Vem, filhx.

Sejamos todos.

Eu nunca acreditei no gênero como uma boa forma de definir o ser humano. Não falo nem de orientação sexual (que também não me diz nada) e sim do que nos define como alguém do sexo masculino/feminino ou qualquer coisa além disso. Nunca entendi porque esse é o tipo de coisa que querem saber sobre nós quando vamos preencher qualquer formulário. Ao chegarmos num país diferente, ou quando estamos prestando vestibular para uma universidade. Pior que ao preenchê-los, colaboramos com os interessados em continuar nos dividindo em duas “caixas” que não se misturam. 
Quando criança eu me encaixava muito mais na “caixa” dos meninos do que no universo feminino. Eu tinha pavor de rosa, de princesa e de barbie. Amava super-heróis, videogames. Cada vez que tinha uma festinha, minha mãe abria o nosso armário cheio de looks frufruzentos e eu queria virar um foguete humano e ir morar na Lua. Acabava sempre de macacão pra não ter que usar vestido. Sempre me senti ridícula ao me fantasiar de “sexo feminino”. Sou assim até hoje, tenho uma dificuldade ímpar em me maquiar ou fazer qualquer coisa que me deixe mais parecida com as mulheres dos filmes e revistas. Colocar um vestido longo que define todas as minhas curvas, maquiagem e um salto pra ir em um casamento, é um ato de coragem, uma vez que ao me olhar no espelho, demoro pra entender que aquele belo E.T. ainda sou eu e que daquele jeito, todo mundo vai me achar mais bonita. Bate uma crise de identidade que hiberna em mim 360 dias por anos, em média. 
Eu não sou a melhor pessoa pra versar sobre o não binarismo e a fluidez de gênero, mas se você tiver um tempinho pra dar uma pesquisada, vale a pena. Eu odiava ter que ser mulher, mas hoje entendo que o problema está em ter que escolher entre ser homem ou mulher.
E foi por isso que eu não fiz a menor questão de saber se o neném que eu carregava na barriga seria um menino ou uma menina. As perguntas dos não entendedores eram sempre as mesmas: “uéé mas como você vai fazer o enxoval? E como vai pintar o quartinho?”. Sinceramente! Minha menina não será obrigada a viver num ambiente onde só existe rosa, flores e borboletas e meu filho não vai ser privado de dormir perto de arco-íris e unicórnios. Não vai ter criança aqui crescendo com a ideia de que tem direito a apenas metade do mundo, como aconteceu comigo e confundiu minha cabeça toda. E desde sempre, ela poderá escolher dentre todas as opções que existirem, a cor da sua parede, suas roupinhas e seu corte de cabelo. Assim, sem esforço, aprenderá que sua essência vai muito além das letrinhas F e M dos formulários que preenchemos por aí.