Subluxação da ponta do dedo

Faz umas semanas, talvez até um mês que comecei a escrever um texto aqui sobre mais um dia em que eu percebi que era adulta: o dia em que eu olhei a geladeira e disse em voz alta para o meu namorado

“Preciso fazer feira”

Aquilo me chocou porque quem diz essa frase em voz alta é minha mãe. Ou meu pai. Ou minha tia. Nunca eu. Eu, que passei quatro anos de faculdade me alimentando de pão, peito de peru e mortadela. Mas aí, sorrateiramente, após alguns muitos meses com problemas para cozinhar carnes graças a minha depressão/transtorno de ansiedade, eu decidi comer mais vegetais porque eles são mais fáceis de preparar.

preparar = taca na água e deixa a natureza agir

ou

meu favorito: descasca e come

Desde que tive esse momento de lucidez sobre como é fácil comer vegetais, eu passei a fazer feira. Bom, não uma feira real, compro tudo no mercado já que não tem feira aqui perto da minha casa. Mas ainda assim, agora sou uma pessoa que enche a gaveta da geladeira de verduras, não mais de cervejas como outrora. Um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade.

O ponto é que na última quinta-feira eu quebrei meu quinto dedo do pé esquerdo. De novo. Na verdade, foi uma sub luxação. Em julho passado foi uma fratura do quinto dedo e uma luxação do quarto dedo. Em outras palavras, em menos de 1 ano e meio, eu quebrei o mindinho do pé esquerdo duas vezes.

Eu, a garota que nunca tinha quebrado nenhum osso. O mais perto disso fora meu braço destroncado pela minha irmã mais velha acidentalmente durante uma brincadeira quanto eu tinha 4 anos. Era um título do qual eu me orgulhava muito. Esse de não ter quebrado nenhum osso. Mas a vida é assim, um dia você tá inteira, no próximo você bate no sofá do seu ex — ou no tanque da sua casa — e parte o dedo. Ou os dedos.

A questão é que dessa vez eu não fui correndo pra casa. Ano passado meu pai veio lá de 430km de distância para me salvar. Esse ano eu decidi ficar. Primeiro, porque minha mãe disse que eu não deveria perder uma palestra que vou dar na semana que vem. Segundo, porque minha gata tá recém-operada da castração. Terceiro, porque eu não quis dar trabalho pros meus pais/gastar esse dinheiro. Quarto e talvez o mais importante: eu percebi (admito que após um pequeno acesso de tristeza) de que a vida adulta é isso

A gente quebra o dedo e tem que se virar longe dos pais.

E essa coisa de ser adulto é um longo e talvez eterno aprendizado. Minha psicóloga acha um pouco engraçado eu ver a vida adulta como fases a serem completadas. Fazer faxina, lavar suas próprias roupas, sair da casa dos pais, cozinhar, perder algum ente querido para o lado de lá, se manter vivo em outra cidade, morar sozinho real, procurar um emprego, manter um relacionamento amoroso, ter móveis decentes, ter um emprego, terminar um relacionamento amoroso, aprender a consertar coisas da casa, perder o emprego,catar piolhos de uma criança, sobreviver ao término do relacionamento amoroso, fazer feira… Enfim, para mim são vários os momentos em que percebi que estava/estou virando adulta. Ou que sou adulta.

Tem também os sinais externos. Quando sua amiga vai morar com o namorado. Quando seu colega de escola tem um filho. Quando sua outra amiga é madrinha de casamento. Quando sua colega de escola casa. Quando sua amiga consegue um emprego importante numa multinacional. Quando seu amigo se forma na pós. Quando a irmãzinha do seu amigo entra na faculdade. Quando aquela garotinha que você pegou no colo engravida. Quando seu primo tem um filho. Quando o pai do seu amigo faz 60 anos.

Para mim, existem os momentos em que a gente percebe que as coisas mudaram. Às vezes eu fico estarrecida. Tuíto tudo em caixa alta. Às vezes eu dou um sorriso e penso que legal que as coisas mudaram. Às vezes eu olho a chapa do meu pé no raio X e digo “me recuso a ter quebrado meu pé de novo”. Nem sempre funciona. Mas ninguém pode me acusar de não ter tentado. A vida adulta é o presente, mas a quinta série é logo ali. A gente só tem que saber quando deixar cada uma vir a tona.

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