Em análise sobre as obras Admirável Mundo Novo e 1984, a autora reflete sobre o futuro da humanidade.

por Isadora Sinay

No nosso imaginário social Admirável Mundo Novo e 1984 são livros que retornam sempre como opostos complementares ou reflexos em um espelho. Escritos com 17 anos de diferença por homens que possuíam uma ligação peculiar (Huxley foi professor de George Orwell em Eton), os dois romances partem de uma mesma tese central: o futuro da humanidade representa a perda de sua liberdade. Contudo, os livros entendem essa liberdade e sua perda de formas opostas: tornou-se lugar-comum dizer que Orwell prevê nossa prisão feita daquilo que odiamos, enquanto Huxley vislumbra uma derrocada trazida pelo prazer. É certo que…


Um dos grandes clichês ao redor do cinema é de que ele possui algo de mágico. "A Magia do Cinema" é uma frase que vai do seu vizinho meio arrogante que tem um blog sobre cinema a Roger Ebert a propagandas de viagem para Disney. No entanto, essa magia pode querer dizer duas coisas.

Primeiro: a capacidade ilusória do cinema. Nada do que vemos em tela é de verdade. Cidades cenográficas, dublês, jogos de luzes. A noite americana é um símbolo ambíguo da capacidade de transformação e enganação do cinema. …


Eu pisei em um campo de concentração pela primeira vez há pouco mais de um mês. Sachsenhausen, nos arredores de Berlim, não é um campo de extermínio. Mantidas as devidas, e absurdas, proporções do Holocausto, pouca gente morreu ali. A maioria dos prisioneiros eram presos políticos ou homossexuais. O lugar é hoje um dos memoriais mais importantes do sofrimento gay.

Sachsenhausen foi liberado há mais de sessenta anos. Mesmo que pessoas tivessem sido executadas com gás ali, o que não foram, não faria sentido esperar que qualquer resquício de Zyklon B estivesse na grama, ou no ar ou na água…


A dix huit ans j’ai quitté ma province
Bien décidé à empoigner la vie
Le coeur léger et le bagage mince
J’étais certain de conquérir Paris

Em algum momento desse início de agosto, faz dez anos que eu cheguei em São Paulo. Quando você é tão jovem quanto eu, dez anos é sua vida inteira, mesmo que não o seja. Em dez anos, você tem pelo menos três vidas. Em dez anos, você se torna a pessoa que é.

Em São Paulo eu me tornei a pessoa que sou, que é e não é aquela que antes disso eu queria…


Da última vez que eu me preparei para passar tanto tempo fora de casa, eu não tinha nada para deixar para trás. Claro, eu tinha uma casa, dois gatos, meus amigos, minhas roupas, meu armário cheio de chás, mas tudo isso eram apenas objetos flutuando num enorme vazio.

O tipo de vazio absoluto, corrosivo.

Porém a partida foi doce, leve. Quanto mais eu me afastava de casa, mais tudo se preenchia. Mais eu sentia o ar como um sopro de vida para dentro de mim, mais eram coloridas e amadas as paisagens que passavam pela minha janela de trem.

A…


Acredito que não há nada mais difícil no cinema do que equilibrar profundidade e entretenimento. Fazer um filme denso, contundente e que, ainda assim, proporcione duas horas agradáveis e divertidas ao seu espectador.

Eu não sou contra se falar em cinema autoral X cinema industrial, eu acho a divisão útil em diversos momentos, mas, cada vez mais, meu desejo em relação ao cinema é que ele aprenda a equilibrar os dois. …


Qual a relevância de se tentar, incessantemente, falar de algo sobre o qual não conseguimos falar?

Quando Filho de Saul passou na Mostra de São Paulo um crítico comentou algo como "quem diria que o Holocausto ainda poderia ser relevante". Eu encarei aquilo por uns minutos, em choque. Nem tanto porque eu fiz do Holocausto meu tema de estudos, mas porque quando um assassinato tão massivo deixa de ser relevante? Devemos deixar de falar dele só porque uma quantidade razoável de filmes já foram feitos?

No entanto, por mais irritada que eu tenha ficado, consigo concordar que uma boa parte…


Me perguntam muito por que eu viajo. Ou, ao menos, por que eu viajo para onde viajo. Me lembro bem da van que me levou de Belgrado a Sarajevo e do sérvio-canadense ao meu lado, um senhor de meia idade, que me perguntou inconformado por que eu estava ali, por que eu simplesmente não ia pro Caribe ficar bebendo em uma praia tranquila? Eu apenas dei de ombros e respondi: pela aventura, eu acho.

Mas não é exatamente pela aventura, embora seja um pouco pela adrenalina. Pelo estranhamento. Pelo primeiro dia. Pelos momentos em que um taxista absurdo me manda…


What did you learn from your time in the solitary

Cell of your mind?

There was noises, distractions from anything good

Em 2014 eu estive em todos os lugares. Na Bósnia e no túmulo do Bergman em uma ilhota da Suécia. Eu quis me matar e estive no topo do mundo saltando em águas cristalinas de penhascos da Croácia. Eu defendi um mestrado e nunca estive tão em crise com a Academia. Eu estive no inferno e, em determinado momento, fechei as portas dele atrás de mim.

Se tem algo que 2014 me ensinou é que as portas do inferno…


Uma grande parte das boas histórias funcionam porque falam a coisas verdadeiras para a maior parte das pessoas. Histórias que permanecem ao longo de séculos, contos de fadas, tragédias gregas, falam de forma ampliada e metafórica sobre experiências e sensações universais.

Histórias em quadrinhos funcionam da mesma forma e talvez seja por isso que permaneçam tanto tempo, como uma força tão presente na cultura pop e na nossa forma de contar histórias. Super-heróis são pessoas comuns ampliadas. O Homem-Aranha é qualquer adolescente estranho tendo que passar pela descoberta das responsabilidades, só que multiplicado por mil e capaz de soltar teias…

Isadora Sinay

I’m just as fucked up as they say

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