Fabiane Regina

Psicopedagoga e coordenadora pedagógica do Projeto Formiguinha em Bauru, interior de São Paulo

“Eu faço parte de uma família de cinco pessoas: pai, mãe e três filhas. Nasci num bairro chamado Água Funda, em São Paulo. Tive uma boa estrutura familiar, embora a gente tenha passado necessidades econômicas. Teve uma parte da vida que foi muito boa, antes da minha irmã caçula nascer, quando meu pai ainda trabalhava no Hospital das Clínicas como protético [profissional que produz próteses]. Quando ele saiu do hospital, começaram as dificuldades financeiras. A gente teve bastante dificuldade com a família da minha mãe também; sofríamos racismo, porque a minha mãe era a única filha casada com um negro. O resto da família também é descendente de negros — minha avó materna era negra — mas eles se casaram com brancos e tinham essa questão de racismo. Tudo para nós era pior: a gente usava roupa de brechó, comida era a que sobrava. Falavam ‘ih, esses daí não vão ser nada, elas vão ser maloqueira mesmo’.

Com oito anos, ainda na Água Funda, eu já fazia atividades em um projeto social chamado ‘Sedinha’ e lá era uma bagunça, as crianças mais velhas que cuidavam das menores. Depois fui para um projeto que tinha esporte em que minha mãe levava eu e minhas irmãs — eu fazia natação. Então mudamos para o Heliópolis e, como eu já era adolescente, entrei no projeto UNAS* [União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região] como jovem educadora. Foi lá que eu comecei a aprender o que era o ECA [Estatuto da Criança e do Adolescente]. Minha tia me levava para seminários, congressos, meu mundo foi ampliando. Mas eu era adolescente, né? Queria bagunça [risos]. Mas tudo aquilo ficou guardado aqui dentro.

Comecei a cursar pedagogia, essa primeira faculdade foi com muita luta. Nessa época entregava panfletos no farol para conseguir ajudar em casa. Depois trabalhei como caixa de uma loja de laticínios, que era da minha tia na época, mas lá eu sofria muita humilhação por ser negra e favelada. Aí eu voltei para o Heliópolis como educadora de uma creche; fui substituir uma menina que estava em licença maternidade e percebi que era aquilo que eu queria fazer de verdade. Então, quando abriram uma nova creche, a UNAS me contratou como professora. Aí eu comecei a crescer lá dentro, virei coordenadora pedagógica, depois gestora e fui crescendo profissionalmente.

Quando eu fui prestar o vestibular não tinha dinheiro, então eu fui a pé para a faculdade. Acabei passando. Não tinha dinheiro para matrícula, não tinha dinheiro pra nada, mas meti as caras e fui negociar na reitoria. Aí eu ganhei uma bolsa que conseguia me manter: tinha dinheiro pra condução e pro xerox, só não tinha regalias como roupa. Por ser uma faculdade paga e por eu vir de comunidade, eu não sabia me comportar direito, falava na malandragem [risos]. Sofri muita represália até eu entender o que era aquele universo. Pensei bastante em desistir porque aquele mundo não era o meu, mas tive muito incentivo dos meus pais, do pessoal lá da comunidade, do pessoal da creche onde eu trabalhava, então eu consegui me formar. Então surgiu na favela uma parceira com uma faculdade que se chamava São Marcos, que dava bolsas de estudo de 100%, 70% e 50%, e eu fui uma das contempladas. Foi quando eu fui cursar psicologia, mas aí eu já tinha maturidade, tinha outra cabeça.

Esse caminho só foi possível porque eu tive pai e mãe muito presentes. Eles foram o modelo da nossa vida. A gente não via meus pais fazendo coisa errada, não os via bebendo; minha mãe sempre cobrava que a gente estudasse: não tinha caderno, não tinha mochila, às vezes nem um tênis pra ir pra escola, mas ela sempre estava junto. Nos acompanhava, incentivava, fazia a gente estudar. Ela falava vocês já são negras, já sofrem preconceito, se não tiverem estudo não vão ser nada vida. E essas palavras impulsionaram a gente a se desenvolver. Atualmente, eu e minhas irmãs somos formadas e minha mãe se formou recentemente. Com um modelo dentro de casa a gente vai modificando a família inteira, hoje grande parte da minha está cursando faculdade. Se não fosse esse apoio dos meus pais, eu seria dona de boca ou casaria com um bandido, provavelmente não seria coisa boa. A gente tem dois leões dentro da gente — a gente que decide quem alimenta. Graças a Deus eu alimentei o leão bom, porque do mesmo modo que tenho esse empenho para o social eu podia ter para o crime.

Profissionalmente eu cresci, porque eu tive a oportunidade de trabalhar em muitas áreas sociais, como abrigamento, liberdade assistida, atividade de formação para adolescentes, entre outras. Aprendi também o que é um projeto social, como se escreve um projeto, como a gente busca retorno nisso. A minha maior faculdade foi o Heliópolis, foi lá que aprendi a valorizar as pessoas, entender o que é diversidade, entender que cada um tem uma luta, entender que a pobreza não é só falta de alimentação, muito pelo contrário: a pobreza maior é a falta do conhecimento. Você pode passar fome hoje, mas se você tem algum conhecimento, vai poder usar e deixar de passar.

Além disso, o Heliópolis me ensinou o que é política pública, me ensinou os meus direitos e me impulsionou a ser a profissional que eu sou hoje. Me sinto na obrigação de passar isso pra frente. E outras partes das periferias, outras pessoas de comunidade só precisam dessa oportunidade. E oportunizar no sentido de mostrar o caminho. Do que adianta ter a oportunidade e a gente não dar o caminho? Não dar as ferramentas para a pessoa conquistar?

Eu me casei em Heliópolis e morava lá com o Júnior, meu esposo, quando ele teve uma proposta de trabalho para vir para Bauru. Ele é encanador hidráulico de uma empresa de construção civil e também lutou muito para chegar onde está. A mudança para Bauru foi uma forma de garantir o crescimento dele dentro da empresa. Eu já estava bem estabilizada em São Paulo, mas então sentamos para conversar e eu não achei justo tirar essa oportunidade dele.

Antes de chegar em Bauru eu comecei a enviar currículos para ver como era a cidade e a área social. Alguns lugares me ligaram. O Fernando, que era o presidente do projeto Formiguinha na época, entrou em contato comigo por email e disse que precisava de uma pessoa com a minha visão. Aí em janeiro eu vim conversar com ele. Antes disso, eu passei num processo seletivo no Objetivo, mas fui conhecer o Formiguinha. Quando eu cheguei, pensei que era tudo, menos um projeto social [risos]. Era uma mistura de bazar com crianças, uma bagunça. Mas quando eu cheguei e vi o chão de terra… remeteu à minha história. Aí eu cheguei em casa, conversei com o meu esposo e ele disse: mas não tem jeito né Fabiane, a gente larga a favela, mas a favela não larga você [risos]. É difícil largar as raízes, né? Principalmente quando você tem uma ideologia forte.

Mas depois dessa primeira entrevista eu voltei pra São Paulo, mas já comecei a trabalhar nas coisas do Formiguinha. Aí, quando eu vim de vez pra Bauru, no começo de 2014, fui conversar com o Fernando e aceitei entrar nessa luta com ele. A primeira pessoa que veio me ajudar foi a Nara, que está até hoje aqui com a gente; depois começamos a recrutar o povo da comunidade. Em março, chegaram os voluntários da Unesp e ganhamos fôlego, começamos a fazer um trabalho de planejamento para estruturar realmente um projeto social. A gente pensa que social é só tirar as crianças da rua, mas é mais do que isso: é mostrar caminhos diferentes para elas.

O projeto passou por diversas mudanças, até a saída do presidente, que foi necessária naquele momento. Além das mudanças que o projeto causou na comunidade, com os pais, com as crianças, referente a posto de saúde, as escolas, hoje a gente consegue reunir todo mundo. Foi isso que eu aprendi em Heliópolis: a comunidade só se transforma quando todos pensam de uma mesma forma, buscando a mudança. Projeto social não é assistencialismo, não é caridade. A criança e o adolescente têm que entender que é uma forma de desenvolvimento. Dentro da nossa comunidade tem o quê? Nada. Então o projeto é o espaço que ele tem que dar valor. Primeiro porque é dele, depois que é um lugar que está mostrando outros caminhos para ele. Aí, no final, ele escolhe o rumo que quer tomar. ‘Ai tia, mas eu quero ir pro tráfico’. Então você vai para o tráfico, mas você nunca vai poder dizer que não teve outra oportunidade. Na periferia tem oportunidades, mas temos que ensinar as pessoas a usufruírem. Não adianta você só dar o arroz.

Atualmente, uma das maiores dificuldades dentro do Formiguinha são os investimentos na ONG. Agora temos um projeto com adolescentes e para ter um valor significativo, ter qualidade, precisamos de funcionários qualificados e precisamos reconhecer os profissionais, porque eles também têm contas para pagar. E a demanda tem crescido, principalmente de adolescentes buscando inclusão no mercado de trabalho. Não queremos só que o adolescente venha, faça o curso e saia trabalhando, nossa intenção é que ele vá para uma faculdade, que ele mude a forma de pensar. Muitos deles realmente precisam trabalhar, mas será que eles precisam trabalhar só empacotando coisas em supermercado? Será que esse jovem só pode ser ajudante de pedreiro? Na verdade, para a população em vulnerabilidade é só isso que resta. Não é que essas profissões são pequenas, mas a gente também merece mais. Por que só isso?

A gente está tentando mudar isso. Hoje temos uma parceria boa em alimentação, então agora essa parte do projeto está bem estruturada, mas precisamos de uma equipe mesmo, de funcionários capacitados, comprometidos. Nossa maior dificuldade é achar um educador e conseguir pagá-lo.

Por isso estamos investindo na formação de educadores, porque aqui em Bauru não existe isso. Você vê muita formação em educador infantil, mas educador social não existe. Projeto social é preparar para o futuro, nós somos um complemento da escola e a escola é um complemento do projeto. Então, nós não damos aula, nem reforço escolar — chama-se projeto social porque nós vamos prepará-los para viver dentro da sociedade. ‘Eu posso ser, eu posso fazer, eu posso criar, eu posso transformar’, esse é o nosso lema enquanto projeto social. Uma coordenadora de outra ONG chegou pra mim e disse que os adolescentes de lá não queriam participar. Eu contei que no começo eles também não queriam participar do Formiguinha, então fomos avaliar os motivos. E aí começamos a colocar eles para bolar as atividades. Então se eles chegam e dizem que não querem participar, a gente rebate: mas foi você quem criou a atividade, como não quer fazer? Então traz outra proposta.

A diferença entre Bauru e São Paulo é muito grande. Na verdade, aqui é mais fácil, os recursos são mais fáceis de conseguir. Em São Paulo é muito difícil porque lá tem milhares de ONGs. O problema em Bauru são os profissionais. Serviço social e assistente social em Bauru dá para contar nos dedos. Eu não sei se é o grau de formação das faculdades, sabe? Pode ser uma coisa pessoal minha. Por exemplo, uma assistente social vem trabalhar dentro de uma instituição com um monte de brinco, pulseira, um salto desse tamanho… Hello? Assistente social de Miami, né? [risos]. Não é que ela não possa ir, mas você vai no local que a pessoa não tem casa, a criança não tem roupa, nem um chinelo e você vai assim? Quando você entra com aquela imagem autoritária, você nem precisa abrir a boca. Seu jeito diz tudo. Agora olha como seria legal a pessoa chegar e dentro disso ela ir fazendo a transformação. É como eu falei: eu sei falar na malandragem até hoje porque foi como eu cresci, mas sei falar de outros jeitos também. A coisa mais preciosa da ONG é o educador, nós somos o modelo. Você tem que mostrar pro educando que você é igual a ele e conseguiu chegar longe. Então se você pode, ele também pode.

As crianças daqui também são totalmente diferentes — até os malandros, até a criminalidade daqui é diferente de São Paulo. A gente sai aqui no campinho em frente, os meninos estão usando droga, a gente fala que vai brincar com as crianças e eles se retiram, são educados. É muito diferente. As crianças por mais que queiram xingar, quando você fala firme, olhando no olho, existe um respeito. Em São Paulo não. Em São Paulo para você conquistar uma criança requer trabalho muito duro, não é do dia para noite. Então eu entrei em janeiro, em abril eu já estava dominando tudo isso aqui [risos]. Lá, pra gente chegar no ponto que estamos hoje seria um trabalho de muitos anos e aqui nós conseguimos em dois.

Quando eu entrei no Formiguinha, eu tinha várias metas e hoje meu objetivo maior é demonstrar que é possível mudar. Levar a oportunidade que eu tive para outros. Eu vejo que aquele menino que morreu com 15 anos no crime poderia ser eu. Só não foi porque alguém — alguém não, várias pessoas — chegou pra mim e disse ‘para com isso Fabiane’. Eu era igual a eles. Eu era teimosa, eu era violenta, tudo eu resolvia na porrada, eu era revoltadíssima. Mas teve jeito. E se teve jeito, todo mundo tem jeito.

Eu sempre digo para as crianças: esse projeto aqui é de vocês, não é meu. Eu me disponibilizei para trabalhar porque é uma luta minha. Meu maior sonho é que eles assumam o projeto no futuro, já pensou uma das nossas crianças assumindo a coordenação no meu lugar? Eu vou ficar velha em algum momento. Temos que dar continuidade, não precisa ter idade. Nosso presidente atual tem 23 anos, o que precisa ter é garra. Posso te dizer uns três nomes de adolescentes que têm muito potencial. Eu já trabalho isso com eles: mostro como fazer algumas coisas, documentos, levo para palestras… quando eles tiverem 16 anos eles já estão sentados aqui no meu lugar.

Heliópolis é uma cidade dentro de outra. E lá existem vários núcleos de atividade dentro da comunidade que ampliaram os projetos, as creches, as atividades sociais e melhorou muito — e ainda nem pegou a favela inteira. Eu quero isso pro Formiguinha também. Antes a gente trabalhava com papelão, hoje temos dinheiro para comprar a cartolina. Eu gosto do jeito que acontecem as doações no formiguinha: a pessoa traz a doação em material e quando ela traz em valor, a gente manda tudo o que a gente fez com aquele valor. As pessoas tem que entender que doar não é só uma forma de caridade — uma forma da gente limpar a nossa mente porque foi boazinha — você tem que supervisionar aquilo, o que normalmente não acontece.

Você nunca vai entrar dentro de uma comunidade e ser destratado, a favela é muito humana. Tem as coisas ruins, claro. A parte econômica eu aprendi a lutar para reverter por meio das políticas públicas. O maior problema é que falta esse conhecimento de lutar, então como Paulo Freire diz ‘quando falta conhecimento, o alienado quer virar alienador’.

Crescer numa favela foi essencial para eu ser quem eu sou hoje. Dentro da comunidade tem as pessoas mais humanizadas que existem. Lá aprendi a ter respeito pelo outro, a saber que existe a diferença, é o que a gente aprende muito vivendo na comunidade. Eu não troco essa vivência por nada. Meu estudo me permitiu conhecer os dois mundos. Eu conheço a pobreza e o lado do bem-estar, da riqueza. Eu tenho esses dois universos dentro de mim”.

*A UNAS surgiu na década de 1980 da luta dos moradores da região pelo direito à moradia. Atualmente, a UNAS tem projetos, programas e serviços de educação, saúde, moradia, cultura, esporte, assistência social, mulheres e LGBT, impactando mais de 9 mil pessoas diretamente por mês, por meio de 50 projetos sociais.


Originally published at medium.com on September 23, 2016.

Like what you read? Give Isis Rangel a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.