2- GABI

Anos pra desaprender que casar, ter dinheiro e ter filho não era o suprassumo da vida. E ainda tinha que escutar que eu ia ficar mais feliz quando arrumasse um namorado ou um emprego. Pra cima de mim, não. Só porque minha melhor amiga tava noiva (uma baita cafonice, na minha opinião) e tinha grana pra viajar cinco vezes por ano e ter uma arquiteta quando eu não tinha nem um apartamento pra chamar de meu, achavam que eu invejava aquela vida. Tomar no cu. O que eu queria mesmo era deitar a cabeça no travesseiro e não pensar na morte. Era não ficar preocupada com o 99% miserável do mundo. Era não ter que admitir que eu era uma privilegiada e porque não, uma opressora. Eu chorava, literalmente, assistindo o noticiário na TV. Eu sofria, eu me responsabilizava pelo bem estar do mundo, pelas crianças desaparecidas em outros estados e as mulheres mutiladas em outros continentes. Eu, no meio das outras 7 bilhões de pessoas, me culpava e entristecia junto com o resto do mundo. Eu sei que somos um só, não adianta querer me convencer do contrário. E eu me sentia humilhada por não ter forças pra deixar de comprar os tenis da Adidas que eu gostava e porque eu tinha um grupinho de amigos tão escroto quanto o da Taylor Swift. Se Deus existe, ele é esse filho da puta que vive montando bonecos com corpos e mentes que não combinam. Eu era magra demais e branca demais pra ser revoltada. Quem era eu pra reclamar de alguma coisa? Nem isso mais eu tinha. Eu que cresci quebrando as portas da minha casa, entendia agora a vida boa que levei o tempo todo. Bem que minha mãe me falava que eu tinha era que levantar as mãos pro céu. Aliás, por que as mães tão sempre certas?
- Todo mundo daria o mundo pra estar no seu lugar agora.. para de reclamar e vamos beber. — Filosofava minha irmã, a pirralha com tendências depressivas da galera. Hoje ela tava pegando uma menina no bar e bebendo gin tônica. Amanhã, ela estaria enfurnada no edredom, faltando o trabalho e evitando todo mundo. Eu já tinha conversado com ela. Era engraçado como levantar a hipótese de depressão causava o mesmo impacto de uma mosca voando em outro planeta. Caralho. A mina ficou internada por seis meses há dois anos atrás e todo mundo já tinha esquecido. Ou ninguém se importava. Ninguém se importava com distúrbios mentais de uma forma geral. Esse era o mundo em que vivíamos. Assistíamos nossas mães deitadas por anos a fio em suas camas e ninguém fazendo nada pra ajudá-las. E eu previa meu futuro. Minha sensação era de que o peso do mundo só aumentava e a força e a ajuda pra carregá-lo diminuíam com o passar dos anos. Era mais uma das minhas dores. Casamentos, filhos e dinheiro poderiam ficar pra próxima vida.

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