Feliz dia das crianças

Eu criança queria ser menino. Eu sei, eu já disse mil vezes, mas essa é a parte que eu mais lembro de ser criança. Eu queria ser menino porque eu não queria dançar ballet. Porque eu queria brincar de lego, de jogar futebol e videogame e não ser achincalhada por causa disso. E era impossível. Eu queria ser menino porque eu queria usar bermuda e camiseta e não vestidos (quem conhece minha mãe, pode imaginar o naipe dos tais vestidos). Claro, hoje, pensando bem, olhando pra trás, eu não queria ser menino nada. Eu só queria fazer as coisas que a sociedade resolveu definir como “coisas de menino”. Eram coisas que eu adorava, independentemente da vagina que habitava o meio das minhas pernas. Agora, pra você, pensando bem também, faz algum sentido uma criança entrar nessa confusão de gênero e identidade, só porque resolveram delegar as atividades sensíveis, delicadas e intuitivas às mulheres e as de força e lógica aos homens? Não seria muito mais simples, se ninguém nunca tivesse te dito se você é homem ou mulher, se ninguém nunca tivesse te dito de quem você precisava gostar, do que você precisava gostar, qual esporte você deveria praticar, com quais brinquedos você deveria brincar, que roupas e ainda mais, que cores de roupas, você deveria usar? Seria, tenho certeza que seria. E que ótimo (?) se você identificar com todos os estereótipos do gênero que te foi designado, mas lembre-se sempre de que você tirou a sorte grande, dê valor ao seu privilégio e não cobre o mesmo de ninguém. Por favor, não cobre isso dos seres humanos que você criar, ensinar e cuidar, quer sejam eles seus filhos, alunos, afilhados, amigos, etc… Não espere isso de ninguém, não seja mais um multiplicador dessa cultura boba que nos poda e nos limita. Aqui tem um textinho meu , que do meu ponto de vista, demonstra um pouco do que sofremos nesse processo todo, sendo mulheres. Homens também sofrem com essas divisões e obrigações de se encaixar em padrões (recomendo o documentário The Mask You Live In que tem no Netflix), principalmente nessa fase de desenvolvimento, na qual muitas vezes deixam suas características mais marcantes e belas se perderem para não parecerem “menininhas”.

Então é isso, nesse dia das crianças, faça que nem a minha mãe o meu pai (pois é, eu sou sortuda demais) e presenteie uma criança com a liberdade que ela precisa pra ser quem ela é de verdade. Deixe ela escolher seu presente. Deixe ela escolher a roupa que quer usar. Deixe ela te falar pra onde quer ir. Deixe ela te contar, no fundo, no fundo, do que ela gostaria, se ninguém tivesse dito pra ela do que ela precisa gostar.