Há 6 maneiras de querer uma pessoa

É o imaginar, seus lábios tocando os meus, um momento perfeito, que me faz voar longe de alegria

Nenhuma delas é espiritualmente. A conexão espiritual está reservada para o amor em sua totalidade, que floresce tão poucas vezes que você se surpreenderia — uma ou duas, no máximo. É tênue a linha entre querer e amar hoje em dia. Mas se você observar com atenção, perceberá. O querer se aproxima da ilusão. Do amor nunca experimentado, da fantasia de colar os corpos e a alma. O amor do querer é platônico; o amor do amar é raro.

*

— Eu senti falta do seu sorriso. É bom poder te ver. — disse Viv, com uma voz doce.

— Eu achei que você estaria ocupada demais para pensar em mim.

Seu tom era sincero, quase questionador. Porque raios pensava nisso outra vez, ele não entendia. Passaram-se anos e tinha esperanças tolas de que Vivian ainda o amasse.

Aquele sorriso forçado não deveria incomodar mais. Porque raios incomodava tanto, ela não entendia. Passaram-se anos e Juan ainda deixava um amargor no seu palato.

— No caminho até aqui fiquei pensando. Você se lembra da nossa primeira noite?

— Você perguntando se eu tinha transado com o João ou a gente jogando baralho? Ou melhor, você jogando um jogo que até hoje eu não entendi enquanto você perguntava na maior cara de pau se a minha vida sexual era ativa.

— Acho que foi você que começou com esse papo de que ‘a minha vida sexual é bastante ativa’- Juan imitou com uma voz fina. — Foi uma frase bem tosca, essa.

— Eu? Jamais disse isso. Imagina. Se eu não lembro, eu não disse.

— Mas eu lembro. A gente ficou acordado até de madrugada, conversando. E no dia seguinte… você se lembra o que você me disse? Eu mal te conhecia, e você já chegou falando coisas íntimas.

— Nossa. O que eu falei de tão incrível?

— Você me perguntou há quanto tempo eu namorava. Você nem precisava ter perguntado… você me leu na hora sem nem me conhecer e percebeu que aquele namoro não tava dando certo.

— Não lembro direito disso. É estranha a sua memória, você seleciona uns momentos muito aleatórios que aconteceram entre a gente.

— Eu sei. Mas vai dizer que você também não guarda umas coisas desse tipo na cabeça.

— Se eu fosse te contar tudo que eu lembro, renderia. Não temos esse tempo.

— Pode começar.

— E se eu não quiser?

— Eu sei que você quer.

— Sim. Mas só com uma condição. Se você escutar tudo, e só depois você pode dar palpite. Porque você tem a mania chata de me emburrar e discordar de tudo que eu falo de propósito. Só para infernizar a minha vida, você leva tudo para brincadeira e assim… falar sobre esse assunto, eu e você, é sério para mim. Como tudo na minha vida. Eu sou séria. E você sabe.

— Você finge que se irrita, mas no fundo eu sei que você ama as minhas brincadeiras. Eu amo te encher mesmo.

— Eu tolero, e não amo não.

— Ama sim.

— Ai, tá vendo. Eu nem comecei a falar.

— Tá bom, eu paro, vai. Pode falar, eu vou escutar.

— Sério? Promete?

— Prometo.

— Então está bem, lá vamos nós. Minha primeira lembrança de você é o suéter branco de gola horrendo que você tava usando na noite que nos conhecemos. É feio, pode se desfazer dele. Um conselho amigo, juro. — Viv falava entre risadas de graça e vergonha. Era agora a hora de abrir o peito.

— Okay, vou começar de novo. Vou falar o que realmente importa. Eu te achei simpático, doce e bonitinho. Não foi lindo de cara não, viu seu metido. Eu nem sempre te acho lindo, por sinal. Mas é… o conjunto de você, depois de te conhecer, é bem lindo sim. Enfim, eu te vi e simpatizei. Pode não ter acontecido e talvez você alegue que não lembra, mas eu acho que você também foi com a minha cara, de simpática, doce e bonitinha. Eu realmente não sei o que me levou a gostar tanto de você. Acho que a leveza de ser e poder falar o que vinha a minha mente, de dar e receber carinho, de perguntar e conhecer, de ser questionada e ouvida, de fazer parte de uma amizade nova. Foi tudo muito rápido. Tudo isso só me atraiu para mais perto de você. E o engraçado foi o contexto em que eu me encontrava. Tinha saído de um relacionamento tenso, abusivo, lembra? Descobri perto de você a minha ânsia por liberdade. Eu me senti livre pela primeira vez depois de meses me sentindo presa. Fiquei feliz de perceber que eu me sentia bem. Finalmente, sabe? Eu estava conectada comigo. Não pude acreditar.

— Por que você parou de me escrever? Desde quando você não gosta mais de mim?

— Não bem é assim…

— Por quê?

— Porque não era suficiente.

— As vezes, quando eu me sinto triste, feliz, eu penso em você. Quando as coisas não vão bem, eu penso em você. Mas não sei como me aproximar. Você me deixa nervoso. O que aconteceu conosco? — esboçou o sorriso torto de novo, incômodo.

— Como eu queria me cansar de você. — Viv suspirou.

— Mesmo assim você me afasta.

— Eu te amei, no auge do volume da minha mente. Te amei com todas as forças, um amor perfeito, encaixado, excitante, simpático, doce e bonitinho. Eu te quis incondicionalmente, irresponsavelmente, indiscretamente, infelizmente, sexualmente e intelectualmente. Mas nada nos une mais.

“Para que nada nos amarre, que nada nos una.” — Pablo Neruda (trecho retirado do poema “Farewell”)
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