Uma saudade: meu pai.

Para ele, mas só para ele, eu era a Dodó.

Durante minhas madrugadas em claro, nossas longas conversas quebravam o silêncio da sala de estar. Em seus últimos meses, ele falava pra mim o quanto tinha aprendido a valorizar as coisas simples da vida: o silêncio da madrugada, o passarinho amarelo que canta perto da janela, o barulhinho calmante da chuva, o calor gostoso do sol na pele.

“Eu acredito muito em você”, ele disse pra mim em uma das nossas últimas conversas. Muitas vezes, ele me entendia sem que eu precisasse me utilizar de muitas palavras ou me alongar em explicações. Sempre foi assim, desde a minha infância.

Uma conexão. Coisa de pai e filha, talvez. Coisa de sangue. De alma.

A toda manhã, o espelho faz com que eu pense nele. Afinal, meus olhos são dele. A expressão séria que se apossa do meu rosto em certos momentos, também é dele. A alma sonhadora. A mania de pensar demais. Eu vejo ele em mim, vejo ele no meu irmão, vejo ele em cada coisa idealizada e construída por ele.

Eu já tive uma casinha de madeira. Um bonequinho todo de madeira. As rodinhas extras da minha bicicleta, eram de madeira. As pizzas que me ajudaram nos estudos de fração, eram de madeira. Até minhas bonecas já tiveram o privilégio de ter móveis idealizados e feitos pelas mãos dele.

Seu amor ficava mais explícito em atitudes do que em palavras.

Durante uma época da infância, o trajeto até a escola era sempre uma aventura. Eu, meu irmão e meu pai. Uma bicicleta e duas garupas. Nossa escola era longe de casa. Por isso, a façanha era diária. Até hoje me pergunto como era possível equilibrar duas crianças em cima de duas rodas, pela rua afora. Meu medo na época era deixá-lo voltar sozinho pra casa. “Será que ele vai se machucar?”, eu pensava preocupadíssima.

Ele não foi o pai perfeito. Nenhum pai alcança a excelência suprema. Mas sinto que ele foi o melhor que conseguiu ser. Talvez seus anos de ausência, tenham sido compensados nesse último ano de absoluta presença.

E, apesar de tudo, ele foi o meu herói. Por longos anos.

Já cheguei a ter a impressão de que ele daria um jeito em qualquer problema que se metesse em sua frente. De que ele resolveria qualquer coisa. De que ele sanaria qualquer dúvida. De que ele amenizaria qualquer tempestade.

Em janeiro de 2016, descobrimos o câncer do meu pai, já em estado grave. Passaram-se poucos meses até eu receber a ligação mais triste da minha vida. “Seu pai está indo embora”, minha mãe avisa ao telefone. Lá meu pai estava, internado no hospital havia quase uma semana, sob efeito de morfina.

Debilitado como nunca o vi antes.

Meus olhos estavam marejados em uma água que parecia infinita. Deitado naquela cama de hospital, ele praticamente sussurrava palavras soltas, com certa dificuldade. Mas me olhava bem no fundo dos olhos. Incrivelmente calmo, tranquilo, grato e sereno, ele sorria.

Minhas palavras eram cachoeira escorrendo pelo rosto. Nada saía da minha boca. Nenhuma palavra sequer. Havia um nó na garganta que impedia qualquer tráfego. Um aperto que quase triturava o coração. “A gente se comunica melhor assim, né?”, ele me diz ao segurar minhas mãos. Eu não poderia concordar mais.

Pais e mães não deveriam ir embora desse mundo. Deveria ser proibido por alguma lei divina. Mas quem sou eu pra questionar os céus? Deus é Deus, ponto final. E até onde sei, estamos aqui nessa terra só de passagem.

Agora os dias passam devagar. A ficha cai aos pouquinhos. A saudade se aloja no coração. E, às vezes, conter o choro é como lutar contra um monstro gigante que tem mais de sete cabeças. Ah, eu sei que a dor passa. Eu sei que o tempo cura. Eu sei que ele ainda está comigo. E sinto que é só uma questão de tempo até eu poder abraçá-lo novamente. É só uma questão de tempo.

Mas… que saudade de você, pai!