não são somente anéis

Foto: @maisuma.jpg (Gabriela Miranda)

Toda manhã escuto música no carro enquanto dirijo até o trabalho. Normalmente eu costumo cantarolar e dar umas batidinhas com meus anéis num espacinho de plástico que tem no meu volante. Isso costuma ser superempolgante, porque bato no mesmo ritmo da música e o barulhinho é ótimo!

Hoje eu fiz isso e não ouvi o barulho. Foi quando notei que estava sem os anéis. Tinha deixado eles em cima da pia, em casa, quando tirei-os para passar creme no cabelo. E assim, o ritual se repetiu ao longo de todo o dia. Coçava o nariz, lembrava que estava sem os anéis. Mexia nos dedos, lembrava novamente. Pegava no corrimão da escada e nenhum barulho saía. Lavava as mãos, sentia a falta deles.

Foi após esses vícios se frustrarem durante o dia de hoje, que notei como os hábitos que costumamos ter estão tão entranhados em cada um de nós. Parei pra pensar na falta que me faz os três míseros anéis de prata, que uso há pouco mais ou menos de um ano. Também lembrei que certo dia acordei no meio da noite sem sentir os anéis nos dedos e fiquei arrasada achando que tinha perdido eles. Ao amanhecer, notei que estavam soltos perto do travesseiro.

Pensei no famoso ditado que diz “vão-se os anéis e ficam os dedos”. Mas e se os anéis não forem somente os bens materiais, como estamos acostumados a pensar? E se esses anéis forem hábitos e talvez pessoas da nossa vida?A gente tá acostumado com muita coisa. Com a rotina, com nossos objetos e principalmente com as pessoas ao nosso redor.

Demorou pra entender que tem gente nessa vida que são como os meus anéis: eu amo, eu quero perto, valorizo e sinto falta. Mas, e se a vida resolveu me tirar um anel ou outro? E se nunca mais eu encontrar esses anéis, ou se eles mudaram de algum jeito que não cabem mais nos meus dedos? E se eu perdi eles de vez?

Então, resta ter paciência comigo mesma para compreender e aceitar que tudo vai e os anéis também vão. Nem todos se perdem pelo caminho, mas alguns sim vão caindo pelo cantos. Os hábitos? Eles vão continuar por muito, muito tempo. A falta vai incomodar por muito tempo. Mas com o mesmo Tempo, que é senhor de toda a cura, tudo que incomoda vai sarar. Talvez novos anéis surjam. Anéis ideais! Anéis resistentes.

Você pode até entender que talvez tenha aprendido a amar eles, mas eles não são tão companheiros assim ou não harmonizavam com você há todo momento como achara antes. Entender igualmente que você se acostumou com a vida sem eles, mas se isso ainda não aconteceu, é preciso se respeitar, ter paciência e confiar que um novo hábito vai surgir e o costume sem eles vai chegar. Você aprende que foi bom tê-los, mas que deixá-los soltos por aí te libertou e ensinou a olhar novas jóias.

Alguns anéis são anéis. Outros, alianças.

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