O crescimento da intolerância religiosa no Brasil

O direito de criticar dogmas e encaminhamentos é assegurado como liberdade de expressão, mas atitudes agressivas, ofensas e tratamento diferenciado a alguém em função de crença são crimes inafiançáveis e imprescritíveis.

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Por Isabela Guaraldi e Mayara Bosco

A intolerância religiosa no Brasil ainda é algo bastante recorrente na realidade, principalmente, de religiões afro-brasileiras, como a Umbanda e o Candomblé. Mesmo com a Lei nº 9.459, de 15 de maio de 1997, que classifica como crime a prática de discriminação ou preconceito contra religiões, a destruição de terreiros e o número de agressões físicas e verbais crescem a cada ano.

De acordo com dados de 2015 ao primeiro semestre de 2017, do Ministério dos Direitos Humanos, o Disque 100 recebe uma média de uma denúncia de intolerância religiosa a cada 15 horas. Desde 2011, foram registrados 1988 casos de discriminação religiosa no país, com aumento de denúncias a cada ano. Em 2015, 556 casos foram registrados, já ao final do ano de 2016, foram registrados 759 casos de violação à liberdade religiosa.

O preconceito contra as religiões afro-brasileiras está diretamente ligado ao racismo existente há séculos no país. O mestre especialista em ciência da religião, Tenente Coronel Mário Alves da Silva Filho, afirma que: “quer queira quer não, nós somos um país altamente racista, com a diferença social muito grande e, qualquer manifestação religiosa de origem negra é mal vista”.

No caso da Umbanda e do Candomblé, religiões mediúnicas, assim como o Espiritismo, a intolerância também acontece em decorrência do passado de perseguição às bruxas na Europa Inquisitorial. A questão mediúnica, para o europeu, estava diretamente relacionada ao demônio, e essa herança foi transmitida aos descendentes.


A Europa Inquisitorial ocorreu em dois momentos da história europeia: na Idade Média, nos séculos XIII e XIV, e dos séculos XV ao XIX, chamada de Inquisição moderna, concentrada em Portugal e Espanha. Nesse contexto, as pessoas que não seguiam o padrão da época, aquelas que não eram católicas, eram perseguidas, julgadas e punidas pelos tribunais da Igreja Católica. Os hereges, portanto, eram considerados bruxos e bruxas.


Christian Duwe, Pai do Núcleo de Umbanda Cacique Pena Branca, em São Paulo, afirma que após mudar o local da casa, em um mês, já receberam a polícia três vezes por conta de denúncias dos moradores e pessoas da vizinhança. As denúncias consistiam em reclamações por causa do barulho e das pessoas de branco que ficam na porta do núcleo. Aparentemente reclamações modestas, mas que refletem duramente o preconceito no cotidiano dos umbandistas, assim como no de crentes de outras religiões afro-brasileiras. “As pessoas não conseguem identificar na Umbanda uma religião boa. Infelizmente existe muito isso de que a religião umbandista é uma religião do mal”, declara Duwe.

A intolerância constitui a dificuldade das pessoas de aceitarem o diferente daquilo que elas próprias consideram normal ou padrão. Nenhuma religião é certa ou errada, todas fazem parte de um conjunto onde a fé “é o motor”. O ser humano não existe sem a crença em algo, seja acreditar em Deus, Buddha, Oxalá, ou simplesmente acreditar que nenhuma divindade superior exista.

SOBRE A UMBANDA

Apesar de muitos pensarem que a Umbanda é uma religião africana, na realidade, ela surge no Brasil, no século XVIII, como Calundu, que é a manifestação religiosa do povo Banto. Em seguida, o Calundu se transforma em Cabula, também manifestação religiosa banto.

Após essa iniciação da religião que futuramente se torna a Umbanda, surge como sistema religioso a Macumba, que ganhou este nome por causa do tambor que tocavam nos rituais, de mesma denominação. A Umbanda, assim, é uma mistura da Macumba e do Candomblé de Caboclo.

Porém, a Umbanda surge em um contexto branco, onde a classe média carioca não queria se associar aos negros, frequentando os morros cariocas, os mesmos lugares que os negros. A partir disso, no século XX, vários elementos que antes remetiam à cultura africana, foram retirados dos rituais, como os tambores, as guias que os umbandistas usam para identificar seu posto ou cargo, os cigarros, as bebidas alcoólicas, os charutos e o sacrifício de animais.

Depois de 1950, eclodiu um movimento no Rio de Janeiro com a intenção de restituir as origens da Umbanda e da Macumba, com os negros. O racismo ainda era comum no Brasil, não sendo considerado crime, consequentemente houve embate entre aqueles que não queriam a volta das origens negras à Umbanda e aqueles que eram a favor.

Em 1990, começam a surgir várias novas “faces” da Umbanda. As pessoas criaram segmentos diferentes da religião para que a ela se adequasse a cada um. A Umbanda Sagrada, Umbanda Exotérica, Umbanda de Almas e Angola, Umbanda Omolokô, Umbandomblé, Umbanda Carismática e Umbanda Astrológica são alguns exemplos das influências que a religião teve ao longo dos anos.


Isabela Guaraldi, estudante de jornalismo na FAAP.
Mayara Bosco, estudante de jornalismo na FAAP.