Sobre leões, cabelos e diferenças.

H á mais ou menos três anos, eu estava dentro de uma salinha, com muitas crianças, sendo chamada de “tia” e repetindo “e cinco, seis, sete, oito!” incansavelmente — mentira, isso cansava. Com poucos meses na função de professora de dança, percebi que dentro de uma carreira como essa, existe ao menos uma criança, que por algum motivo, marca a sua vida.

Arranjei outro emprego, mais de um ano se passou, porém uma pessoinha chamada Audrey, continua sendo uma das minhas melhores lembranças.

Audrey chamava minha atenção a cada aula. Ela não era tímida como as outras, era cara de pau, na verdade. Por isso, me fazia rir tanto. Era inquieta, curiosa, magricela e falante. O tipo de criança que facilmente influencia as outras. Era esperta e sabia exatamente como amolecer meu coração antes de fazer algum pedido descarado. Era cheia de qualidades.

Ela se destacava, não só pela personalidade. Sua cor preferida era rosa e segundo ela, seu cabelo era o que ela possuía de mais bonito.

Um dia estranhei o fato de Audrey ter aparecido tão quieta na aula. Quando a vi, pensei comigo mesma que provavelmente ela teria brigado com a melhor amiga, ou levado uma bronca feia de alguma outra professora. Enquanto observava Audrey, percebi que havia outra coisa estranha: o seu cabelo. Não estava solto e bonito como em todas as aulas. Estava preso, num coque.

Quando decidi perguntar o porquê disso, ela apontou o dedo para algumas meninas e com voz baixa, respondeu: “É que elas disseram que com o cabelo solto, eu pareço um leão”. E pela expressão triste, as outras meninas deveriam ter feito aquela afirmação de uma forma um tanto cruel. “E desde quando leões não são bonitos?”, foi o que acabei falando. Pelo menos arranquei uma risada daquela menina. Mas por dentro, eu estava indignada.

Audrey tinha cabelos crespos, castanhos e enormes. O cabelo dela era diferente do das outras meninas. Ela, por inteiro, era diferente. Pela personalidade e pelo cabelo. Mas em meio àquelas meninas, diferença mesmo era a cor da pele dela.

Audrey era a única criança negra da turma.

Eu tentei convencê-la do quanto tudo o que havia nela era bonito. Expliquei que as diferenças dela faziam com que ela se destacasse de uma forma muito boa. E que as opiniões dos outros sobre nossa aparência, são pura besteira.

Na aula seguinte, enquanto ligava o som, senti alguém de leve me cutucando e quando virei, “Olha, tia!”, “O quê?” perguntei querendo saber para onde olhar, “Meu cabelo! Tá solto!” Lá estava ela, com a carinha feliz de sempre, exibindo aquele cabelo todo. Pronto, eu havia ganhado o dia.

Audrey era esperta e havia entendido meu recado.

Apesar de parecer apenas um relato de um fato qualquer, esse episódio me fez refletir. Se isso aconteceu na infância de Audrey, coisas piores podem acontecer em seu futuro e, por isso, eu espero que essa menina carregue minhas palavras pelo resto da vida.

Na verdade, eu espero que ela nunca mais queira esconder toda a beleza que nasceu com ela. Espero que ela se orgulhe do que tem e do que é, por essência, descendência ou opção.

Quero que Audrey se torne mulher em um mundo onde diferenças raciais não tenham mais impacto sobre a sociedade. Onde casos absurdos e polêmicos de racismo e preconceito, façam parte apenas do passado. Onde todo esse papo de igualdade não seja mais motivo de discussão, debate ou protesto.

Desejo que ela cresça sem ter que conviver com a incapacidade humana de aceitar o diferente. Espero que um dia ela deixe de ser a única aluna negra da sala de aula. Espero que, futuramente, ela possa ocupar algum cargo que hoje nenhum negro ocupa. Espero que ela cresça em um mundo onde diferenças ainda existam, mas que não sejam mais vistas com olhos de julgamento.

Em uma sociedade onde seja plena a consciência de que o valor de qualquer ser humano é o mesmo.

Utópico, não? Pode até ser. Mas eu prefiro continuar acreditando que o mundo possa mudar. Talvez eu não esteja mais por aqui, em carne e osso, para ver tamanha mudança, mas se um dia eu souber que nunca mais falaram do cabelo da Audrey, já ficarei feliz.