Portfólio — Isadora Rupp

Foto de Antônio More.

Nasci no interior do Paraná mas vivo em Curitiba há mais de uma década. Nesse tempo, me formei em Comunicação Social — Jornalismo, na Universidade Positivo (2004–2007), e atuei em áreas jornalísticas como jornal diário, revista e assessoria de imprensa.

Por cinco anos, fui repórter do jornal Gazeta do Povo, e passei pelas seguintes editorias: Economia, Geral e Caderno G — no caderno cultural, fiquei por quatro anos, e assumi a cobertura da área de artes visuais, além de políticas públicas e cinema. Também acumulei a função de colunista por um ano.

Pelo jornal, assinei duas séries especiais: 10 anos do MON (sobre o Museu Oscar Niemeyer), e Viva o Guaíra, que diagnosticou amplamente as condições do teatro mais importante do Paraná.

Em 2011, realizei a cobertura especial das Enchentes no Litoral do Paraná, como enviada especial.

Atualmente, trabalho como jornalista freelancer , além de colaboradora do portal de jornalismo cultural independente A Escotilha. Como autônoma, fiz trabalhos para veículos nacionais como o jornal O Globo e Folha de S. Paulo e também projetos para a Gazeta do Povo na área de educação (Enem a Toda Prova), de Branded Content e edição do Guia de Pós 2017.

Em assessoria de imprensa, atendi clientes como a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) e o Sesi Paraná. Atualmente, sou responsável pela comunicação com a imprensa do ISAE — Escola de Negócios. Também fui responsável por parte da pesquisa e entrevistas para livro sobre o atleta Almir de Almeida, veterano do basquete no Paraná, e pelo planejamento editorial da revista Isto!, da área de decoração e jardinagem.

Me interesso sobre assuntos como políticas públicas, feminismo, terceiro setor, educação, comportamento, alimentação, saúde e gastronomia, além de perfis e reportagens inspirada no Jornalismo Literário — sou especialista na área pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL).

A convite da Bienal Internacional de Curitiba, ministrei em 2011 e 2013 palestras sobre Jornalismo Cultural e cobertura de arte na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Antes de trabalhar em jornal impresso fui repórter de revistas da área de educação (Profissão Mestre e Gestão Educacional). Também fiz textos críticos para a publicação de cinema Juliette.

Em pauta no Museu Oscar Niemeyer. Registro de Marcelo Andrade.

Estou disponível para contato no e-mail: isadora.raquel@gmail.com.

A seguir, separei por segmentos uma amostra das reportagens que produzi nos últimos anos:


Reportagens:

Entre os mitos, o pão

Milenar, tradicional e culturalmente significativo, o alimento agora tem fama de ser o principal fator “engordativo”de nossa dieta. Será?

Daniel Castellano/Gazeta do Povo

“Não há nada mais positivo do que o pão.” A frase, do escritor russo Fiódor Dostoiévski, faz sentido: o alimento, além de se confundir com nossa história, sempre teve relação com o sagrado, com a partilha. Em cada cultura, ele está presente: seja o chapati indiano, o brioche francês ou o pita árabe. Nos últimos anos, entretanto, o pão foi alçado a uma categoria de vilão, teoricamente responsável por alguns os males de saúde contemporâneos. Nas redes sociais, nos perfis fitness do Instagram, o pão parece ter se transformado em um inimigo. Será o fim da média com pão na chapa?

O que levou o pão — e, mais amplamente, o trigo –, a responsável principal da epidemia de obesidade que vivemos foi a popularização das dietas hiperprotéicas, principalmente, Atkins e Dukan mais recentemente, cuja base é de carnes, ovos e laticínios. A “moda” parece recente, mas não é: desde a segunda metade do século 19, explica a jornalista e pesquisadora do grupo de História de Alimentação da Universidade Federal do Paraná, Sabrina Demozzi, médicos como o inglês William Banting já orientavam seus pacientes para consumir menos carboidratos.

“O que é novo nessa perseguição aos pães e às massas são as celebridades declarando que não comem mais esses alimentos, sempre com o viés da busca por um corpo ideal. A mídia não provoca um debate sobre alimentação, mas foca principalmente nas dietas restritivas”, diz Sabrina. A nutricionista Marina Nogueira, autora do blog “Não Conto Calorias”, corrobora o raciocínio. Entre seus pacientes, surge sempre a ideia de que, para perder peso, é necessário cortar tudo o que se gosta. “Só que, quando tiramos algo essencial da alimentação, como os carboidratos, buscamos uma compensação depois.” Continua.

Entre os muros de casa

A violência fatal contra a mulher — o feminicídio — cometida principalmente pelos parceiros da vítima, mostra que a percepção de que “em briga de marido e mulher, não se mete a colher” precisa ser cada vez mais combatida

Ilustração: Felipe de Lima Mayerle.

Há pouco menos de um mês, o caso da estudante Paola Natália Cardoso, morta a tiros no meio da rua no bairro Alto da XV pelo namorado, o policial civil Napoleão Seki Júnior (que tentou se matar e morreu no hospital no começo desse mês) chocou a cidade e repercutiu em todo o país. Naquele 24 de abril, entretanto, Paola foi um dos rostos de uma triste estatística: hoje, 15 mulheres em média são mortas no Brasil todos os dias por causas violentas — ou uma a cada uma hora e meia. Continua.

Você é o que você come

Essa máxima nunca esteve tão presente em nosso cotidiano, mas é importante nos perguntarmos: estamos comendo alimentos de verdade ou produtos? O G Ideias conversou com especialistas para refletir sobre esse comportamento

Alexandre Mazzo/Gazeta do Povo

Está confirmado: o papa da literatura sobre alimentação saudável, Michael Pollan, vem à Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) neste ano lançar seu livro mais recente, Cooked (que sai no Brasil pela editora Intrínseca). O autor, professor da Universidade da Califórnia é hoje um dos maiores ativistas da alimentação saudável no mundo, e crítico ferrenho da dieta ocidental. A escolha de Pollan como a atração da Flip é significativa para este momento em que a alimentação nunca foi tão debatida.

É só olhar a avalanche de revistas com a última dieta da moda e livros sobre como perder vários quilos em poucos dias. Um paradoxo, pois o mundo também passa por uma epidemia de obesidade. Logo, pensamos mais no que comemos, mas também estamos engordando.

No Brasil, quase metade dos homens e mulheres adultos estão com excesso de peso. Esse salto ocorreu ao passo em que diminuiu o consumo de alimentos regionais, como a dupla arroz com feijão: entre 2002 e 2009, o consumo de arroz caiu 40,5% e o feijão 26,4%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Também passamos a comprar mais produtos industrializados, como biscoitos, refrigerantes e congelados, a comida pronta que nos salva no dia a dia corrido e estressante. Esse comportamento de trocar o alimento in natura, ou seja, aquele que vem diretamente da natureza para a mesa, pelo produto alimentício, é o principal fator para o alargamento das cinturas pelo mundo. Continua.



Cultura:

Filme inspirado na Lava-Jato começa a ser rodado em Curitiba

Sem ter Moro como protagonista, ‘Polícia Federal — A Lei é para Todos’ estreia em maio

Ique Esteves/Divulgação

CURITIBA — Faz tempo que o bairro Santa Cândida, em Curitiba, na região norte da cidade, deixou de ser uma pacata área residencial. Por abrigar a Superintendência da Polícia Federal no Paraná, onde se desenrolam os fatos da Operação Lava-Jato, a vizinhança tem vivido dias animados. A última sexta-feira foi um deles. Do lado de fora, moradores da região e curiosos espiavam pelos portões do prédio para tentar descobrir um pouco do que será mostrado no filme “Polícia Federal — A lei é para todos”. Do lado de dentro, acontecia o primeiro dia de filmagens do longa-metragem que retrata os bastidores da investigação e deve chegar aos cinemas em maio de 2017. A princípio, trata-se do primeiro filme de uma trilogia sobre o tema. Nos bastidores, porém, brinca-se que o projeto pode vir a ser ser uma tetralogia, por conta do desenrolar da Lava-Jato.

A equipe comandada pelo diretor Marcelo Antunez — de blockbusters como “Qualquer gato vira-lata 2” e “Até que a sorte nos separe 3’’ (ambos de 2015) — ficará nove dias na capital paranaense. Entre as cenas previstas no cronograma de gravação está a interceptação de um caminhão, com viaturas das polícias Federal e Rodoviária Federal na estrada PR-510, tiros e outros elementos que dão o tom do filme: um thriller político com ação e entretenimento, mas que também quer humanizar o trabalho dos profissionais envolvidos na operação.Continua.

Curitiba vive onda ligada à fotografia

Iniciativas privadas, encontros e empreendimentos fazem da capital um dos pólos mais aquecidos para a divulgação do segmento

Foto: Nilo Biazzetto Neto

Seja dentro de galerias e museus, em muros no formato lambe-lambe, projetadas em paredes ou impressas em livros, ultimamente, só parece se falar em fotografia em Curitiba. O mercado de arte vem valorizando cada vez mais a técnica, e os profissionais têm se organizado para mostrar e debater seus trabalhos. Continua.

Sede única para a Embap

Programa de cooperação entre a Fundação Cultural e a escola quer unir a universidade com o Centro de Criatividade de Curitiba

Jonathan Campos/Gazeta do Povo

Desde que assumiu a direção da Escola de Música e Belas Artes do Paraná (Embap), em 2012, Maria José Justino vem fazendo uma verdadeira peregrinação para conseguir que a escola, hoje dividida em três prédios no centro da cidade, em condições precárias, consiga uma sede única. Depois de muitas conversas e possibilidades, o desejo de ver uma estrutura unida parece estar próximo: a Embap deve funcionar no espaço do Centro de Criatividade de Curitiba, que pertence à prefeitura. As atividades que acontecem hoje no espaço, como cursos e ateliês na área de artes visuais, permanecerão no mesmo local.

A Embap e a Fundação Cultural de Curitiba (FCC) dizem que a intenção é unir esforços para que o local, no parque São Lourenço, se transforme em um centro de ensino e cultura — o prefeito Gustavo Fruet está de acordo com a cessão de uso do espaço. Falta, agora, o governo do estado firmar esse protocolo com o município.

A escolha do local se dá, principalmente, pelo terreno ter espaço para a construção de outro prédio, já que o atual abrigaria, de acordo com estudos preliminares feitos pelo Patrimônio Histórico e Artístico, 70% da Embap. E também pela região, que tem forte potencial cultural, com a Pedreira Paulo Leminski e o Museu Oscar Niemeyer próximos. Continua.

O exemplo do MIS-SP

Megaexposições e eventos de diversas áreas fizeram a visitação do museu saltar 113% em um ano

Mostra Interlacing, do chinês Ai Wei Wei esteve no MIS-SP em 2013. Foto: Divulgação.

Quando assumiu a direção do Museu da Imagem e do Som de São Paulo em 2011, o gaúcho André Sturm, que começou a carreira como programador de cineclube — dirigiu o Cine Belas Artes e hoje está à frente também da distribuidora Pandora Filmes –, recebeu a missão de ampliar o público. Muito relevante na capital paulista durante as décadas de 1980 e 1990, o MIS-SP andava um tanto apagado no cenário de artes visuais. Sturm não só retomou essa vanguarda como o transformou em um verdadeiro espaço cultural, com megaexposições e projetos de música, cinema e até balada eletrônica (confira quadro nesta página). O resultado está nos números: de 2011 para 2012, a visitação aumentou 113%, saltando de 86.250 para 184.205 visitantes ao ano.

Somente em 2013, exposições como a do artista chinês Ai Wei Wei estiveram no MIS (foi a primeira individual dele no Brasil), além de uma mostra sobre a história do videoclipe, que trazia, entre os objetos, a caixinha de leite em tamanho gigante do clipe “Coffee and TV”, da banda inglesa Blur. Em outubro, o museu recebe­rá Stanley Kubrick, com objetos utilizados em filmes do cineasta, projeto “querido” de Sturm. “Antes de assumir o MIS soube dessa mostra, e decidi que traria. Desde o meu primeiro dia aqui fui atrás, e a negociação demorou mais ou menos dez meses. Era o meu sonho trazê-la para cá”, conta. Continua.

ONG dissemina arte na zona rural

Com pouco dinheiro e ajuda da comunidade, a “Terrinha” aproxima crianças do teatro, da música e da reflexão sobre o meio ambiente

Renato Perré, por Jonathan Cmpos/Gazeta do Povo.

Partindo do centro de Bocaiúva do Sul, são mais ou menos 10 quilômetros por uma estrada de chão, cheia de curvas fechadas, até se enxergar a primeira placa que indica o caminho para o Terrinha Cultural. O projeto leva arte e cultura para crianças da Escola Rural Jacob Porkote, na cidade da Grande Curitiba, e acontece na chácara da família do artista, músico, bonequeiro e educador Renato Perré.

O trabalho, que existe informalmente há nove anos e formalmente, como ONG, desde 2010, é voluntário: Perré tira do bolso o que precisa para confeccionar os cenários, e conta com a ajuda da comunidade. Até agora, o Terrinha não conseguiu ser contemplado por nenhum edital. A prefeitura de Bocaiúva dá apoio logístico com um ônibus — sem isso, as crianças de faixa etária de 7 a 14 anos (cerca de 200 atendidas por ano), não conseguiriam chegar.

No Terrinha, a ideia é unir cultura com sustentabilidade e valorização da vida rural. Para isso, Perré leva as crianças por trilhas, apontando a rica biodiversidade local, e as integra na confecção dos cenários dos espetáculos, encenado uma vez por ano para a comunidade, sempre na primavera. A festa no barracão é simples (batizada de Festa da Biodiversão), e cada um traz seu prato de salgado ou doce para saborear após o espetáculo. Neste ano, as crianças apresentaram as Cavalhadas, com cavalos com cabeça feitas de caixa de leite.

Ensaio

Não é fácil controlar a ansiedade das crianças. Com um apito para marcar o ritmo dos tambores com a encenação, Perré precisa se dividir constantemente entre diretor de teatro e educador. É “ajeita o cavalo” para cá, “olha para ela” para cá e “silêncio”, a palavra mais frequente. No meio das árvores e do canto dos passarinhos, as crianças se sentem em um imenso palco no pequeno quadrado de concreto, no centro de uma imensidão verde. Durante o ensaio, as meninas, principalmente as que interpretariam as princesas, estavam ansiosas para o grande dia — vestiriam um vestido “rodado até o pé.”

Mesmo assim, ainda foi preciso lutar com a impaciência de alguns, doidos para voltar para a escola. No dia do ensaio, havia uma atração para competir com o projeto: uma cama elástica. A professora Regina Berton, que labuta para dar conta das classes multisseriadas, diz que as atividades do Terrinha ajudaram a “favorecer as ideias” das crianças, além de promover a perda da timidez. Em uma observação breve, entretanto, é difícil acreditar que o “elenco” sofra do problema. Continua.

Jornalista mostra a comida que faz mal

Obra de escritor premiado retrata os truques nada honestos da indústria alimentícia

Ilustração: Felipe Lima.

Você faria um suco natural em casa, de pouco mais de 300 mililitros, e adoçaria com nove colheres de chá de açúcar? Provavelmente, não. É essa a quantidade que uma lata do refrigerante mais popular do mundo, a Coca-Cola, tem de açúcar. E não se anime se você pensar nos sucos “naturais” de caixinha: eles são tão doces quanto.

O refrigerante — e outros produtos ultraprocessados — como biscoitos recheados, salgadinhos e refeições congeladas são estrategicamente formuladas para causar compulsão em seus consumidores. E continuar movimentando uma indústria trilionária, que se aproveita sobretudo de pessoas com baixas renda e instrução, quase sem informações sobre o que comem, para seguir lucrando.

Enquanto isso, uma epidemia de obesidade afeta 2,1 bilhões de pessoas no mundo. Sim, o sedentarismo exerce uma boa influência sobre esse dado. Entretanto, os grandes conglomerados que se dedicam a pensar novas e viciantes fórmulas têm muita culpa.

Eles aproveitaram esse frenesi da “vida moderna”, onde se pensa que não existe tempo para mais nada, e criaram produtos convenientes, que fazem com que as pessoas fiquem longe da cozinha, e muito perto das prateleiras periféricas do supermercado — que vendem os piores alimentos. A estratégia se baseia no comportamento do consumidor, que tem por hábito começar as compras “de trás para frente”.

Todos esses truques da indústria estão minuciosamente detalhados no livro-reportagem “Sal, Açúcar, Gordura”, do jornalista investigativo Michael Moss, vencedor do Pulitzer em 2010. A obra, lançada nos EUA em 2013, saiu neste mês no Brasil, pela editora Intrínseca.

O americano Moss passou anos acompanhando fábricas e conversando com seus maiores executivos e gênios do marketing, especialistas em criar novas necessidades. Continua.

Especial — Dalton Trevisan 90 Anos:

Curitiba tem uma aura “fria, quieta e sombria”

A Curitiba de Dalton foge da utopia e prefere seus lugares e habitantes renegados

Poty/Acervo João Lazzarotto.

Uma “cidade torta” não é exatamente o que nos vem à cabeça quando se fala de Curitiba, por décadas propagada como uma capital modelo para o Brasil e o mundo, cuidada para que seja vista e consumida.

“Ecológica”, “joia rara”, “sustentável” são algumas das alcunhas que recebeu ao longo das décadas, sobretudo nos anos 1990, quando o planejamento urbano e as novas soluções de transporte coletivo tiveram um investimento — e propaganda — amplos.

Nossos locais e personagens atravessados sempre foram escanteados por essa promoção, e até por nós mesmos, moradores.

Mesmo na crítica, sempre resta uma ponta de orgulho em dizer que, comparada com outras capitais, Curitiba tem mais “qualidade”, mesmo que para isso a gente precise fechar os olhos para uma dinâmica sombria que a permeia.

Dalton Trevisan é o maior contestador desse mito. Em suas narrativas vai jogando todos esses elogios por terra — sua visão de Curitiba é realista, mesmo que o escritor reconheça que aqui é seu lar. Continua.

Entrevistas:


“Eu não esperava nada”

Beatriz Milhazes, pintora

Jonathan Campos/Gazeta do Povo

Enquanto buscava o casaco fino para se proteger do ar condicionado do Museu Oscar Niemeyer, a pintora carioca Beatriz Milhazes parava a cada pouco para observar, atentamente, as pinturas da exposição Meu Bem. No conjunto da mostra, em cartaz desde 21 de novembro em Curitiba, estão telas como Meu Limão, arrematada por US$ 2,1 milhões no ano passado, o que a tornou uma das artistas brasileiras vivas mais valiosas do mercado mundial de arte.

As cifras não a impressionam. “Eu não esperava nada do que aconteceu comigo”, contou Beatriz em entrevista para a Gazeta do Povo, quando esteve na cidade para a inauguração da exposição — é a primeira vez que ela mostra suas obras na capital paranaense. A artista de riso fácil não se considera um “fenômeno”, mesmo com o reconhecimento de público e financeiro, e de projetos grandiosos programados para o ano que vem. Continua.

A alegria incansável de Jair Rodrigues

Jair Rodrigues, cantor

Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

A alegria e o sorriso aberto de Jair Rodrigues, que realizou uma temporada de shows em Curitiba no último fim de semana e faz mais três no próximo, na Caixa Cultural (com ingressos esgotados), não fica somente no palco: fora, Jair também adora uma bagunça. Entre o almoço e o descanso para o show, ele conversou com a Gazeta do Povo, e já chegou na porta do hotel às gargalhadas. “Pô, mas vocês nem vão me deixar escovar os dentes?”, protestou diante da reportagem e de uma equipe de televisão que também o aguardava. Sacou seus apetrechos de uma bolsa preta e pediu um minuto. Voltou contando que sua boca estava “parecendo uma horta”, e cantarolou durante toda a entrevista, chamando a atenção dos hóspedes e funcionários.

Natural do interior de São Paulo, pai de dois filhos (os também músicos Jairzinho e Luciana Melo), Jair Rodrigues, 73 anos e 53 de carreira, começou como crooner na noite paulistana. Fez dupla com Elis Regina na década de 1960, e, diferentemente de outros cantores da MPB, ficou distante dos protestos contra a Ditadura Militar. É conhecido sobretudo por suas atitudes inusitadas no palco, como a de plantar bananeira e brincar com a plateia.

No sábado passado, durante o show no Teatro da Caixa, Jair cantou as últimas músicas no meio do público, a maioria delas, sentado no colo de várias mulheres da plateia, o que arrancou gargalhadas de todos. Durante a conversa com a reportagem, fez questão de garantir: “Se eu não sou o homem mais feliz desse mundo, sou um deles”. Continua.

A vida e a política em crônicas

Jean Wyllys, escritor, jornalista e deputado federal

Divulgação

Dormindo apenas quatro horas por noite para dar conta da vida parlamentar, acadêmica e de escritor, o deputado com mandato dedicado à causas relacionadas aos Direitos Humanos Jean Wyllys acaba de lançar seu quarto livro, Tempo Bom, Tempo Ruim — Identidades, Políticas e Afetos, pela editora Paralela. É a sua segunda obra com um tom “mais político”, como ele mesmo define.

O livro é uma reunião de crônicas do autor sobre suas origens, o começo da militância política (ainda adolescente, quando ingressou na Pastoral da Juventude Estudantil em Alagoinhas, interior da Bahia, onde nasceu), o Congresso Nacional, e as causas pelas quais trabalha e defende.

Entre a intensa atividade política e de escritor, ele faz questão de arrumar tempo para as leituras que chama de “diletantes”, geralmente, quando está em trânsito. “São leituras que me iluminam e me trazem um repertório muito bom para a minha atividade política e criação”, contou em entrevista por telefone à Gazeta do Povo. Também é fã de novelas e séries — grava várias — exceto Game os Thrones (exibida na HBO), um de seus vícios. “Dez horas da noite de domingo, não me convide para nada”, brinca. Continua.

Uma outra percepção sobre o cárcere

Dráuzio Varella, médico e escritor

Bel Pedrosa/Divulgação

Quando o lançamento de Estação Carandiru em 1999 causou uma repercussão estrondosa, Drauzio Varella achou que nunca mais escreveria sobre cadeia. Médico, desenvolvedor de projetos sobre saúde na televisão e voluntário na Penitenciária Feminina de São Paulo, sobra pouco tempo para o lado escritor. Depois de afastado do assunto prisão por anos, mas sempre mantendo contato com os amigos que fez no Carandiru (presídio desativado na capital paulista), ele volta ao assunto com o livro Carcereiros (Companhia das Letras), que chega hoje às livrarias. Atraídos pela segurança do serviço público, sem treinamento e sob constante tensão, esses homens aprenderam a ler a cadeia e a detectar sutilezas que, caso desapercebidas, culminariam em tragédias. O relato do ponto de vista dos trabalhadores do sistema, rico em detalhes, foi possível pela convivência do autor com seus retratados, muitos deles, amigos íntimos. Varella conversou por telefone com a Gazeta do Povo de seu consultório médico, em São Paulo. Ele falou sobre o seu processo de criação e disse que o único problema de sua vida hoje é o tempo para escrever. “Fico catando migalhas.” Confira os principais trechos da entrevista:

Como foi falar de prisão novamente?

Quando eu escrevi o Estação Carandiru, o livro teve uma repercussão tão absurda que tomei um choque, achei que eu nunca mais ia falar de cadeia, porque esses assuntos são muito sensíveis. Escrevi outros livros sobre outras coisas, mas continuei trabalhando como voluntário [atende hoje na Penitenciária Feminina de São Paulo], que não é nenhum trabalho excepcional. Uma vez por semana fico lá cinco horas, atendo e venho embora. Mas mantive esse contato com os carcereiros nas reuniões que descrevo no livro [o grupo se encontra todo o mês], e um deles contou a história do túnel de fuga que eu já havia escrito no Carandiru, mas do lado dos presos. Achei interessante falar da mesma coisa, só que do outro lado. Tenho tanto prazer em escrever sobre esse tema que pensei em fazer algo para falar da cadeia do ponto de vista de quem toma conta dos presos, nunca li um livro com essa abordagem.

Todos os capítulos são muito ricos em detalhes. Qual o método de produção do senhor?

Algumas histórias acompanhei de perto e tinha na cabeça, por serem acontecimentos muito dramáticos. Também faço algumas anotações nas nossas reuniões, surgem coisas que são pérolas, e sempre anoto, pois um dia pode ser útil, não só para livros como para minhas colunas (no jornal Folha de S. Paulo e na revista Carta Capital). Outros casos interessantes que conhecia, mas não me lembrava bem, conversava com a pessoa que viveu e pedia para me contar, porque a graça está mais nos detalhes do que no enredo geral. Continua.

Perfis:

Diretora do MON prefere canções tristes

Apreciadora de vozes femininas e do tango de Astor Piazzolla, Estela Sandrini elenca seus discos preferidos

Estela Sandrini por Marcelo Andrade/Gazeta do Povo.

“Credo, que tristeza!”, disse categórico o motorista da artista plástica e diretora do Museu Oscar Niemeyer (MON), Estela Sandrini — a Teca — , quando ela colocou no carro um de seus CDs.

Ela nunca havia desconfiado que gosta de música de fossa, ou de “música de cortar os pulsos”, como gosta de dizer. Um gosto que contrasta com a personalidade alegre e de sorriso fácil. Sua seleção dos cinco melhores discos pode ser resumida em poucas palavras: majoritariamente feminina, dramática, e com o tango como protagonista.

O ritmo sempre fez parte de sua vida: os pais cantavam e dançavam tango, mas não só ele. “Era uma casa muito musical. Dormíamos e acordávamos com música, que é a recordação mais perto da nossa memória plena”, diz ela, que tinha deixado o hábito um pouco de lado — o convite para participar da série foi um resgate de memória. “Fiquei muito feliz, cheguei em casa e fui ouvir tudo.”

Teca aprendeu a gostar mesmo de tango em Buenos Aires, onde morou com o marido (o médico Rômulo Sandrini), no começo da década de 1970. “Eu fui para lá porque o Rômulo foi estudar no Hospital de Niños. Não tínhamos tevê em casa, e a nossa grande comunicação era o cinema e a música.” Shows vespertinos de Astor Piazzolla (1921–1992) faziam parte da rotina do casal.

“A primeira vez que o vi foi no Teatro San Martín”, lembra, que foi cicerone do artista anos depois, quando ele esteve em Curitiba. Continua.

As inquietações e experimentos de Guita Soifer

A artista plástica, que dedicou boa parte da carreira às gravuras, se intriga com as possibilidades da tecnologia na arte

Guita em meio às obras. Foto de Priscila Forone.

“Sabe que eu tive sorte? Eu chamo isso de sorte.” É assim que uma das artistas plásticas mais importantes do Paraná, Guita Soifer, explica como começou a pintar. Nascida na Curitiba de 1935, Guita teve contato com a arte ainda menina, por meio de uma professora austríaca que morava na cidade e dava aulas de desenho e pintura. “Lá eu fazia muitas cópias. Com o passar dos anos, vi que eu copiava os melhores do mundo. Copiava os bons.” Passou a criar seus próprios rostos, paisagens e anseios. Nunca mais parou.

Inquieta, a artista plástica dedicou dez anos de sua carreira à gravura. Além das aulas de desenho e pintura, não frequentou faculdade de artes, mas ia atrás dos melhores mestres da cidade. Teve lições de desenho com o pintor Calderari, trabalhou com a gravurista e pintora Uiara Bartira e frequentou vários cursos do Museu Alfredo Andersen. “Se você tem o desejo, a arte lhe absorve muito. E uma coisa leva a outra. Uma indicação de um livro de arte leva a outro de filosofia e os caminhos que você vai preenchendo se tornam muito ricos.” Continua.

O artista de fins de semana

O inventor-engenheiro que criou mais de quatro mil obras de arte, usou bronze para tentar “eternizar” sua nova exposição

O artista Sergius. Fotografia de Walter Alves.

Sergius Erdelyi quer ser eterno. Seus 91 anos de vida lhe renderam mais de quatro mil obras de arte, patentes de máquinas de costura, a invenção de um aquecedor domiciliar e até museu próprio. O uso de bronze na sua última mostra Ars Aeterna não foi ao acaso. “Fico pensando no que falariam se encontrassem minha obra daqui a cinco mil anos. Qualquer outra pintura você pode destruir, essa aqui não. Isso é muito excitante.”

Nascido na antiga Iugoslávia e criado em Viena, capital da Áustria, o engenheiro mecânico nunca precisou ou quis viver da arte: usa as esculturas como “terapia”. “Pode me chamar de artista de fim de semana. De vários fins de semana.” É instável, artisticamente falando, já que muda o estilo e as formas quando bem entende, justamente por não depender dela. Diz orgulhoso, com um sotaque carregado e algumas palavras em alemão no meio, devidamente traduzidas pela segunda esposa, Elizabeth Loibl Erdelyi, que é completamente livre. “Mesmo nas várias exposições e bienais de que já participei (22, desde 1952), nunca precisei mudar. Se você depende de um marchand e ele gosta de um estilo, vai querer que você continue aquele para vender. Ele praticamente te escraviza”, diz.Continua.

Colunas:

Por um ano, assinei uma coluna quinzenal no Caderno G , com crônicas e textos que refletem não só sobre cultura, mas também analisam aspectos do cotidiano e comportamento.

Eis alguns exemplos:

Viagens que não fiz.

Malucos por livros.

Cozinhar.