A queda

Esse texto vai tratar sobre suicídio, depressão, coisas ruins da mente, coisas ruins da sociedade, gatilhos pra todo lado, então se você não está se sentindo bem, não leia.
E sim, esse texto está sendo feito após reflexões que 13 Reasons Why me trouxe, então se você não aguenta mais isso: vaza. Contém spoilers.
Foto: Annie Spratt

E m uma segunda-feira do ano de 2008, eu tinha prova de História. Era prova mensal. Essa prova aí era uma piada, minha professora de História mal dava aula, de vez em quando ela ditava um texto de um caderno mais velho que Maomé em que ela própria tinha escrito uns textos ou então pedia para alguém copiar na lousa. Ela tinha uns 60 e poucos anos, sabe como é, tava cansada da vida, eu acho. A questão é que tipo assim, eu tava na escola para aprender o que o MEC manda eu aprender e eu aprendia… Vários xingamentos novos e só. Isso era recorrente na minha escola. Isso me revoltava, às vezes. Daí chegava no dia da prova e ela deixava todo mundo colar, porque né, já não dava aula mesmo. Eu nunca soube porque ela não dava prova com consulta logo.

Enfim, em alguma prova mensal de História do ano de 2008, meu amigo Fábio* faltou na prova e chegou a informação, contada por um menino que tava no segundo colegial e era vizinho dele que Fábio tinha caído da janela, mas passava bem. Eu fiquei preocupada, mas disseram que ele só tinha torcido o pé, porque foi uma queda do primeiro andar, então eu fiz minha prova e segui minha vida.

Eu não lembro bem se foi nesse mesmo dia ou no dia seguinte, mas em algum momento a verdade chegou: o Fábio não caiu da janela, ele se jogou.

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Quero ressaltar aqui que o fato de ser pouco provável que você morra saltando de uma janela do primeiro andar não muda o fato de que você pode se machucar seriamente e ninguém com uma mente saudável faria isso sem motivo. Faço esse adendo porque já ouvi piadas e questionamentos demais sobre essa história.

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E u estudava numa escola particular minúscula e quase todos os meus amigos moravam na rua paralela à minha e o Fábio era um deles. Depois do acontecido, eu e mais uns três amigos fomos visitá-lo. Chegamos lá e a mãe dele nos atendeu na porta do bloco do apartamento dele, porque o Fábio não queria ver ninguém. Ela disse que ele tinha deixado um bilhete e ela tinha perdido no desespero de salvá-lo, então não sabia o porquê dele ter feito isso. E ela queria respostas.

Todos nós queríamos.

Ela perguntou pra gente se tinha algo ruim rolando na escola e a gente sabia que tinha, mas mentiu. Ela perguntou se ele tinha contado que a madrinha dele tinha morrido recentemente. A gente não sabia. E então ela disse:

“A coordenadora me contou que possivelmente o Fábio é gay e que por isso ele pode ter tentado, o que vocês sabem sobre isso?”

Eu conhecia o Fábio desde nossos sete anos de idade e conforme crescemos ele e outros amigos LGBT começaram a difícil caminhada ao encontro com sua própria sexualidade. Foi doloroso e mesmo os amigos mais próximos dificultaram esse processo.

Eu não sei quanto tempo demorou para gente responder para a mãe dele, pareceram horas, mas foram segundos. Nos entreolhamos, engolimos, suspiramos e dissemos: a gente não sabe se ele é gay.

A mãe dele não acreditou na gente. A gente não acreditou que ela tinha acreditado. Mas fomos embora.

Naquela época eu ainda não sabia lidar direito com doenças psíquicas. Ainda não tinham tantas pessoas ao meu redor com tais doenças. Eu ainda não tinha depressão. Mas eu sabia que o pai do meu padrinho se jogou da janela do apartamento dele. E sempre me contavam isso com a moral de: se a pessoa decide se matar, se ela não encontra ajuda que quer, ela dá um jeito de morrer. Eu carreguei essa informação desde muito nova.

E talvez por isso, mesmo nunca mais falando com Fábio sobre ele se jogar da janela, eu fiquei de sobreaviso. E eu fiquei assim especialmente porque eu sabia que nada estava sendo feito para mudar essa situação.

A minha escola foi completamente omissa. Não houve apoio psicológico. Não teve cartaz. Não teve palestra. Não teve professor dizendo que a gente não devia zoar alguém porque essa pessoa era gay ou gorda ou preta ou tinha cabelo crespo ou centenas de outros motivos que as pessoas acham para fazer bullying.

Teve o Fábio putíssimo alguns meses depois, tretando com a coordenadora no meio da sala de aula porque ela tinha contado algo íntimo dele para a mãe sem autorização dele. E teve ela sem saber o que fazer com aquela revolta.

Teve também muita piada por ele ter se jogado do primeiro andar. Muita mesmo. Muita gente falando que “nem se matar ele sabe”. Teve professora falando “cês pensem bem antes de tentar uma besteira dessa, porque além de não morrer vocês podem ficar com sequelas”. E contou a grande história da aluna dela que tomou veneno e não morreu, só perdeu parte do intestino e teve que usar aquelas bolsinha pro resto da vida.

Meus pais nunca conversaram comigo sobre o que aconteceu com meu amigo. Nenhum pai conversou com ninguém. E o Fábio nunca mais falou sobre isso. Mas eu percebia que ele ainda não tava bem. E fiquei esperando ele cair de novo.

E ele caiu.

As pessoas não costumam gostar de falar sobre morte

E u só assisti até o quinto episódio da série 13 Reasons Why, porque achei o ritmo muito lento e em alguns momentos, meio tedioso. Mas li o livro, então sei os 13 motivos que Hannah Baker afirma que a levaram a se matar.

Eu não quero me alongar no debate principal sobre a série: ela é um desserviço X ela é a melhor série do mundo sobre suicídio. Eu fico no meio termo, se você quer saber, mas quero discutir outros pontos além desse. A série é sobre muita coisa — e isso é uma das críticas a ela — e quero explorá-las. Mas como qualquer série sobre sofrimento psíquico, definitivamente não recomendo para quem tem qualquer doença psíquica e está num momento ruim ou para quem sofre bullying e especialmente para mulheres vítimas de violência — Hannah sofre diversos tipos de violência ao longo da história.

Mas acho uma série válida, especialmente para quem busca entender mais sobre o assunto.

~talvez eu enrole tanto para escrever um texto quanto Clay para ouvir as fitas~

Meu ponto nesse texto é como a série ilustra as consequências do suicídio no outro. Eu gostei disso. Um aluno tentar suicídio é uma bomba que pode explodir a qualquer momento em qualquer escola. Mexe com todo mundo de alguma forma. Eu acredito que até mesmo as pessoas que fazem chacota, em algum momento, param para pensar nessa possibilidade tão temida: a de decidir tirar a própria vida.

A cena da mãe de Hannah horrorizada com os dizeres escritos nas paredes do banheiro e posteriormente a do diretor e o orientador da escola horrorizados com a mesma coisa, ilustra bem como os professores e pais NÃO TEM A MÍNIMA IDEIA do que tá rolando com os adolescentes.

Não tinham quando eu tinha 15 anos e devem ter menos ainda agora com essa caralhada de rede social e celular na mão dessas crianças.

E eu nem sei como que resolve isso, mas esse é um problema enorme. E por isso ontem enquanto eu debatia a série com uma amiga da faculdade, lembrei de tudo que rolou com o Fábio. Mais precisamente do que a escola fez com o que fizeram com o Fábio.

Como disse ali em cima: nada. Não fizeram nada. Nem sobre o Fábio. Nem sobre a menina gorda que forçavam sair rolando pela rampa da escola (sério!). Nem sobre a menina que sofria bullying porque tinha convulsões (humanidade é foda). Nem sobre todos os meninos que eram gays ou pareciam (??) gays. Nem sobre os nerds. Nem sobre o estagiário de 22 anos que namorava uma aluna de 15 (!!!). Nem sobre porra nenhuma.

~ nessa altura eu me pergunto pra que meu pai pagava mensalidade por essa escola e eu também não tenho resposta para isso ~

Acontece que muito do que aconteceu com Hannah e com Fábio dentro da escola fez com que eles se fechassem e cogitassem a morte como única solução possível. A escola é culpada sim. Todos somos culpados.

Porque se é preciso de uma aldeia para criar uma criança, é preciso de uma aldeia para matá-la.

E digo isso com tranquilidade. A culpa não é exclusiva de ninguém, mas também não é culpa só da depressão. É uma mistura. E quando Hannah grava as fitas, ela personifica essa sociedade. Isso pode ser bem errado da parte dela, mas quem disse que pessoas suicidas pensam direito?

Nós, os amigos e colegas, também não soubemos lidar com a ideação suicida de um amigo. E podemos ser perdoados porque éramos adolescentes inconsequentes, mas não acho que só essa desculpa cola. Adolescentes são maus uns com os outros e temos sim responsabilidade sobre isso. Adolescentes mentem para os pais de amigos, para os amigos, para si mesmos. É apenas um ensaio da vida adulta. E mais uma vez acho que a série retrata bem isso.

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Quando a gente tinha 16 anos, Fábio tentou de novo. Logo depois de uma nota baixa em Química. Muita gente debochou pensando que era só uma nota baixa. As pessoas têm dificuldade de entender a ideação suicida e grande parte tem medo de debater o assunto. Então cria-se o tabu e tabus não são discutidos né.

Hoje já não lembro direito como foi que cheguei até a casa dele dessa segunda vez. Eu sei que éramos quatro adolescentes entre 16 e 18 anos que correram para socorrer um amigo que tinha tomado um coquetel de remédios. Eu lembro que a avó dele o encontrou e levou para o hospital. Lembro da angústia e do desespero. Lembro de encontrar um vizinho dele que perguntou num tom jocoso se ele tinha caído ou se jogado daquela outra vez. Lembro da impotência que senti ao saber que aquela história talvez tivesse mais um capítulo.

Não teve.

Desconfio de todo mundo que sente falta do Ensino Médio. Eu vi essa frase por aí e peguei pra vida. Meu Ensino Médio foi horrível. O da maioria das pessoas que conheço também foi. Não é só um período difícil por causa dos hormônios. Para mim foi porque vi muita injustiça acontecendo no lugar que supostamente não deveria ocorrer nada disso.

Pelo menos na minha escola, a gente tinha plena noção de que era a gente por a gente mesmo, a escola não ia resolver nada. Todas as vezes que tentou — e foram poucas, conto nos dedos — só piorou tudo.

Eu acho que precisamos urgentemente discutir esse modelo de escola e essa falha na comunicação entre gerações. Adolescente é difícil sim, mas não é impossível. Algo precisa ser feito.

Eu cresci vendo meus amigos em uma luta sem sentido por ser popular — eu definitivamente nunca entendi isso -, amigos sendo humilhados pelos mais diversos motivos e por sorte, encontrava apoio em casa. Claro, eu também cometi muitas injustiças ali dentro e não acho que exista alguém que nunca tenha errado nesse sentido.

13 Reasons Why me fez abrir os olhos para o quanto os adultos foram omissos durante minha adolescência — e era uma escola que tinha uma sala por série, imagina numa escola maior.

Se você trata com adolescentes, assista a série. Leia o livro. Tente criar jeitos de acolher seus alunos. A sociedade precisa começar a se responsabilizar pelo suicídio. Ninguém chega no fundo do poço sozinho.

Hoje eu e Fábio conversamos sobre 13 Reasons Why e ele disse que se reconheceu muito na Hannah, lembrou desse tempo confuso do colégio. De como ele sentia que ninguém jamais entenderia o que ele estava sentindo e como nunca acharia apoio. De como ele sentia que não havia nenhuma saída saudável, além de acabar com tudo. Ele também não sabe como e quando as coisas começaram a melhorar, mas isso aconteceu. Ele passou a conseguir enxergar coisas boas em pessoas a volta dele, motivos que o levaram a continuar. Ele disse que há muito não pensa nessas coisas. Disse também que todo mundo deveria assistir à série, porque ela é importante.

PS 1: Em tempo, Fábio não é o nome verdadeiro dele, mas substitui para preservá-lo. Fábio foi consultado sobre esse texto e após algumas horas de vácuo porque ele tá aproveitando as férias da faculdade jogando LOL, me disse que tá tudo bem.
PS 2: Já deu o debate sobre se tinha que ter aviso, se a série foi irresponsável, se a série isso, se a série é aquilo: no fim, se a pessoa quiser consumir uma arte, ela vai dar um jeito. No fundo, todo mundo acha que aguenta. A diferença é que precisamos ensinar aos adolescentes que tá tudo bem pedir ajuda, tudo bem desistir de fazer algo porque não está se sentindo bem. E especialmente precisamos começar a praticar isso também.
PS 3: A série é um produto que precisa ser vendido. Polêmica vende. Netflix conseguiu vender e no fim, para eles, isso que importa. Nenhuma grande corporação desse mundo faz algo só pra ser boazinha, migos.
PS 4: Se você se sente como Hannah ou como Fábio, procura ajuda psicológica, faculdades de psicologia costumam ter programas gratuitos e há muitos profissionais que cobram preços simbólicos para pessoas sem condições financeiras. Existe também o Centro de Valorização da Vida: www.cvv.org.br ou ligue 141.