Sobre a importância do teste

Acordei cedo, lavei o rosto, respirei fundo, coloquei uma roupa qualquer, selecionei garrafinha, sombrinha caso chovesse, uma paçoquinha, com o objetivo de tapar o rombo do estômago e o celular. Peguei o metrô. Uns 50 minutos só para chegar no destino? Haja nervosismo! Ufa, olha lá, cheguei. Caminhei o mais rápido que pude até chegar ao CTA — Centro de Testagem e Aconselhamento.

Cheguei relativamente cedo ao local do exame. Quero dizer, teste. Abri as duas portas e me sentei na sala de espera. Os cartazes estavam por toda a parte. Não é todo dia que a gente resolve conhecer a sorologia… Meu aniversário foi ontem. A moça da recepção percebeu e pediu pra me dar um abraço. Que humana! Que linda! Me disse tantas coisas que quase chorei de emoção...

Depois de fornecidos os dados necessários, sentei de vez na saleta de espera, agora convicta de que faria o teste rápido. HIV, Sífilis e Hepatite. Todas as três de uma vez. Amém. Quero nem pensar se isso aí vier positivo. Não virá, calma mulher, não vai dar chilique no meio da saleta, viu!? Pensei comigo mesma.

Começo a observar as pessoas em volta. Todo mundo com aquela cara de cão que caiu da mudança, todo mundo apreensivo. Dá até vontade de puxar um papo, perguntar se chove, se é a primeira vez que está ali. Vontade de conhecer a fundo o outro ser humano que está tão ou mais tenso que eu.

Até que… Número 16! Opa, sou eu! Aham moça, mete bronca, quero fazer os três logo. Dedo do meio furado, sangue coletado, agora é só aguardar. Volto para a saleta, mais gente chegou. Gente mesmo, de tudo quanto é tipo. Do pedreiro ao geógrafo, da profissional do sexo ao estudante, do casal apaixonado à garota com olheiras por preocupação. E eu. Ali sentada encarando a televisão.

Os meus companheiros de saleta começaram a ser chamados, e logo seria a minha vez. Se saírem rápido, talvez tenha dado tudo negativo, se não, provavelmente ficaram para refazer o teste. Ô coisa louca! Quando que acaba? Tanta gente no mundo e talvez nem metade saiba sua sorologia… Penso mesmo que a pessoa que decide se testar já é vitoriosa, só por passar por cima do medo e saber de uma vez por todas.

O HIV surgiu de um contexto estigmatizado. Já foi chamado de câncer gay. Quanto preconceito se instalou nos primeiros anos de descoberta, quantas pessoas foram abandonadas e marcadas pela AIDS? Hoje, poucos a manifestam. Basicamente ela afeta o sistema imunológico e oferece entrada para doenças oportunistas. É aí que mora o perigo. Atualmente existe tratamento para HIV, existe esperança pro soropositivo, de vida normal, amigos, namorados, trabalho, casamento, cachorro, papagaio e pantufa no pé aos domingos. Só que ainda não existe o tratamento para o preconceito. Um horror…

Tantas coisas passam pela minha mente que eu até fiquei zonza. Foi aí que a enfermeira apareceu e chamou: Número 16? Opa, sou eu! Em cinco minutos, saí com meu resultado em mãos, um baita negativo em tudo. O alívio bateu à porta e me senti feliz por um instante, até lembrar que o cara que estava ao meu lado, poderia receber um positivo e as coisas talvez não fossem mais as mesmas por um tempo.

Mudei algumas coisas após esse dia. Principalmente o olhar assustado de alguém negativo para alguém positivo. Posso ser eu, pode ser você, sua mãe, sua avó, sua melhor amiga, seu marido, seu primo e seu dentista. Podemos ser positivos, o resultado não garante uma vida inteira. No caminho pra casa, pensei: Vou conversar com meus amigos, minha família, aconselhar a fazerem o teste e ficarem sabendo se são, se não são, e se forem, a gente vê o que faz e se ajuda. Mas o que não dá pra fazer é evitar o teste, evitar apenas porque “eu não me encaixo no grupo de risco’’. Que grupo? Tem grupo mais não, desde muito tempo!

HIV não tem cara, não tem sexo, não tem cor. Parece até mito, até você perceber que aquele seu primo de quarto grau, o amigo do seu amigo e a namorada daquele sujeito ali têm o vírus correndo pelas veias. Mas hoje eles estão bem, fazem o tratamento, possuem planos, expectativas e sonhos iguais aos meus. Talvez até mais consistentes. Mas se hoje eles estão assim, primeiro precisaram fazer o teste, diagnosticar o HIV e então, continuarem a vida, positiva, mas nem por isso menos interessante, intensa ou feliz.

Assim que chegar em casa vou falar com a Bá, o Ma, a Paty e o Lu. Vida que segue, bem protegida. Até peguei umas camisinhas femininas prasamigas!

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