Velho Barreiro ou Groselha?

No meu segundo mês como estudante universitária, fui à minha primeira festa open bar. Era final do Paulistão 2011, Santos x Corinthians, e uma república fez uma festa por 12 reais, open de Brahma e salgadinho torcida (bons tempos). Fui para me entrosar mais com o pessoal do curso e assistir ao jogo do meu time de coração. O Santos foi campeão naquele dia e eu tomei os primeiros três copos de cerveja da minha vida.

Meus amigos mais próximos da época da adolescência bebiam desde que a gente tinha 14, 15 anos, mas eu não achava certo beber sem ter os 18 anos recomendados pela lei e tinha medo de ficar muito bêbada e minha mãe descobrir. Além de não ter muito dinheiro, então era bom poder sair sem gastar nada com uma justificativa mais plausível do que a “não bebo”. Porque só quem é abstêmio sabe as consequências de dizer isso em voz alta. E também, eu não sentia falta do álcool. Nunca senti.

Frequento bares desde essa época aí, normalmente não consumia nada para economizar ou então contribuía com dinheiro da porção de fritas ou de amendoim — bem raro de serem pedidas. Muitas vezes eu completava a conta com dois ou cinco reais, porque meus amigos já estavam bêbados demais para ter noção do quanto podiam gastar. Foram inúmeras as vezes que cogitamos sair correndo do boteco porque não tínhamos dinheiro para pagar. Tudo isso se tornaram lembranças e me recordo sempre com carinho dessa época.

Passei no vestibular dois meses depois de completar 18 anos e cheguei na faculdade sem o costume e interesse por beber álcool. Mas nesse dia da festa, como eu tinha pago, achei que precisava beber um pouco para compensar a grana investida. Foi assim que comecei a beber, aos poucos. Porque eu gostava de ir em festas para me divertir — especialmente as de república — e no convite sempre era incluso o dinheiro do álcool.

Em jornalismo, como em qualquer outro curso que eu tenha conhecimento, existe uma festa de libertação dos bixos — ou tinha, não sei mais como andam as tradições, muita coisa mudou e morreu, feliz e infelizmente — e nela os bixos são batizados. Em jornal a gente é batizado com a mistura de Velho Barreiro e groselha. Mas quem não bebe pode ser batizado só com groselha. Eu fui batizada só com groselha, porque tinha medo de passar mal, dar o famoso PT e fugi dos veteranos que andavam com garrafas de bebida pela festa batizando os bixos até acabar o estoque.

Esse texto não quer criminalizar as festas universitárias, muito menos as pessoas envolvidas nela, mas eu queria falar sobre o abuso de álcool nos dias atuais.

Eu não sei quando eu passei a gostar de tomar cerveja, mas esse dia aconteceu. E então, de beber esporadicamente em festas passei a beber com meus amigos nos bares e de repente, um dinheiro das compras do mês era reservado para duas garrafas de Budweiser ou Heineken (ryca nas brejas, mas jantava miojo — prioridades, migos) para eventual necessidade.

Houve dias em que exagerei no álcool e não lembro exatamente de tudo o que aconteceu na noite anterior. Houve dias em que exagerei no álcool e peguei o ex de uma grande amiga minha. Houve dias que exagerei no álcool e chorei no banheiro da festa por ter o coração partido. Houve dias que exagerei no álcool e achei que iria vomitar tudo. Mas nunca aconteceu. Sim, passei quatro anos e meio na faculdade e nunca dei PT. Consegui uma vitória. Mas por que isso é uma vitória?

De vez em quando, no meio da festa, eu olhava pros lados e via aquela montanha de gente embriagada. Gente vomitando. Gente dormindo no canto. Gente sendo carregada. Gente que nem conseguiu chegar na festa porque passou mal antes. E isso não é exclusivo de festas universitárias. Da baladinha top ao rolezinho alterna, eu já vi gente bebendo além da conta e passando mal.

Sim, eu problematizava no meio do rolê. Internamente, mas problematizava. Um amigo querido um dia me disse que tem um momento da festa que parece que eu paro e fico pensando no trabalho para entregar na segunda-feira. Eu ri quando ele me disse isso. Mas é a verdade. Gente muito bêbada me incomoda até quando eu estou muito bêbada, porque eu nunca entendi a necessidade disso.

Talvez seja um traço da minha personalidade ansiosa. E é engraçado, porque foi ela que me fez parar no consultório médico e sair com receitas de remédios psiquiátricos. E eu passei os próximos seis meses sem ingerir uma gota de álcool. E ainda hoje, eu bebo pouco, bem pouco.

E essa parada forçada na vida de beber álcool me fez perceber o quanto a gente bebe a mais sem necessidade. O quanto a gente bebe. Eu, você, o lixeiro e tua chefe. A gente bebe pra caralho. Por que a gente bebe tanto?

Um dos motivos de eu ir procurar tratamento com uma psicóloga foi porque percebi que estava abusando do álcool. Era época de TCC e eu estava escrevendo um livro. O tema do meu livro mexeu muito comigo e eu sabia que ia mexer, mas é aquela coisa né, eu precisava escrevê-lo. Mas eu não conseguia lidar com a pressão direito. E meu refúgio era o bar.

Antes de continuar essa parte, queria ressaltar que o bar — o boteco na verdade — é o meu lugar favorito do mundo. De preferência que tenha mesa de plástico, banheiro imundo e copo americano. Se for mesa de madeira, que tenha umas cadeiras bambas ou um riscos na mesa. Eu entro num lugar desses e me sinto em casa. Tem que ter o tiozão solitário. E se quiser melhorar, uma mesa de bilhar. Eu não sei o porquê disso, meus pais nunca me levavam ao bar, se é isso que você tá pensando, mas eu me sinto bem, me sinto feliz, eu gosto de saber que bares existem. Ponto.

Levando isso em conta, me refugiar no bar não parece tão inusitado. Porque eu ia para lá para conversar com os amigos sobre as agruras da vida de quase formada. O desespero de conseguir um emprego. O medo de falhar no livro. Mas isso começou a ser regado a muita cerveja. Muita cerveja mesmo. E aí eu me vi bebendo em casa, porque não conseguia desligar. Só que isso me preocupou. Porque eu não estava mais bebendo porque eu gosto do gosto da Brahminha de Agudos (quem for da região de Bauru/SP, sabe do que eu tô falando), era porque eu precisava escapar por algumas horas dos problemas. E como eu sou ansiosa, já me vi deitada na calçada, amigos. Corri para psicóloga e parei de abusar da bebida.

E todos essas pausas no álcool me fizeram reviver o que eu viva com 15 anos: não beber é um pecado. No passado, as pessoas me falavam

“porque nossa, é tão gostoso uma cerveja gelada no calor”

“você diz que não gosta porque nunca experimentou”

“mas bebe só um pouquinho, para acompanhar”

“é só um brinde, pega um copo”

Mas eu sou teimosa, galera, então eu não arredava o pé, porque nenhum desses motivos era bom o suficiente para rever meus conceitos.

Hoje, é pior, porque pensa assim ó: você não consegue dormir, não consegue comer, mal consegue levantar da cama, cê assiste Friends tremendo, aí cê corre na psiquiatra, ela te dá um remédio e tu volta a dormir, a comer, a levantar da cama e a assistir Friends de boas como outrora e vem um feladaputa te dizer “que triste você não poder mais beber”. Amigo, eu durmo de novo durante oito horas, eu quero que a cerveja se exploda!

Mas sempre tem um iluminado que te fala pra largar os remédios, porque essa depressão aí é falta de bebida.

“quando eu tô triste eu venho pro bar, bebo algumas, jogo conversa fora e melhoro, você precisa disso também”

“nossa, mas não pode beber nada? nadinha? credo”

“mas você vai se divertir como?”

“mas um golinho só não faz mal, miga”

“eu não ia sobreviver assim”

PUTA QUE ME PARIU! (com todo respeito a senhora minha mãe)

Em primeiro lugar, eu nunca precisei de álcool para me divertir. Eu fui em várias festas nesse período do tratamento e adivinhem? Me diverti como sempre. Eu até fui numa formatura sem beber, caras. É possível.

Em segundo lugar, para de ser babaca e não questione o tratamento da pessoa. Se ela tá tomando remédio, é porque ela achou necessário. E o médico também achou. “Ai, mas tem médico que fica empurrando remédio pra paciente”, sim, (vamos falar disso em outro texto, inclusive), mas se esse é sua preocupação, você não vai falar dela só quando a pessoa diz que não pode beber. Entende?

Você tá mais preocupado que a pessoa vai beber suco de laranja no bar do que se ela tá sem dormir há três semanas. Qual o seu problema? E infelizmente não foi só uma pessoa que me falou isso, foram várias.

Nossa sociedade é construída em cima do consumo de bebida alcoólica e isso me assusta. A vida parece que só vale a pena se você ficar locão no final de semana e com uma puta ressaca no domingo. Se você esquecer do que fez na sexta à noite.

“ai, teve um dia que eu passei tão mal que dormi deitado no chão do banheiro”

“e aquele dia que eu voltei pra casa e nem me lembro como?”

“nossa, teve uma vez que eu quase bati o carro de tão bêbado que eu estava”

“caralho, aquela festa foi muito louca, nem lembro do final dela”

“hahahah e o dia que eu dormi na rua porque tava tão bêbado que não aguentei chegar em casa?”

e

continua

infinitamente

porque

o

hobby

das

pessoas

é

se

gabar

de

ficar

muito

loco,

meu.

Eu não vejo problema em beber. Eu amo bar, já disse isso. Mas eu vejo um problema em ficar bêbado todo final de semana. Toda festa. Todo rolê. Sempre tem o amigo que “queima a largada”. Por que essa pessoa bebe tanto em tão pouco tempo? Isso não deveria ser normal.

Eu faço um mea culpa agora. Também já questionei pessoas que não bebem. Também já me gabei de alguma aventura alcoolizada que vivi. Também já fui uma veterana atrás de embebedar bixos. Também já bebi além do limite do meu corpo. E provavelmente isso vai acontecer de novo. E talvez até mais uma vez. Porque nossa sociedade é assim. O bacana é beber muito. Cê não pode ir no bar e beber só duas garrafas de cerveja durante a noite toda. Tem que beber muito e não pode passar mal. Tem que beber muito e aguentar o rolê do próximo dia. O final de semana começa na quinta com brahminha e termina no domingo com aquela ressaca de vodca da noite anterior. E toda semana isso se repete.

Toda semana isso se repete e toda semana, eu sendo a pessoa com ressaca ou a que ficou em casa vendo Netflix, me pergunto o porquê disso tudo. Por que a gente precisa tanto perder o controle?

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