Êxito num mundo global

Entrevista a Carlos Correia de Lacerda, Managing Director da SAP Portugal

A dada altura do seu percurso académico, qualquer jovem sente o nervosismo e a incerteza na aproximação da entrada no mercado de trabalho.

Essa tão temida, mas inevitável, mudança leva a que os estudantes procurem conforto no sucesso de outros, que já por tudo isto passaram.

Nos tempos que correm, essa incerteza torna-se cada vez maior, a taxa de desemprego em Portugal continua a ser elevada, mesmo para quem obtém o grau de ensino superior, cerca de 10,8%[1], sendo ainda de registar uma mudança radical na estrutura do mercado de trabalho.

Hoje, mais do que nunca, o conceito de segurança e estabilidade no trabalho, bem como progressão numa empresa só, foram eliminados. Assistimos a um momento onde a tenacidade e capacidade de mudança são qualidades obrigatórias para atingir o sucesso.

Tivemos o privilégio e honra de debater estes assuntos com Carlos Lacerda, Managing Director da SAP, em Portugal.

Carlos Correia de Lacerda

Licenciado em Engenharia Mecânica, pelo Instituto Superior Técnico, com pós-graduação em gestão pelo ISCTE, Carlos Lacerda passou ainda pelo programa de alta direção empresarial na AESE, acabando o seu percurso, em marketing, na Kellog School of Management, Northwestern University, em Chicago.

Trabalhou na Andersen Consulting, atual Accenture, sendo que grande parte da sua carreira foi feita na Microsoft, em diversos países como Portugal, Itália, França (nos headquarters europeus em Paris), tendo mais tarde partido para a Ásia, nomeadamente para Kuala Lumpur, na Microsoft Asia Pacific. Foi também o CEO da Farmeinveste, a holding empresarial da ANF[2], sendo atualmente o Managing Director da SAP Portugal.

[1] Últimos dados do INE para o 2.º trimestre 2016: Taxa de desemprego (Série 2011 — %) por Sexo, Grupo etário e Nível de escolaridade mais elevado completo; Trimestral — INE, Inquérito ao Emprego
[2] ANF- Associação Nacional das Farmácias

1.Quais foram para si as principais mudanças que ocorreram no mercado de trabalho desde a altura em que se formou?

“Hoje em dia, algo que se passa num ponto do mundo imediatamente se reflete em praticamente todos os pontos do mundo e torna-se imediatamente notícia.”

R: “A principal mudança foi a globalização do mercado de trabalho. Eu acho que quando me formei a economia não era tão global, não estávamos ainda na união europeia, as comunicações não eram tão fáceis (por exemplo: não havia Skype, nem a utilização intensiva dos telemóveis). Hoje em dia, algo que se passa num ponto do mundo imediatamente se reflete em praticamente todos os pontos do mundo e torna-se imediatamente noticia. Mas foi principalmente a globalização da economia.

2. Que dificuldades sentiu neste processo e como as tentou superar?

“O principal desafio ao longo de toda a minha carreira foi adaptar o estilo de gestão às equipas que eu tenho, desafio este que é permanente e frequente”

R: “A primeira dificuldade que senti foi quando, passados 2 anos da minha formação no técnico, sendo selecionado para um programa internacional da Olivetti (denominação na altura), fui estudar para Londres. Senti essa dificuldade porque tive de lidar com muitas outras pessoas cuja linguagem nativa era o inglês e a minha não.

A segunda dificuldade adveio da crescente globalidade dos negócios, pois tive de gerir remotamente uma equipa com mais de 200 pessoas espalhadas por diversos países e, como é compreensível, é muito difícil gerir pessoas que não estão fisicamente ao pé de nós.

A terceira dificuldade no meu percurso profissional foi quando fui para a Ásia. Culturalmente era muito diferente, para começar, na Malásia, mais concretamente em Kuala Lumpur, onde fui Managing Director da Microsoft, encontrei um país onde não existia homogeneidade em termos culturais, ou na forma de estar na vida profissional.

Kuala Lumpur

Concretamente, comparando Portugal (para termos uma referência que conheçamos) e a Malásia; a Malásia é composta por 3 etnias principais, cada uma com as suas religiões diferentes, e as suas formas de serem motivados (também elas diferentes). No caso dos malaios (locais), que são maioritariamente Muçulmanos, verifiquei que estes não são muito materialistas e que são muito espirituais. São um povo que crê em grandes valores e missões e como tal, a sua motivação tem que estar relacionada com essa capacidade de acreditar na missão a desempenhar.

Depois, temos a população chinesa, também ela muito importante na Malásia. Este povo é maioritariamente budista, mas, no entanto, reagem muito mais a estímulos materiais. Também gostam de ter uma missão clara e têm uma perspetiva mais pragmática e de incentivo.

Por fim, uma comunidade indiana maioritariamente Hindu, que tem uma forma de estar na vida onde verbalizam muito melhor as suas ideias, têm um pensamento estratégico. No entanto, não são tão orientados à ação como os restantes povos.

Em suma, numa empresa eu posso ter expatriados como eu próprio, de culturas ocidentais, e de todas as outras etnias, o que faz com que as equipas tenham religiões e culturas distintas. Como é que uma pessoa, dirigindo-se de uma forma única, consegue motivar estas pessoas todas?

O principal desafio ao longo de toda a minha carreira foi adaptar o estilo de gestão às equipas que eu tenho, desafio este que é permanente e frequente.”

4. Como é que a sua formação profissional o preparou para o mercado de trabalho?

R: “O facto de ter estudado na Universidade de Lisboa, em particular na licenciatura do Instituto Superior Técnico, deu-me a capacidade analítica de desenvolver soluções para diversos problemas. Mas, posteriormente a esta 1º licenciatura, senti deficiências nomeadamente ao nível da gestão. Decidi complementar isso com a pós-graduação de gestão no ISCTE e com o Programa de Alta Direção Empresarial na AESE que foi feito maioritariamente em Lisboa, mas também um pouco em Madrid. Gostei muito da multiplicidade de experiências que os meus colegas traziam de outras industrias, do facto de ter estudado casos de empresas nacionais e internacionais e, por ultimo, do facto de ter trabalhado numa multinacional, o que me deu uma maior perceção da globalização empresarial. Acho que os jovens que se licenciam em Portugal precisam de adotar uma perspetiva mais global do mundo de negócios.”

5. Quais são as lições que gostaria de transmitir aos jovens recém-licenciados?

“Acho que os jovens que se licenciam em Portugal precisam de adotar uma perspetiva mais global do mundo de negócios.”

R: “A 1.ª lição é relativa ao facto que estes devem investir muito na sua formação académica e fazê-lo o mais cedo possível na sua carreira. Eu durante a minha carreira tive duvidas sobre se deveria tirar um MBA e qual seria a altura mais indicada. Na minha opinião, acho que quanto mais cedo os jovens portugueses conseguirem equipar-se com o máximo de ferramentas possível, maior será o seu sucesso na entrada para o mercado de trabalho.

A 2.ª lição é que estes devem dominar fortemente a língua inglesa, idealmente de forma nativa. Se um jovem que está a sair hoje da universidade tiver alguma dificuldade em inglês então aconselho que passe períodos fora de Portugal, que tente complementar os seus estudos ou mesmo que trabalhe em países cuja língua oficial é o inglês de modo a poder ganhar alguma agilidade em termos do domínio da língua.

A 3.ª lição que queria partilhar é relativa à maneira como me orientei na minha carreira. Acho que o que me ajudou na vida foi ser metódico nas minhas abordagens e também procurar manter, independentemente de ser bem ou mal sucedido, a humildade no sentido de ouvir, de ter a perceção que há muito a aprender e de incorporar as opiniões de outras pessoas. É muito importante respeitar os indivíduos e respeitar os valores da nossa sociedade.

Outra coisa que gostaria de transmitir também é que considero ser muito importante, no inicio da carreira, trabalhar no estrangeiro pois permite-nos entender outras realidades e, como tal, outras dinâmicas de mercado.

Finalmente, gostaria de deixar aos jovens o conselho de encarar o insucesso como um processo de aprendizagem, pois acho que este é uma valida experiência que nos faz entender muito rapidamente os caminhos a não seguir”.

6. De que forma é que a atual conjuntura económica do nosso país modelou o mercado de trabalho?

R: “Na minha opinião, a conjuntura económica atual levou a que surgisse uma grande atomização da economia. Como tal, estão a aparecer muitas empresas de pequena dimensão, tais como start-ups, o que torna evidente a necessidade de Lisboa e o Porto se afirmarem como hubs deste tipo de negócios. Estas alterações irão, a meu ver, influenciar a forma como os jovens licenciados encaram o mercado de trabalho, pois existe uma consciência clara que, para enriquecer o país é necessário que haja cada vez mais uma globalidade de experiências. Na minha opinião isto irá implicar a criação de excelentes oportunidades de emprego para futuras gerações.”

7. Quais as principais qualidades que um jovem deve ter para ser bem-sucedido na sua entrada no mercado de trabalho?

R: “Em geral, acho que é muito importante ser-se trabalhador, humilde, sério e, como referi anteriormente, ter uma perspectiva global. A mobilidade, ou seja, a capacidade de, sem qualquer problema, trabalhar noutros locais do mundo é algo que também acho ser preponderante para o sucesso no mercado de trabalho. Creio que essas experiências nos enriquecem e nos preparam para as situações que iremos encontrar na nossa carreira. Novamente, queria também destacar a importância de investir com afinco na nossa formação pessoal após terminar a licenciatura.”

8. De que forma é que as juniores empresas contribuem para a formação dos jovens?

R: “Eu acho que é muito importante, porque permite expor os jovens às dinâmicas do mercado de trabalho, antes mesmo de lá chegarem. Na minha opinião, isso faz uma grande diferença, pois de facto permite criar um currículo, o que será muito útil para perceber as diversas situações que irão encontrar na vida empresarial.”

9. Se pudesse deixar uma pequena mensagem aos jovens que irão ler esta entrevista qual seria?

“Sejam vocês próprios, mantenham sempre o vosso rumo e acreditem nos vossos sonhos.”

R: “Leiam com atenção a entrevista, mas principalmente nunca a tomem como um dogma. As entrevistas têm por base a experiência que uma pessoa teve e eu tento dar os conselhos da melhor forma possível, de forma a ajudar outras pessoas a serem bem-sucedidas, partilhando as minhas experiências, mas é evidente que cada uma das pessoas irá trilhar o seu próprio caminho, que não tem de ser igual ao meu, nem tem de ter as mesmas convicções que eu tive porque terão experiências diferentes. O conselho que poderia dar era: sejam vocês próprios, mantenham sempre o vosso rumo e acreditem nos vossos sonhos. Por último, espero que tenham gostado de ler esta entrevista.”

Texto de Ivo Gomes, Diogo Silva e Tiago Jordão


Fundada em 2007, a ISEG Junior Business Consulting é a Júnior Empresa do ISEG — Lisbon School of Economics & Management inserida no sector de Consultoria nas áreas de Economia e Gestão.

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