, sem realmente entender o que isso deveria significar.

Não é coincidência que um termo diretamente associado com mulheres se tornou despolitizado, cooptado, e associado com empoderamento pessoal. As mulheres sempre foram o alvo da indústria de auto-ajuda e “empoderamento” é um termo tão vago que pode ser (e tem sido) abraçado pelas indústrias que não poderiam se importar menos em lutar contra a opressão sistêmica, em parte porque elas lucram diretamente a partir dessa opressão.

Feministas de segunda onda um dia já lutaram contra empresas como a Playboy e a indústria do sexo em geral, fazendo conexões óbvias entre a objetificação e a mercantilização dos corpos femininos e a epidemia global de violência contra mulheres. Mas a terceira onda feminista e uma era de maior individualismo popularizaram a ideia de que se uma mulher “escolhesse” se “auto-objetificar” e alegasse se sentir bem em relação a tal escolha, esse era o fim da conversa. Em vez de oferecer uma análise contextualizada que apresentasse questões mais profundas sobre porque uma mulher “escolhe” vender o acesso ao seu corpo enquanto um homem escolhe pagar por esse acesso, e o que isso significa em um nível social e político, o feminismo de terceira onda diz “É a escolha dela e escolhas se igualam a empoderamento.” Essa encarnação moderna de “feminismo” diz que, desde que tecnicamente haja “consentimento” envolvido (independentemente do contexto desse consentimento e de como a marginalização ou mais formas sistêmicas de coerção são levadas em conta dentro dessa “escolha consensual”), qualquer coisa que pode ser rotulada como uma escolha está fora dos limites, em termos de críticas.

O resultado final dessa abordagem liberal que diz que qualquer coisa vale desde que haja “consentimento” é particularmente fácil de se identificar online. Feministas que vêem como a existência da indústria do sexo está totalmente enredada com colonialismo, imperialismo, capitalismo e o patriarcado são caladas com insultos, chamadas de “moralistas conservadoras” e “putafóbicas” por terem a audácia de questionar o direito dos homens de usarem e abusarem de mulheres a bel prazer, desde que possam pagar. Mulheres que argumentam que nós, enquanto sociedade, podemos oferecer mais para mulheres marginalizadas do que o racismo fetichizado que é universal na prostituição e na pornografia, são rotuladas de “feministas brancas,” apesar do fato de que mulheres não-brancas tem investido no movimento para sua própria libertação por tanto tempo quanto todas as outras. Mulheres jovens em redes sociais tem pavor até mesmo de questionar se postar selfies sexy realmente equivale a um ato político, com medo de ouvirem que devem “sentar e calar a boca” e de serem expulsas do feminismo das garotas legais.

Existem infinitas maneiras pelas quais mulheres são intimidadas a aceitar o status quo, tanto de modo privado quanto publicamente, mas é a primeira vez que isso tem sido feito em nome do “feminismo.”

Enquanto mulheres tem sido pressionadas há muito tempo para aceitar pornografia como “sexo” e para participar de atos sexuais degradantes, e até mesmo violentos, pelos homens ao seu redor — sejam esses homens maridos, amigos, namorados, estranhos, figuras de autoridade, ou cafetões –, ver outras mulheres, algumas que até mesmo se chamam de feministas, se engajando em formas similares de intimidação é desconcertante. Lutar contra uma versão pornificada de sexo que diz que dor e subordinação são (ou deveriam ser) algo excitante não é moralista ou fóbico. Da mesma forma, argumentar que as escolhas de mulheres não acontecem em um vácuo e que a “escolha” de se auto-objetificar, seja no Instagram ou no palco de um show de burlesque, envolve muito mais do que se sentir bem sobre si mesma não é “repressão.”

É essa popularização do feminismo — algo que muitas mulheres talvez tenham sonhado que se tornasse realidade um dia — que o corroeu. Se feminismo pode ser qualquer coisa e qualquer um pode ser feminista, será que ele significa alguma coisa? Sem uma definição real e radical, e sem objetivos concordados coletivamente, não é surpresa que homens como Hugh Hefner alegam ser “feminista[s] antes de existir feminismo.” Não é surpresa que posar nua para uma revista de beleza liderada por uma empresa ou incorporar pole dancing em uma performance do Grammy agora é apresentado para meninas como sendo empoderador ou radical. Não é surpresa que a habilidade de ser política e um sex symbol é vista como uma verdadeira realização feminista. Apesar do que nos disseram, não se pode ter tudo. Se nós quisermos mudança, temos que lutar por isso. E isso significa mais do que fazer qualquer coisa que nos faça “sentir bem” naquele momento.

A divisão entre os “feminismos” é articulada de várias maneiras: liberal x radical, terceira onda x segunda onda, sex-positive x sex-negative, mas nenhuma dessas foi vista como totalmente precisa pra mim. (Em especial, desafiar os padrões de sexo que são coercivos e centrados no homem não torna alguém sex-negative, então…) Uma feminista é alguém que apoia e/ou é ativa na luta para acabar com o patriarcado. O movimento feminista é um movimento político que luta em prol da liberdade coletiva das mulheres e em direção a um fim da violência masculina contra as mulheres. Isto é, se você não apoia esses objetivos, o que você está fazendo não é feminismo, não importa quantas vezes você tente alegar o contrário.

Nós não podemos ter objetificação e libertação ao mesmo tempo, porque ser um objeto sexualizado não permite que uma pessoa seja inteiramente humana. Nós não podemos celebrar violência sexualizada e ter liberdade dessa violência sexualizada ao mesmo tempo porque sexualizar violência, er… sexualiza violência. Nós não podemos normatizar direitos que homens acreditam terem falando “homens precisam ter acesso a sexo portanto nós, enquanto sociedade, precisamos manter uma classe de mulheres que estarão disponíveis para satisfazer os seus desejos” e também esperar a construção de uma sociedade onde homens não se sintam intitulados a terem acesso à sexualidade das mulheres. Nós não podemos falar “mulheres são mais do que coisas bonitas” mas também falar pra meninas jovens que serem desejadas será empoderador para elas. Nós não podemos enquadrar “escolha” como sendo algo político enquanto simultaneamente despolitizamos e descontextualizamos as escolhas que mulheres fazem, no patriarcado capitalista. Nós não podemos confrontar a cultura do estupro ao mesmo tempo que normalizamos as exatas ideias que a fundaram: os autointitulados “direitos” masculinos, violência sexualizada, e papeis de gênero que estão enraizados em dominação e subordinação (ex.: masculinidade e feminilidade).

Enquanto os argumentos que eu estou articulando aqui constituem, efetivamente, o “feminismo radical”, no sentido de que é o tipo de feminismo que vai até a raiz, eu estou definindo algo ainda mais direto que isso: feminismo — é algo real e definível que tem significado!

Eu temo que nossa socialização enquanto mulheres em um mundo que nos divide em categorias de gênero anexadas ao que é chamado de “feminilidade” e “masculinidade” nos levou a um ponto onde nós preferimos simpatia em vez de efetuarmos mudanças. Nós queremos sermos vistas como garotas legais em vez de mulheres bravas e exigentes (“putas”, pra ser específica). Nós queremos ser populares e fofas enquanto falamos palavras vagamente políticas. Nós queremos estar com os garotos. E simplesmente não existe uma maneira que nós, enquanto feministas, podemos nos preocupar simultaneamente com sermos muito apreciadas e populares com os caras, enquanto também focamos em destruir a supremacia masculina.

É claro que eu quero que todas as mulheres se sintam bem com si mesmas, que sintam prazer com o sexo, e que celebrem seus corpos, mas os objetivos do movimento feminista são sobre muito mais do que isso. E os riscos são muito maiores do que isso. Em uma cultura que vê cada vez mais mulheres e meninas sendo traficadas, tanto global quanto domesticamente, que vê cada vez mais uma pornografia degradante e violenta estando disponível para qualquer um, que vê uma corporatização da cultura que nos torna consumidores em vez de seres empáticos que se importam com a sociedade que vivemos, e uma distância cada vez maior entre os ricos e os pobres, todos os quais colocam mulheres marginalizadas nas posições mais vulneráveis possíveis e fazem com que elas sofram as piores consequências, nós simplesmente não podemos arcar com uma versão tão irresponsável e lustrosa de “feminismo”.

Quando vidas de verdade estão em jogo, o quanto você ama uma estrela pop em específico ou o quanto você gosta de lantejoulas e glitter ou se o seu namorado e seus amigos se excitam ou não com pornografia sadomasoquista, se torna sem importância.

Juntar-se a nós ou não — isso realmente é sua escolha. Mas redefinir um movimento político que tem como objetivo proteger a vida e a humanidade de mulheres reais para tornar o mundo mais confortável pra você não é.