CDG, vulgo Charles De Gaulle


Faz muito tempo que deixamos o apartamento da Kwaadham. A esta hora, deveríamos estar quase chegando em São Paulo mas, por algum motivo alheio a minha capacidade de raciocínio, não conseguimos sair da Europa ainda.

As vezes eu fico pensando se as coisas realmente acontecem por alguma razão ou se, simplesmente, elas acontecem.

Essa questão sempre me afeta. Eu quero acreditar que há uma razão para que tudo aconteça como acontece mas, ao mesmo tempo, me parece muito utópica, ingenua e irresponsável a ideia de que nosso futuro já está escrito, predestinado e que não temos responsabilidade nenhuma pelo que acontece conosco. Assim é bem mais fácil viver, sem ter que clamar a responsabilidade por nada…

Bom, de qualquer jeito, o fato é que estamos no aeroporto ainda. Cansados, irritados, com fome, quase vencidos. Eu digo quase, não para entrar na lista dos que adoram lutar até o final, dos que querem sobreviver a qualquer custo, só pela glória de dizer ‘sobrevivi’ e sem nenhuma razão outra, mas pelo fato de que ainda estamos fazendo piada e esperando ansiosamente o chamado da aeromoça para embarcarmos. Alguma vontade e alguma razão para ir para casa nós ainda temos. E asseguro que não é única e exclusivamente para dizer ‘sobrevivemos’, ‘lutamos’, ‘conseguimos’. É mais pelo chuveiro bom, comida gostosa e a melhor cama do mundo do que pela glória de ter passado um perrengue danado.

Fazendo um parênteses: eu não aguento esse discurso do ‘sobreviver a qualquer custo’, do ‘não desistir’ só por não desistir. Tá certo que as vezes vale a pena o esforço, vale a pena a persistência mas, por alguma razão maior. Eu não entendo essa mania das pessoas de enaltecer a luta pela sobrevivência a qualquer custo. Eu não quero sobreviver a qualquer custo. Depende do preço. Eu acho que ponderaria as minhas opções e, pelo menos agora, de maneira nenhuma, escolheria o ‘glorioso’ caminho da persistência cega. Acho isso de uma burrice fenomenal… burrice não, me engano, ignorância fenomenal. Para não sofrer com os fatos reais, as pessoas se apegam a glória de ‘vencer’, ‘nao desistir’, ‘sobreviver’. Tá certo também que as vezes vale a pena como uma válvula de escape, como uma ajuda para seguir em frente (quando se tem realmente porque seguir em frente a não ser o simples fato de seguir em frente). Mas, isso por isso, me irrita. Eu tenho um preconceito (ou pósconceito) gigante com relação a essas pessoas.

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