Desmarginação

Sobre Elena Ferrante, Lila, Lenú e minhas amigas

Cheguei ao fim dos quatro volumes da Elena Ferrante que me transportou de trem fumaça por uma Itália que eu tanto amo… São páginas inteiras, povoadas por encontros e desencontros, imersas entre diversas personagens, narrando uma paixão que transborda, que não conseguimos engarrafar, que mesmo devagar, escorre entre nossos dedos, não há o que fazer. O livro também desliza um pouco pelos privilégios (ou falta de) e trata com uma superficialidade inteligente, embates políticos (o comunismo x fascismo ou escândalos de corrupção quase atuais), aviva um feminismo de outro tempo e conversa amenidades com o leitor. Acompanhamos inúmeras infâncias que migram para a idade adulta trazendo marcas de episódios aleatórios. Pra mim foi fácil entrar na mente de cada um dos amigos de Lenú, no entanto, não consegui imprimir uma forma física a quase nenhum. Não é sobre isso. Com o passar de um livro para o outro, deixa mais ainda de ser. Como disse são quatro espessos volumes que acompanham a vida de uma mulher e sua melhor amiga que a serve como um espelho de tudo que é bom, tudo que é ruim. Uma relação que se assemelha imensamente com o modo que vejo minhas amizades. Uma vontade de dar um soco na cara misturada com pena. Uma vontade de não escutar o que ela tem pra dizer, misturado com curiosidade vil. Uma admiração tão absurda que às vezes chega a ser impronunciável. Algo muito entranhado, que demanda uma paixão avassaladora pelo outro, para que possa ser externado. Demanda empatia, cuidado, admiração, fascinação. Nada que seja de fácil acesso. Não damos a liberdade para as pessoas nos destruírem, sendo assim, não a damos também para que elas nos operem milagres e nos transformem. Não contamos o nosso lado da história como ele é, mas como queremos que ele pareça a cada um. As relações precisam de uma vida inteira para se tornarem reais e quando se tornam, podem cair por terra. Os quatro livros da série que no Brasil foi chamada de “Tetralogia Napolitana” ou algo do tipo, me arrebataram assim. Colocaram-me frente a frente com as amigas que caminham normalmente ao meu lado, imploraram para que eu encare e entre em embates. Pior que sempre achei que sim, os embates são necessários, só assim me livro de preencher com fantasias odiosas os espaços desconhecidos dos outros. Palavras não ditas, tendem a virar rancor, medo, isegurança. O livro veio para me confirmar.
Lenú e Lila vivem uma amizade que não disfarça a competição, pelo menos aos olhos da narradora, mas perdura por quase sempre e impulsiona as duas a darem um passo a frente na busca pelo sentido de si mesmas, por mais que a desmarginação, conceito criado por Lila que é justamente o perder os limites do nosso corpo, nos expandir e misturar com o resto do mundo, não ser ninguém, além de matéria bruta, esteja sempre à espreita, calmamente esperando um gatilho.