Mas você não quer um carro?

Outro dia minha mãe me disse: “não vejo a hora de sua irmã se formar para eu pegar o dinheiro que gasto na faculdade dela e te comprar um carro”.

Eu fiquei verdadeiramente chocada sobre isso. Tanta coisa para gastar essa grana e ela quer um carro. Pra mim. Eu nem tenho carta de motorista. Não sei o porquê.

Antes eu não tinha dinheiro.

Depois eu não tinha tempo.

Aí veio a primeira greve enquanto eu fazia faculdade.

Depois a segunda.

E meu pai me mandou tirar a carta todas essas vezes.

(ele me manda tirar a carta desde que pagou as dívidas e poderia parcelar e pagar a carta pra mim)

Mas eu não aproveitei nenhuma dessas chances. Você pode achar que estou sendo meio burra (tá tudo bem, eu sei que estou sendo). Pode achar que estou sendo mimada em precisar que o pai pague a carta de motorista (tudo bem, eu sei que é um privilégio). Ou pode me chamar de louca comoassimnãoquertirarcarta (tudo bem também, a psiquiatra já me deu esse atestado).

O problema é: eu sou contra carros. Muito. Demais. Bastante.

Porque pra mim, num mundo perfeito, a gente teria um transporte público decente e não ia precisar desse monstro de quatro rodas, entende?

Só que enquanto não tem o transporte público decente, as pessoas optam pelo carro, porque elas precisam viver. E enquanto as pessoas optam pelo carro porque elas precisam viver, ninguém investe no transporte público e aí ele nunca fica decente.

Aí eu, jovem e idealista que sou, fico evitando o momento de aprender a dirigir, porque sei lá, soa como resistência, entende?

Claro, não vou negar, ter um carro para fazer as compras do mês é muito massa mesmo.

Mas de resto, o ônibus resolveria.

Eu moro em Bauru,

~~ a cidade lanche~~

no centro-oeste do estado de São Paulo

~~~a locomotiva do Brazel ~~~

~~~~ aquele estado que quer se separar do resto do país ~~~~

e aqui cara, pra tu andar de ônibus, cara, cê tem que ser muito guerreiro.

Aqui tem dia que o busão não passa. Porque ele simplesmente não quis passar.

Aqui o busão quebra e você tem que esperar o próximo, a companhia não manda um reserva pra te salvar.

Aqui o busão roda até as 23h. Depois, deus te guarde.

Aqui tem linha que não roda de domingo.

AQUI BUSÃO TEM HORÁRIO DE FÉRIAS!!!!!!!!!!!!1

Ah sim, já ia me esquecendo do fenômeno chamado “Avenida Getúlio Vargas”, Getúlio para os íntimos ou como eu gosto de chamá-la: a Get (leia “jet”).

A Get é tipo a Fifth Avenue de Bauru. Lá você encontra os melhores bares, as melhores lojas, os melhores restaurantes, o melhor asfalto (e em Bauru, meu querido, asfalto bom é mais raro que metrô da Sé vazio em dia de semana), as melhores belezas, enfim, a créme de la créme, os escolhidos, os bem-nascidos, os tops da balada, a nata bauruense.

Lá na Get, tem vários prédios de escritórios, consultórios, tem a Polícia Federal, imobiliárias, lojas, lanchonetes, restaurantes, academias… Mas sabe o que não tem na Get? Um ponto de ônibus.

Sim, senhoras e senhores e não-binários, existe uma avenida inteira nessa cidadela chamada Bauru que não passa nenhuma linha de ônibus. Para você chegar lá, você para duas quadras pra cima no ponto de busão mais perto e anda. Ou vai a pé direto, como era meu costume em tempos que minhas pernas tinham mais saúde. Ou simplesmente não vai até lá (minha opção favorita).

Eu trabalhei na Getúlio. E mano, dois ônibus mais dez minutos de caminhada. Simplesmente porque os rycos não querem que a gentalha chegue lá facilmente.

Ah sim, além disso, tem o Aeroclube de Bauru que funciona como uma verdadeira muralha separando a zona sul do resto da cidade. Juro pra ti! Não é invenção, procura aí no Google.

Eu queria conseguir descrever o que eu sinto toda vez que eu lembro que uma das principais avenidas da cidade em que eu moro não passa UMA LINHA DE ÔNIBUS SEQUER, mas eu não consigo. As palavras me faltam.

O transporte público bauruense é um inferno. E custa módicos 3,75 reais no dinheiro ou 3,50 reais no cartão transporte. Um dia eu peguei um busão que a barra vertical para segurar ao lado do espaço do cadeirante estava quebrada ao meio. E eu andei 1h10 dentro deste ônibus. Com aquele treco balançando e a porta que não fechava. Nesse dia, amigos, eu voltei a ser católica.

Antes tinha um busão na linha que eu mais pego, que faz o trajeto do centro até a minha casa, que não tinha dois assentos no fundo. Tem tanto lugar para gente sentar que eu acho que decidiram tirar as poltronas, né. Deviam estar atrapalhando.

Enfim, eu poderia ficar dias aqui escrevendo para comprovar o quão caótico é o sistema de transporte de Bauru, mas os pouparei disso. E não é porque tenho pena de vocês, é porque eu tenho quase certeza, que seja onde você estiver nesse Brasilzão de meu deus, você se identificou com a minha indignação (inclusive, pode comentar aí embaixo as suas agruras, amo histórias de ônibus).

Porque no Brasil, quem não tem carro, tem mais é que se fuder.

E eu quero mudar isso, então não quero ter um carro. Achei o motivo.