TEMPO REI

O dia que deixamos passar porque estávamos emburrados com a vida.
A vida sem graça do emprego entediante da rotina esmagadora da cerveja quente no final do dia. Que dia sem viço.
O ônibus sempre cheio, o almoço sempre gelado, as mensagens sempre corridas. Aqui não pode falar alto, não pode falar baixo, não pode dar risada. Chove lá fora, mas quem é que sabe se nem janela a sala tem.
Cai trovão, barulho estouro, e nada atinge inércia de ir e vir. O tempo escorre numa água imunda pelas calçadas de concreto. Somos um pino de tabuleiro que se move de acordo com vontades alheias.
A casa não é minha, nem sua, o salário mal paga o aluguel, a cama foi emprestada, pode ser que amanhã chova de novo.
Não sei você, mas eu não tenho mais guarda-chuva, esqueci no metrô talvez pensando que nada além dessa vida emburrada me pertence.
Saio do calor que enforca, das gentes apressadas, sinto a água molhar meu rosto já ensopado de tristeza. Dou meio sorriso, lava leve leva a sujeira dos dias que não vi, nem senti, só passei.
Somos só mais um no meio do trânsito ensurdecedor, varridos pela manhã e pela noite. Nem tempo nem casa nem nada. Água. Sonho em ser um nenúfar, flutuar, que a chuva me leve. Quem sabe ainda há esperanças.
Cansei de ser poeira, bolor, um corpo apodrecido por um tempo que se foi, um tempo que perdemos por acreditar que há sempre o amanhã. Pois.
O tempo jamais espera e o meu guarda-chuva já era.
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