Oh, look what you made me do

A antiga Isis está morta!

Há uns dias Taylor Swift lançou sua nova música que tem o mesmo nome deste texto. Ela é uma resposta aos inimigos dela na indústria do entretenimento e, obviamente, a mídia. Mas se você acha que eu vim aqui comentar as treta do mundo pop estás enganado.

Eu ouvi a música logo que lançou e admito que gostei e a ouvi repetidas vezes por alguns dias. Mas na quarta ou quinta vez eu reparei que o refrão que ouvia saindo da boca de Taylor era o mesmo que eu ouvi saindo da boca de c e r t a s pessoas.

Ooh, look what you made me do! (Ooh, olha o que você me fez fazer!)

E eu aposto 1 real (porque PIB de 0,2% não garante emprego, viu) que toda mulher em um relacionamento abusivo ouviu essa frase e suas variações saindo da boca de seus agressores.

Eu estive lá. Eu era a moça. Não é fanfic de esquerda.

I don’t like your perfect crime how you laugh when you lie

Demorou algum tempo, mas eventualmente a culpa dos ataques de raiva dele se tornaram minha culpa. Era sutil, mas de repente eu não podia nem ser mais desastrada e derrubar um prato ou simplesmente dizer que ia começar a tomar remédios para tratar minha depressão.

Sim, as coisas chegaram num ponto e eu me questiono até hoje como que eu deixei isso acontecer. Você não precisa perguntar para uma pessoa num relacionamento abusivo o motivo dela ter ficado ali.

Ela já se pergunta isso a porra do tempo todo, cara.

E eu já me senti muito burra e deus sabe como eu odeio me sentir assim. Já senti muita pena de mim mesma. Já achei que nunca ia sair essa coisa ruim que ele botou dentro de mim. Já me senti derrotada. Já chorei no banho mil vezes. Já me senti otária para caralho. Esses teste do BuzzFeed que cês fazem para provar que é trouxa, amigo qualquer pessoa num relacionamento abusivo zera essa sensação aí de vocês tudo.

Porque no fundo, a gente não procura perdoar o agressor, a busca é por perdoar a si mesma.

Eu aprendi fazendo terapia que todo ser humano tem uma parte masoquista e o tamanho dela varia de serumaninho para serumaninho e eu desde sempre desconfiei que tinha uma parte minha que “gostava” de sofrer. Eu sempre me preparei para o pior, mas não esse pior, então quando ele veio eu não soube enxergar nem reagir.

Essa minha parte que se sente culpada por tudo é muito grande e a batalha é constante. Para você ter uma ideia: semana passada rolou ato contra o aumento da tarifa do busão e eu não pude ir e por um momento eu pensei que se a tarifa aumentasse a culpa era minha.

Farei uma pausa para você dar gostosas gargalhadas da minha cabeça fodida, tá tudo bem porque eu também rio dela.

But I got smarter I got harder In the nick of time

A questão é: conscientemente ou não, se aproveitaram disso. Porque no fim, vivemos num sistema em que permite que o homem use e abuse de uma mulher e depois jogue fora assim que achar necessário. Tá tudo bem eles fazerem isso, eles são ensinados isso desde que entram na escola e perguntam “e as namoradinhas” (sempre no plural) para crianças que nem segurar no lápis sabem.

Então fica uma dúvida eterna se ele sabia ou não que era abusivo ele gritar comigo, reclamar quando eu chorava, tentar me proibir de ver um amigo (falhou miseravelmente nessa) e tantas outras coisas. Eu já não me questiono mais sobre isso, porque né, já deu. E no fim, se eu me sentia abusada é porque eu estava sendo abusada.

Chegar a essa conclusão é libertador. Porque você passa meses achando que está vendo pelo em ovo e aí alguém pega na sua mão e diz: você não é louca não, fia, talvez ele seja, mas tu não é.

Obrigada Xulinha.

Honey I rose up from the dead I do it all the time

Depois de uma noite sem luz em que eu tomei chuva no lombo e fui cerimonialmente chutada metaforicamente, eu tive que me reerguer. Mas não como antes, porque antes eu tentei esconder que estava destruída por dentro. Dessa vez, ah meu caro leitor, eu chorei mesmo. Chorei no ônibus. Chorei no banheiro. Chorei no shopping. Chorei na praia. Chorei. Chorei. Chorei. Até que teve um dia que eu parei de chorar. E foi lindo.

É uma dura caminhada entender porque você viveu um relacionamento abusivo. Gostaria de dizer que minha caminhada já terminou, mas restam muitos traumas. De vez em quando eu tiro eles de dentro de mim e olho bem na cara deles. Alguns são mais profundos do que outros. Todos são importantes.

Às vezes eu queria saber se os homens tem noção do quanto eles podem foder com a vida de uma mulher. Porque não é só os gritos, o choro, as ameaças. É o lanche que você comia com ele e agora só de lembrar dá enjoo. É o corredor do shopping que ele te escrotizou porque você ia na psiquiatra. É a série que você queria assistir, mas não consegue porque lembra demais os momentos ruins. É tudo. Quando você sai de um relacionamento abusivo, você tem que notificar a si mesma que

The old Taylor can’t come to the phone right now. Why? ‘Cause she’s dead.

Morrer e continuar viva. Qualquer mulher que foi abusada nessa vida vai entender do que eu estou falando. E não é só isso, você tem que entender o que você tem que matar dentro de si e o que ele matou dentro de você.

Logo que tudo acabou um amigo disse que eu precisava mudar algo que eu fiz por ele senão eu ia repetir isso no futuro. Esses dias me peguei pensando nisso de novo. Porque na hora eu pensei que era transar sem camisinha. Hoje eu sei que é amar alguém mais do que a mim mesma.

Durante um dos ataques dele, depois que ele se recompôs, eu olhei bem para aquela cena (porque às vezes eu finjo que sou espectadora da minha vida para avaliar melhor o que tá rolando) e tomei a decisão de que era capaz de suportar tudo aquilo, porque o amor vencia tudo e eu ia curar aquele cara sofrido.

Não fui capaz. Porque eu não sou psicóloga para tratar ninguém. Porque ninguém cura ninguém se a pessoa não quer ser curada. Porque não existia amor ali. Existia raiva, culpa, misoginia, problemas psicológicos de ambas as partes, apego, dependência. Qualquer coisa, menos amor.

Nós mulheres somos bombardeadas com histórias de amor romântico desde que nascemos. Temos as princesas como modelo e depois as heroínas das novelas e dos filmes de comédia romântica. O amor sempre vence nos filmes. A custo de que a gente quase nunca fica sabendo.

Eu cresci num lar muito carinhoso e via meus pais se apoiarem dia após dia durante 13 anos de desemprego e sempre quis aquilo para a vida. Um companheiro.

Mas o amor ajuda a lidar com a falta de comida, o atraso no IPTU, a morte do seus pais, o desemprego, o estresse na faculdade.

Quando ele grita com você sem motivo algum, quando ele te menospreza, quando ele faz chantagem emocional, quando ele ameaça a própria vida para fazer você ter medo de deixá-lo… Isso não é amor, nunca foi, amiga.

Junte forças, cante músicas pop, saia dessa.

I don’t trust nobody and nobody trusts me

Eu já identifiquei alguns momentos em que eu percebi que tinha algo errado, mas não quis aceitar. Um deles foi enquanto eu escrevia um texto de aniversário para meu pai, porque tudo o que eu amava no meu pai não estava acontecendo no meu relacionamento e se eu queria um cara que me tratasse como meu pai tratava a minha mãe e às filhas, o q q tava aconteceno?

Esse momento sempre me faz pensar nas referências que estamos dando para as nossas meninas, porque se eu que tenho um pai maravilhoso real oficial caí nessa, imagina as garotas que crescem com pais que são abusivos com as mães delas?

Se você ainda está se perguntando como alguém não percebe os erros de um relacionamento lixo desses, eu continuo: a gente percebe sim alguns sinais, mas a gente não quer admitir que a pessoa que você ama não só não te ama, ela te maltrata das piores maneiras possíveis. É muito duro admitir isso. Admitir que foi sim bom por um tempo e você não é trouxa que já começou a sofrer no segundo encontro, você foi arrendada nas mãos — mais do que de um homem — de um sistema criado para te matar, simbólica ou fisicamente. É a coisa mais difícil que eu já fiz na minha vida:

Entrei para a estatística, vivi um relacionamento abusivo.

Não é fácil recuperar a confiança em si mesma de que você não vai mais se deixar levar. Não é fácil recuperar a confiança nos homens ao seu redor. Eu não sei se um dia será possível, particularmente eu acho que não e talvez infelizmente seja necessário, não são só os escoteiros que precisam estar sempre alertas, as minas também. Mas isso não me impede de ter um relacionamento super saudável hoje nem de me amar um pouquinho mais a cada dia.

Porque amiga, você conseguiu sair. Você não está mais lá. O passado está no passado e um dia você aprende a lidar com tudo isso que aí está, confia.

Um dia eu consigo assistir BoJack Horseman de novo.

E se você desconfia que tem algo errado no seu relacionamento, procure ajuda. Desabafe com alguém de confiança. Busque um psicólogo.
Se você conhece alguém nessa situação, ofereça apoio — e esse apoio pode ser desde “vamos na delegacia” até “vamos tomar sorvete”.

Violência doméstica é crime. Denuncie no 181.

Gostaria de agradecer a minha família sempre maravilhosa e aos tantos amigos que me ouviram, leram, telefonaram, me esperaram dormir, fizeram comida e entre tantos outros modos que arranjaram para mostrar que eu não estava sozinha. A cura só vem quando a gente mesmo quer, mas com ajuda fica bem mais leve. Amo vocês.
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