O Desprezo de Zack Snyder pelo Entretenimento

Acredito que não há nada mais difícil no cinema do que equilibrar profundidade e entretenimento. Fazer um filme denso, contundente e que, ainda assim, proporcione duas horas agradáveis e divertidas ao seu espectador.

Eu não sou contra se falar em cinema autoral X cinema industrial, eu acho a divisão útil em diversos momentos, mas, cada vez mais, meu desejo em relação ao cinema é que ele aprenda a equilibrar os dois. Vem daí meu amor pelos primeiros anos da Nouvelle Vague, pelo cinema independente americano dos 70 e 80, pelo Daren Aronofsky (quando ele acerta) e meu mais recente ódio bastante profundo pelo Zack Snyder.

Porque isso é o que, em uma teoria muito distante da realidade, Batman vs Superman almeja ser. Mas ele falha e falha espetacularmente porque o Zack Snyder parece ter um desprezo profundo pelo entretenimento.

Eu não vou elencar aqui os problemas do filme. Eles são óbvios suficientes e você pode ler sobre eles em mais ou menos um milhão de textos nessa internet. Meu preferido vem a ser esse aqui, principalmente pela quantidade de vezes que o autor diz que não tinha a menor ideia do que estava acontecendo no filme e muito menos de por que aquelas escolhas foram feitas. Porque a experiência de assistir Batman vs Superman é exatamente essa: ver uma série de escolhas absolutamente burras sendo feitas e você não tem a menor ideia de por que alguém escolheria fazer aquilo.

Mas depois de passar um dia inteiro com muita raiva e ler diversos textos, eu comecei a entender. E entender só piorou tudo.

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O cinema é uma arte feita em conjunto. Não apenas porque a equipe técnica em si envolve diversas pessoas, mas porque, sendo um meio muito custoso, ele necessariamente depende da relação de diversas pessoas com a obra. Produtores, distribuidora, público. Patrocínios e outros tipos de incentivo permitem que filmes pouco palatáveis ao público sejam feitos, mas, ainda assim, o diretor vive em uma relação com a crítica, os festivais, o seu público especifico. Não é preciso filmar para eles, agradar sempre, mas é preciso ouvir e dialogar.

Se você está falando do grande cinema hollywoodiano, dos filmes de orçamentos altíssimos com o objetivo de fazer bilheterias ainda mais altas, essa necessidade é ainda mais forte. Milhões de pessoas precisam ver seu filme, é para isso que ele está sendo feito. E, para isso, pessoas precisam gostar desse filme.

Dito tudo isso, eu me pergunto sinceramente porque um diretor como Zack Snyder foi para Hollywood. Eu vi uma quantidade suficiente de filmes dele até aqui para poder dizer que ele ama o poder que esse orçamento lhe dá, mas odeia profundamente o diálogo que ele deveria ser obrigado a estabelecer com o público.

Batman vs Superman não é a primeira vez que uma adaptação dele é criticada pelos fãs do material fonte. Não é sequer a primeira vez que um filme dele é infinitamente pior do que você poderia esperar (olaaaa, Suker Punch). E ainda assim, de alguma forma, esse homem foi contratado para dirigir um filme sobre os dois super-herois mais famosos do mundo.

Mas, e isso fica claro bem cedo em Batman vs Superman, ele não quer fazer um filme de super-heroi como eles vêm sendo feitos. Ele não quer, de jeito nenhum, fazer um filme da Marvel. Ele não quer dar aos fãs a satisfação de ver seus personagens preferidos fazendo coisas legais, ou identificar aquelas pequenas coisas da mitologia que dão coerência a um universo. Não. O que ele quer é refletir sobre homens x deuses, liberdades individuais ou qualquer outra coisa que eu sinceramente não entendi, não importa o custo disso para a narrativa.

Ele quer, talvez, ser Christopher Nolan, mas há uma diferença crucial aí. O Batman do Nolan, embora sim, reflita sobre uma série de questões complicadas, respeita o que os fãs queriam ver, a história e o espírito dos personagens. Mais que isso, apesar de um último filme provavelmente longo demais, ele é divertido. São três filmes muito legais de se ver, enquanto Batman vs Superman é apenas uma longuíssima e chata exibição das habilidades do Snyder com a câmera lenta.

E isso é importante porque, se tem uma certeza que se manteve em todos os meus anos de críticas de cinema, é que um filme funciona quando ele cumpre o que se propõe. E um filme de super-heroi tem que ser em sua essência legal. Da mesma forma que um filme de terror deve te dar medo, ou uma comédia romântica precisa te fazer torcer pelo casal principal. Ele pode, de formas inteligentes, subverter essa expectativa, te entregar um pouco mais, ou um pouco menos, mas não ignorá-la tão categoricamente.

Batman vs Superman não é apenas um filme pedante e confuso e totalmente sem sentido. Ele é tudo isso. Mas mais grave: ele é um filme chato. E ele é um filme sobre um universo com uma história longa e importante que é completamente ignorada porque o diretor não acha que precisa honrar esse material fonte, ou as pessoas que gostam dele.

É porque têm a atitude oposta que os filmes da Marvel ou O Despertar da Força funcionam tão bem: são filmes feitos por alguém tão envolvido com aquela história quanto as pessoas que vão vê-los. São filmes nascidos de um prazer em contar aquela história. Por mais obscuros que sejam os Batmans do Nolan, isso está ali também. A leve obsessão e o respeito que estão no coração de ser um fã. Mas não em Batman vs Superman, nenhum pouco.

Na grande disputa das HQs, eu prefiro a DC. Eu queria ter tido a vontade de ver esse filme na pré-estreia com uma coroa da Mulher Maravilha. Mas eu não tive. Era um filme incluindo dois dos meus personagens preferidos do mundo (não Superman, não é você) e eu esperei mais de uma semana para ver. Porque eu sabia, desde o trailer, que aquilo não era o universo que eu adorava. E, saindo do filme, a minha única sensação é que aquilo tudo estava errado. Que eu não conhecia aqueles personagens, nunca tinha lido sobre eles, não importa quantas revistas do Batman ainda estejam empoeirando na casa da minha mãe.

Eu não desprezo o cinema comercial. Ao contrário, eu acredito e respeito o poder das histórias de massa. Das mitologias. Desses personagens que perduram tantos anos, amados por tanta gente. Eles falam de algo profundo sobre a humanidade. E é essa percepção que o Snyder não tem: que há algo profundo justamente no apelo de massa.

De certa forma, ele me lembra o clichê do cineasta arrogante que, ao ouvir uma crítica, afirma que "você não o entendeu". Mas Hollywood não é sobre isso. E super-herois definitivamente não deveriam ser.

Batman vs Superman não me irrita por ser cinema ruim (o que é). Me irrita, em um nível pessoal, por me roubar da experiência muito legal que os fãs da Marvel têm. Da antecipação e satisfação que um filme desses poderia me dar. E, como crítica de cinema, pelo profundo desrespeito das formas populares, pela arrogância e pelo desprezo de uma das nossas formas mais poderosas de contar histórias.