Recado na geladeira

Certa vez vi um morador de rua em São Paulo gritar repetidamente “Quem tem medo de morrer? Quem tem medo de morrer?” e do nada ele parou, pensou, respirou e concluiu que a morte era um pássaro. Foi uma pena que naquela época a minha arrogância de viver (bem típica de quem se considera implacável) não deu espaço para que eu pudesse compreender a dimensão dessa analogia tão simples e genial.
Eu vou além e digo que a morte é um terremoto. Um sorrateiro terremoto de 8,2 graus na escala Richter. Ele vem sacudindo as entranhas da terra e avassala bases, derruba prédios altíssimos, põe no chão qualquer alicerce construído com extrema tecnologia, inteligência e perspicácia.
O que resta são pedras, quadros tortos nas paredes que se mantiveram firmes e lembranças de um sorriso. Assim como o terremoto, a morte é um elemento surpresa. É uma certeza ignorada e apavorante. É devassidão que assola, destrói e desfaz. Em contrapartida, a vida reconstrói, recomeça e da chance para que a flor cresça entre os escombros.
O fim é uma criação, um enredo de filme americano-romântico-apocalíptico onde a morte é coadjuvante da vida. Papel secundário, porém, não menos importante. É através da dor que você percebe que é apenas uma criatura do Criador, tão cheia de alegrias e amarguras como qualquer outra.
“No donut for you”.
Não importa se você é bonito, rico, inteligente, bondoso, especial, sabe fazer uma macarronada italiana supimpa ou se não chega nem perto dessas qualidades.
Uma hora o seu chão vai sacudir e a sua casa vai cair. E quando isso acontecer eu espero que você se recorde do meu texto, do terremoto seguido de tsunami que abateu sobre o seu território, do recado que ficou anotado na sua geladeira dizendo “A vida é breve. Ame muito”…porque de fato, meu amigo, contra a morte não temos armas, mas o amor ainda é a cura para todas as doenças ou incertezas.